quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antologia Poética


Canção de uma sombra





Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha
janela onde me vou
Debruçar, para ouvir a
voz das coisas,
Eu não era o que sou.



Se não fosse esta
fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou…
E este
sol, que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.


Ah, se não fosse este
luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.


E se a
estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o
vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.


Ah, se não fosse a
noite misteriosa
Que meus olhos de sombra povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.


Sem esta
terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos
montes e arvoredos,
Eu não era o que sou.




Teixeira de Pascoaes



In Andresen, Sophia de Mello Breyner, Primeiro Livro de Poesia, Caminho, 1996, 4ª edição, pp. 118-119





......................




Uma história de vida


(à maneira de... Teixeira de Pascoaes)





Sou a síntese da herança genética que transporto,
do que vi, ouvi, li, aprendi, vivi…
do que recordo e do que esqueci.
Sou o fruto da influência da família, dos professores,
dos meus amigos.


Se?…
Se eu não fosse habitada por tantas histórias e gentes
Eu não era o que sou.


Se eu não tivesse África como raiz da vida
Se não tivesse uma tetravó negra
avós e pai metropolitanos, emigrantes…
Se não tivesse pele branca e olhos azuis
Se não tivesse tido sempre o mar como horizonte do olhar…


Se eu não tivesse sido imbuída de uma cultura cristã
Se não tivesse tido mãe atenta e uma pequenina irmã
Se não tivesse tido um quintal, trepado às árvores,
descosido e rasgado vestidos na subida,
Arriscando um castigo, pois usar calças era proibido…


Se não tivesse aprendido a viver sem luxos
gerindo e gerando recursos
Se não tivesse mudado de continente, de país, de cidade… 
em viagem impregnada de mar, baloiçada num vapor,  dias a fio
Se não me tornasse imigrante…


Se não tivesse estudado o que estudei
Não tivesse partido solitária e autónoma
para uma cidade universitária,
lá longe, algures, algum tempo…
Se não tivesse sido professora durante décadas,
Bibliotecária, alguns anos,
Leitora,
Amadora amante de teatro, cinema, de arte, enfim


Se não gostasse de crianças
Se não conservasse em mim a criança que fui
Se não fosse desatenta e curiosa
Desajeitada e plena de energia
Insegura, querendo ser segura
Determinada a aprender


Se não tivesse sido Mãe repetidamente, uma vez… outra vez…
Se não tivesse sido Avó… uma, mais uma, mais outra vez…
e ainda outra vez virá…


Se não tivesse vez o casamento
o divórcio…
Se não permanecesse aberta à lição da vida
Ao desejo de a deixar fluir… e dela fruir, em plenitude…
Se não tivesse vencido cada dificuldade
como quem enfrenta um desafio
Se não tivesse quem me amparasse no voo…


Se não conservasse a saúde
Se perdesse a alegria
a espontaneidade
a inocência do olhar
a capacidade de sonhar


Se não fizesse projectos que dão sentido à vida
E não mantivesse a sede de evoluir e construir


Se deixasse de fruir da bonança
e de resistir à tempestade
Se deixasse de escrever
conviver
ver
fotografar
querer saber
querer viver
rir…


Se assim fosse
Eu não seria eu!


Eu não era o que sou.


Manuela Caeiro




quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Prémio Nobel da Literatura 2009

A Academia sueca já decidiu o vencedor do ano. Aliás, a vencedora: Herta Muller, escritora alemã de origem romena. A notícia aqui está, à distância de um clique:

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poesia em animação...


José Saramago escreveu, em 2001, o seu único conto infantil...
...que, cinco anos mais tarde, foi transformado numa premiada curta metragem de animação, por Juan Pablo Etcheverry.
Palavras e imagens fundidas numa estética profundamente poética...
A não perder:

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Parabéns, Mafalda!


«Mafalda, a personagem de BD que o argentino Quino idealizou para um anúncio a electrodomésticos, celebra hoje 45 anos no papel de uma das mais improváveis e divertidas comentadoras políticas da actualidade.
De traços simples, cabelo negro farto e muito opinativa, Mafalda surgiu pela primeira vez a 29 de Setembro de 1964 nas páginas do semanário argentino "Primera Plana". Quino, então com 32 anos, nunca adivinharia o sucesso daquelas tiras humorísticas, que se prolongaram por nove anos. (...) À primeira vista, Mafalda podia ser uma menina de seis anos, reguila, desafiadora e descarada, mas depressa se percebeu que da sua boca, dos balões que Quino preenchia, saíam comentários mordazes e pertinentes sobre a ordem do mundo, a luta de classes, o capitalismo e o comunismo, mas também, de forma mais subtil, sobre a situação política e social argentina. (...) A par da atitude de adulto mas com o desarmante discurso de uma criança, Mafalda tinha essa mesma condição de menina, que detestava sopa, adorava os Beatles, não compreendia a guerra no Vietname e tinha monólogos preocupados em frente a um globo terrestre. » In: http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/538454
«No passado dia 30 de Agosto, um discreto senhor de 77 anos sentou-se num banco da Rua do Chile, 73, em Buenos Aires, ao lado da estátua de uma menina em tamanho natural (...)
O senhor de idade era o desenhador Quino, e a menina da estátua, Mafalda, a sua grande criação, que hoje faz 45 anos. E, no edifício junto ao qual a estátua foi inaugurada, viveu Quino (aliás, Joaquín Salvador Lavado) durante a sua infância. (...) Em 1973, e em plena crista da onda de popularidade, Quino decidiu parar de desenhar Mafalda, para evitar cair na repetição e na rotina, e para se dedicar ao desenho de humor e à caricatura. (...) Mafalda continua viva como nunca, e os seus álbuns a esgotar edições. E agora, aos 45 anos, até já tem uma estátua ao pé do prédio onde viveu o "pai" Quino quando era miúdo como ela.» http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1375374

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um novo ano...







O Outono vem chegando de mansinho.
Empalidece o sol, soltam-se as folhas douradas embaladas pelo vento..., as folhas dos livros e cadernos novos sussurram pedidos de atenção...
É um novo ano lectivo que começa.

Tempo de aprender.
Numa escola para todos, sem olhar a sexo, origem social, país natal...
Universal e obrigatória.
Uma conquista do nosso tempo.
Uma aposta vital.



Quase esquecemos que nem sempre assim foi!

A velhinha escola António José Gomes, da Cova da Piedade,

de 1911, hoje transformada em museu, destinava-se exclusivamente ao sexo masculino. Haveria outra para o sexo feminino, pensarão. É verdade, mas não com esta dignidade, acanhada no 1º andar de um prédio... e destinada apenas àquelas cujos pais consideravam que valia a pena "pôr a estudar". 
Ainda assim, aí estudavam muitas meninas, da 1ª à 4ª "classes", entregues à atenção constante de uma única professora, Conceição Sameiro Antunes, sem dúvida uma das precursoras heróicas da aplicação do método de ensino diferenciado...
Ter estudado abriu-lhes as portas do futuro. Reconhecemo-lo hoje, com naturalidade. Assim se foram esbatendo as diferenças de género; assim se tem construído a igualdade.


Hoje em dia, acreditamos que cada professor lecciona um único ano de escolaridade... Ilusão! Cada turma tem alunos mais e menos adiantados, mais e menos motivados, alunos estrangeiros, alguns com necessidades educativas especiais... Subgrupos muito diversos, condições adversas. Exigindo uma resposta construída de dedicação, criatividade, empenhamento... Muito esforço. Nem sempre valorizado. Nem sempre bem sucedido.

Às famílias compete um papel diferente, igualmente exigente: conciliar o seu horário profissional (mais o tempo de deslocação) com os toques de campainha das crianças, com a necessária disponibilidade para cuidar delas e as apoiar... Tarefa hercúlea. Que vale o esforço!

Afinal, é na criança que reside a chave do sucesso de aprender.
Não basta ensinar!...
O estudante precisa de reconhecer a importância do saber, dar valor ao trabalho, sentir confiança e auto-estima. Por fim, tudo será (mais) fácil...

O insucesso terá um único culpado?
A resposta chega em tom de humor (surripiado ao blogue "A malta do Montijo" http://amaltadomontijo.blogspot.com/ ):



Recorrendo à gíria escolar, é tempo de desejar - aos jovens, seus pais, professores e demais trabalhadores das escolas - um bem sucedido e FELIZ ANO NOVO!... 

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Verdade e mentira da fotografia... (Citação)


«(...) Dizem que as fotografias não mentem, mas essa é a maior mentira que já ouvi.
E foi assim, abrindo a gaveta à procura de qualquer coisa, que, sem aviso, me escorregou para as mãos uma fotografia tua tirada durante aqueles quatro dias. Fiquei a olhar-te longamente, longa, longa, longamente. Longamente me fui dando conta de que tudo aquilo acontecera mesmo: eu não o sonhara, durante vinte anos.
Nisso, quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá, as fotografias não mentem - esse instante existiu mesmo. Porém, a mentira consiste em pensar que esse instante é eterno, que dois amantes felizes e abraçados numa fotografia ficaram para sempre felizes e abraçados.
É por isso que não gosto de olhar para fotografias antigas: se alguma coisa elas reflectem, não é a felicidade, mas sim a traição - quando mais não seja a traição do tempo, a traição daquele mesmo instante em que ali ficámos aprisionados no tempo. Suspensos e felizes, como se a felicidade se pudesse suspender carregando no botão "pause" no filme da vida. (...)»

Miguel Sousa Tavares, No teu deserto, Oficina do Livro, 2009

domingo, 13 de setembro de 2009

Leituras de Verão...


Impõe-se um comentário aos livros lidos. E não basta dizer "Gostei" ou, menos ainda, "É bonito" ou coisa do género. Já no Liceu, há muitos, muitos anos, aprendi que não, isso nunca!...
Acontece que não estou a fazer nenhum trabalho escolar e muito menos uma crítica para um qualquer meio de comunicação social... Não se trata de trabalho! Sorte a minha!...

O que irei referir em torno do tema que livremente escolhi é decisão pessoal. Despretensiosa, como sempre. Simples apontamentos.

Questiono-me sobre a intenção com que falo das minhas leituras de Verão: quatro livros que saltaram um tanto ao acaso de entre pesadas pilhas em fila de espera, vendo consumado o paciente e mudo desejo de que chegasse a sua vez. Casualmente, escolhi dois autores portugueses, dois estrangeiros, todos contemporâneos, vivos.

Antes do mais, este meu acto de escrita constitui um momento de síntese sobre as cerca de mil páginas lidas. Não nego igualmente a intenção de, eventualmente, por este meio, colaborar na respectiva divulgação...
Não será essa, afinal, a vocação de um blogue?




A gaiola de ouro, de Shirin Ebadi, explica-nos a História recente do Irão. As Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa, fala-nos da História recente do Peru.
Se dantes talvez adormecêssemos ao ler os manuais de História, agora temos a oportunidade de saber mais, sem esforço e com prazer...

Ambos os romances tecem uma história que nos prende a atenção e nos ajuda a compreender a política do mundo em que vivemos, enquanto as personagens destes dois romances se movem por entre a ficção, bem assentes na realidade da nossa época, na sua terra.

Mario Vargas Llosa apimenta a narrativa em torno das relações de uma "menina má" e de um "menino bom", deixando o leitor sempre em suspenso, tentando descortinar o surpreendente desfecho daquela inexplicável história de amor... tão particular quanto qualquer outra.

Shirin Ebadi, advogada e activista dos direitos humanos, Nobel da Paz em 2003, adopta uma atitude de denúncia: centra a sua história numa família, cada um dos irmãos seguindo um ideal de vida e um percurso diferente, cada qual preso em seu beco sem saída... como o seu país natal.

Nos romances nacionais, a História não é tema de eleição. Naturalmente.

Manuel Córrego (pseudónimo literário de Manuel Pereira da Costa) é advogado ligado às Letras, por diversas vezes galardoado. O seu livro Vento de Pedra foi distinguido com o prémio literário Ordem de Advogados, 2008.
A ênfase deste seu romance é dada à condição humana, com destaque para a condição feminina, em gerações sucessivas de um passado recente, no norte do país. Muitas histórias se entrelaçam no seu fio condutor. As peripécias sucedem-se e os valores questionados não nos deixam sentir indiferentes. Uma narrativa densa e bem escrita conduzida por narradores que alternam sem aviso, o que nos espicaça a atenção e a curiosidade, até ao inevitável final.

Em No teu deserto, Miguel Sousa Tavares evoca memórias, mais ou menos romanceadas. Relata uma viagem pelo deserto, em que "ele" segue com duas máquinas fotográficas e outra de filmar, em riste, decidido a respeitar o compromisso de fazer reportagens para periódicos e televisão, tendo por companhia, meio acidental, uma jovem com quem con-viveu intensamente um «quase romance».
Surpreendentemente, o desenlace é desvendado logo de início, mas a expectativa não decresce pois as circunstâncias e motivos conservam o seu segredo e a curiosidade acelera, pelo contrário, o ritmo de leitura, na esperança de descobrirmos rapidamente o que falta saber (tanto mais que o livro é curto... e se lê bem...)

Quatro livros, quatro convites à leitura:
  • Córrego, Manuel, Vento de Pedra, Sopa de Letras, 2008
  • Ebadi, Shirin, A gaiola de ouro, A Esfera dos Livros, 2009
  • Llosa, Mario Vargas, Travessuras da menina má, Dom Quixote, 2006
  • Tavares, Miguel Sousa, No teu deserto, Oficina do Livro, 2009
Pessoalmente, não saberei aconselhar qual deles não perder... nem por qual começar...
A cada um, a sua livre opção. Fruto do acaso ou da vontade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

«Quem inventou o mês de Agosto?!...»


Ferragudo. Agosto. Tarde de sol tórrido. Raros se atrevem a mergulhar no rio Arade. Maré cheia, águas relativamente límpidas, mas as sujas margens desaconselham o banho apetecido. Que calor!

Um beco sem saída desemboca num pontão junto à foz do rio. Em frente, o mar. Na outra margem, Portimão.
A placa é clara: trânsito proíbido, excepto a residentes. Escassos veículos ousam a transgressão. Apenas peões se permitem aí sentir a brisa do Oceano, talvez pescar... ou simplesmente sentarem-se numa das esplanadas, beber uma água fresca ou tomar uma refeição, ainda que a desoras... De facto, as convidativas mesas estão sempre postas. Em enormes grelhadores, as brasas ardem em permanência, prontas para saborosos petiscos. Quanto calor!

Nesta latitude, Agosto é sinónimo de Verão. Agosto é praia. Mar, sal e sol. Costa de braços abertos para todo um país em férias. Para os nossos emigrantes que voltam, ano a ano. E não só: também para um bom punhado de espanhóis, ingleses e demais turistas "multinacionais"...

Quem inventou Agosto povoou cada pequena baía, fazendo crescer infinitamente uma antiga aldeia de pescadores... Encheu as arribas de casas que em Agosto abrem janelas e estendem toalhas salgadas ao sol...

Quem inventou Agosto engarrafou com filas de carros cada caminho que desemboca numa praia, para alegria de quem tem de trabalhar na grande cidade, mais a norte... Não a sul.
Gente, gente, gente... Calor!...

Quem inventou Agosto treinou a paciência de quem conduz e procura estacionar um automóvel... ou a de quem aguarda pacientemente ser atendido numa qualquer fila, em pastelaria, restaurante, minimercado, farmácia ou correio... suportando o calor. A custo.
Tudo sem importância quando finalmente se estende a toalha no areal e se mergulha na praia. Frescura!...

Agosto inventado, tem vencimento extra. Saldos. Passeios. Convívio. Tempo livre. Repouso. Preguiça subsidiada. Que o calor amplia.

«Quem inventou o mês de Agosto?!» foi uma pergunta que não espelhava alegria. Pelo contrário, soava a interjeição de grande desânimo. Quem assim falava era a empregada de mesa de um daqueles restaurantes, enquanto repunha uma mesa pela enésima, digo, pela milionésima vez, naquele tórrido dia de Agosto, sentindo o cansaço de um dia, aliás, de todo um mês que nunca mais chegava ao fim.
Com a fadiga de quem trabalha para proporcionar férias a quem as pode gozar.

Talvez ela suspire hoje de alívio, agora que as auto-estradas já registaram a avalanche do regresso a casa.

Talvez a Economia tenha sido relançada, assim esperamos! Mas provavelmente tal não trará grande reflexo para as suas magras finanças...

Para a «história» ficarão o sabor a mar, as recordações e as fotografias dos veraneantes. O calendário aguardando o próximo Estio. O desejo de regressar.


domingo, 19 de julho de 2009

Fantasias da Lua...

Faz hoje 40 anos que Neil Armstrong desceu da Apolo 11, pisando a Lua pela primeira vez, aí dando então "um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a Humanidade". De facto.

Assistimos pela televisão, a preto e branco...
Quem não tinha televisor, acorreu a casa de um generoso vizinho mais abonado, com posses para pagar o aparelho e a taxa mensal, ou então ao café mais próximo... ou talvez se tenha mesmo limitado a ver, incapaz de ouvir, de olhos postos numa montra de electrodomésticos com uma ou outra TV ligada, como técnica de vendas...

Um feito que fazia crescer o entusiasmo.

Grassava alguma incredulidade: «Será que foram dar a outro lado e julgam que estão na Lua?...» Dúvidas de gente de boa-fé.

Com a desconfiança própria dos homens informados que não encontram respostas para as suspeitas que teimam em desvendar, há quem ainda hoje reúna provas para defender a tese de fraude e conspiração, em que estariam envolvidos Richard Nixon, a NASA e Stanley Kubrick...
O Homem não teria chegado à Lua em 20 de Julho de 1969?!

Não creio.

Há aqueles que não escondem outro tipo de preocupações: «Os Verões já não são iguais, faz frio em vez de calor ou o inverso, chove demais ou de menos?... Desde que os homens se meteram a caminho da Lua...»
Mexeram com as nuvens e, obviamente, influenciaram a Meteorologia?!...

Também não creio.


Porém, tenho crenças.

A Lua é um satélite fiel e influente na nossa vida.
Poderá continuar a receber visitantes, exibir bandeiras, aceitar sondas e câmaras... dispensar pedaços de si que permitirão o avanço da Astronomia e da Ciência, em geral... tornar-se-á cada vez menos misteriosa para o Homem.

Contudo, conservará os seus mistérios...
Assim permanecendo cheia de encanto e magia.
A um ritmo certo, crescerá e minguará... será pródiga de luar e voltará a ocultar-se...
Sucederá ao Sol.
Manter-se-á ligada à noite, ao sonho, à inspiração.
Farta em fantasia.
Como nos habituou.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Um livro de peso...


Tem 4032 páginas, uma lombada de 32,2 cm e pesa mais de 8 Kg este livro com todas as obras de Agatha Christie cuja personagem é Miss Marple: 12 romances e 20 contos.
É um record mundial, protagonizado recentemente pela HarperCollins, da Grã-Bretanha.
A primeira (e talvez única) edição foi de 500 exemplares, sendo o custo de cada livro de £ 1000,00 (mil libras), isto é, aproximadamente € 1200,00 (mil e duzentos euros).
É certamente uma leitura indicada para gente endinheirada, forte e musculada, com vontade férrea de ler...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Para uma antologia poética

O homem, bicho da Terra tão pequeno chateia-se na Terra lugar de muita miséria e pouca diversão, faz um foguete, uma cápsula, um módulo toca para a Lua desce cauteloso na Lua pisa na Lua planta bandeirola na Lua experimenta a Lua coloniza a Lua civiliza a Lua humaniza a Lua. Lua humanizada: tão igual à Terra. O homem chateia-se na Lua. Vamos para Marte — ordena a suas máquinas. Elas obedecem, o homem desce em Marte pisa em Marte experimenta coloniza civiliza humaniza Marte com engenho e arte. Marte humanizado, que lugar quadrado. Vamos a outra parte? Claro — diz o engenho sofisticado e dócil. Vamos a Vênus. O homem põe o pé em Vênus, vê o visto — é isto? idem idem idem. O homem funde a cuca se não for a Júpiter proclamar justiça junto com injustiça repetir a fossa repetir o inquieto repetitório. Outros planetas restam para outras colônias. O espaço todo vira Terra-a-terra. O homem chega ao Sol ou dá uma volta só para tever? Não-vê que ele inventa roupa insiderável de viver no Sol. Põe o pé e: mas que chato é o Sol, falso touro espanhol domado. Restam outros sistemas fora do solar a col- onizar. Ao acabarem todos só resta ao homem (estará equipado?) a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar civilizar humanizar o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de con-viver. Carlos Drummond de Andrade, In As Impurezas do Branco, José Olympio, Graña Drummond, 1973

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Estes pobres...

Acontece todos os dias. Fazem fila. Movem-se norteados pelo objectivo da sobrevivência. Querem passar despercebidos. Aguardam. Resignam-se a aceitar apoio, uma cama, uma refeição gratuita. São os novos pobres. Têm habilitações literárias, muitas vezes de nível superior. Um currículo experientado. Trabalharam anos a fio. Viram as suas empresas falir, os seus postos de trabalho extinguir-se, fugir o seu ganha-pão. Subitamente. Viviam condignamente, desafogadamente. Hoje, numa idade que soma anos, sentem-se capazes de tudo, incapazes para tudo. Agora, sobra tempo para deitar contas à vida. Todo o futuro é para reequacionar. Talvez a sós. Que a família não suspeite da má sorte. Com sorte, restam-lhes um magro subsídio de desemprego, poupanças a rarear... Uma baixa médica, uma esperança de reforma antecipada. Vender algo que não compraram barato, mesmo ao desbarato. É preciso viver a curto prazo. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa. A depressão ronda. É preciso resistir. Sem sucumbir. A causa é citada a cada passo: Crise. É a Crise. Sim, a crise da Economia. Uma crise que tudo justifica, sem justificação. Uma crise a nível global, mas não geral. Basta ver as gritantes desigualdades sociais: os que têm e os que não têm direito a subsídio de desemprego; as pensões irrisórias e as outras, chorudas; os salários mínimos e aqueles outros, milionários... A mais paupérrima miséria de quem ignora o que fazer para pedir socorro, a par da frenética ganância de quem tudo tem e quer cada vez mais. Não olhando a meios para atingir fins. Sem sobressaltos de consciência pela necessidade de justiça social. Indiferente a solidariedade social. São muitos os braços inertes que tanto ainda poderiam construir! Demasiada a inteligência desaproveitada! Excessiva, a energia desperdiçada! Esmagadora, esta selvática Economia. “Sempre assim foi, sempre assim será.”- dirão muitos. “Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar” – cantava uma respeitável voz resistente. Certo é que não é possível aceitarmos este caos como algo pacífico e sem remédio. Faltam oportunidades para quem ainda muito pode contribuir com as suas competências e apetências para um mundo melhor. Inventemos saídas para a Crise. Aposte-se na Educação. Na Saúde (“...um bem-estar social e mental...”, segundo a Organização Mundial de Saúde. Como estar mais de acordo?) Aposte-se na Justiça. Recrie-se esta sociedade injusta que prescinde de alguém humana e socialmente útil, como de uma peça enferrujada e sem préstimo... colocada à margem, apenas, vá lá (o que não chega para nos tranquilizar!) com direito à sopa dos pobres...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Escutando Glenn Miller...



Glenn Miller nasceu nos Estados Unidos, há 105 anos (1/3/1904). Tocava trombone, na era do swing, e dirigiu famosas "big band", entre 1939 e 1942.
Ingressou no exército americano durante a II Guerra Mundial e dirigiu a Orquestra da Força Aérea.
Morreu jovem, em 1944, num dramático acidente aéreo.
Há quem afirme que ele foi o paradigma da música popular do seu tempo.

Esta postagem pretende ser uma homenagem...

sábado, 2 de maio de 2009

Foi baptizado, o Tomás...

Logo para começar, tropeço no título. Baptizado ou batizado? Com "pê" ou sem ele?... Opto pela convenção anterior ao novo acordo ortográfico, com consoante muda, mas muito viva e cheia de História. Vendo bem, o acordo não entrou ainda em vigor. Infelizmente, não irá resolver a uniformidade da língua portuguesa no mundo, o que seria a sua mais-valia. Adiante.


Salto prontamente para a personagem principal: o mais novo membro da família, o Tomás. Com apenas quatro meses, reuniu em torno de si, numa bonita igrejinha de Setúbal, meia dúzia de crianças e três dezenas de familiares e amigos, todos animados para assistir ao seu baptizado.

Que ganhou ele com o seu baptismo? «Ficou livre do "pecado original", passou a ser membro da comunidade cristã e tornou-se filho de Deus, a quem, doravante, pode chamar Pai.» - esclareceu o jovem padre.

Este, realmente jovem, seguiu criteriosamente, um a um, os rituais da cerimónia do baptismo e preparou cuidadosamente o seu sermão. Foi explicando, com rigor, a razão de ser de todo o habitual cerimonial. Apimentou o discurso ao falar sobre a facilidade de se ter um filho, com afirmações ligeiras de quem carece de experiência de vida. Compreensível, lamentavelmente.

Como lhe competia, o senhor padre fez questão de tudo orientar bem como de vigiar o cumprimento de regras, na sua casa de Deus. Intransigentemente. Pregou, literalmente, vários "sermões", com a autoridade de um "magister dixit". Faltou-lhe a bonomia de quem desculpa um atraso, de quem compreende a alegria simples de um encontro há muito esperado, de quem entende o precipitado entusiasmo daquele que se instala num lugar menos próprio para captar o melhor ângulo para uma fotografia, num momento especial...

Esperar-se-ia que ele, na sua igreja, pudesse ser como um pai tolerante e compreensivo ou como um anfitrião que acolhesse simpaticamente as suas visitas. Desejar-se-ia que ele fizesse sentir ali bem todos e cada um; que fizesse crescer em alguns daqueles que raramente o visitam o desejo de lá voltar; que talvez assim aumentasse o "rebanho" cada vez mais disperso por novas igrejas, hoje sediadas em caves, garagens, antigas lojas, velhos cinemas, em espaços mais ou menos nobres, espalhados por este e por aquele mundo fora...

Porquê toda esta debandada, quando tanta gente é explorada por corruptos autodenominados "ministros de Deus"? Talvez por uma fé pouco racional, por uma esperança... Por falsas promessas, talvez... Certamente porque a sua nova igreja os acolhe, os escuta, os faz participar e sentir-se parte de uma comunidade.

Esta velha igreja (em que fui baptizada e educada), por muito que custe admitir, tem de reformular objectivos, repensar estratégias, renovar métodos; formar padres com competências sociais e humanas para novos tempos. Se quiser cativar e acolher.

O Tomás, por enquanto, mantém-se imperturbável perante a aparente carência de bondade divina de um representante de Deus na Terra.

Pachorrento e sorridente, ele aceitou cada ritual do seu baptismo com a boa disposição de um bebé saudável, alimentado e bem cuidado, criado com amor no seio de uma família feliz.

Coerente, o Tomás manteve-se sereno ao longo do agradável dia de festa que a todos proporcionou.
Quando um dia mais tarde vir as suas fotografias, só esta alegria irá ressaltar.
O resto é espuma. Não importa.

Momento de poesia: «Poema à mãe»

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.


Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.


Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.


Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.


Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.


Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.


Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,

E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!


Olha - queres ouvir-me?
-Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;


Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;


Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...


Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.


Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.


Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade



Podemos ouvir este poema, lido por Nuno Miguel Henriques:

terça-feira, 21 de abril de 2009

Os livros...

«Livros são os mais silenciosos e constantes amigos, os mais acessíveis e sábios conselheiros e os mais pacientes professores» - afirmou Charles W Elliot. O João, 6 meses de idade, não diz, mas pratica com convicção: «Os livros são para devorar!"... :-)

O meu tio

Um título destes, no singular, confundirá qualquer membro da minha família: são tantos tios (e principalmente, tias), «de quem irá ela falar?»... Ainda no século XX, eram muito numerosas as famílias … A “demografia” não constava do léxico e certamente não estava na ordem do dia. O meu pai tinha cinco irmãos; a minha mãe, onze! Nada de dúvidas: refiro-me ao meu mais novo tio paterno. Moreno, conserva a pele tisnada do sol das muitas caminhadas diárias… Vertical, pugna intransigentemente pelos seus princípios… e é um prazer calcorrear a marginal a seu lado e ouvi-lo falar tempo sem fim, tomando posição sobre assuntos que vêm à baila ou evocando memórias. Algumas das quais em que sou protagonista, na juventude. Com setenta e oito anos completos, desfia longas histórias de toda uma vida de estudo e trabalho, composta de tudo o que preenche qualquer vida intensamente vivida: muitas escolhas e lutas; êxitos e insucessos; “nódoas negras” e alegrias; motivos de satisfação e orgulho... Para qualquer criança (ou mesmo pai) dos nossos dias, seria inimaginável viver tudo aquilo por que passou. Ele e várias outras crianças que moravam em lugarejos e cujos pais tiveram brio e posses para os “pôr a estudar”; que foram forçados a vencer duras provas. «O que não nos mata faz-nos crescer» - dizem. Assim aconteceu. Aos treze anos, o meu tio saiu da sua aldeia, da casa de família, e foi estudar para o Porto. Sozinho. Ano após ano, cada vez mais crescido e responsável, tratava do seu alojamento, das matrículas, da gestão da parca mesada, da organização do seu estudo… Uma autonomia e independência conquistada a pulso, de terra em terra. Do Porto para Lisboa. Mais tarde para Luanda. De novo, Lisboa... Satisfeito, olha para trás, tenta um balanço e divide os seus anos em três fases: 1) “A vida activa”, onde aglutina quer a idade adulta quer a sua infância, precocemente amadurecida…; 2) “A reforma”, o período de liberdade para trabalhar no que deseja, com direito ao descanso de que necessita – um direito justo para todos, em qualquer idade, como ele afirma judiciosamente, contrariando, sorridente, o que sabe pela sua experiência e, sobretudo, pela sua formação em Economia...; 3) “A doença”… O coração cansou-se. A doença coronária que recentemente se manifestou, acrescentou-lhe sentido à vida. Afinal, tem fim! Há que vivê-la. Bem. “Um dia de cada vez”. Como? Sabemos. Vigiando a alimentação, mantendo hábitos saudáveis, praticando exercício físico com moderação… Mas há mais. Contando com a família. Cultivando amizades. Dando vida aos anos. Envelhecemos quando desistimos de fazer coisas novas. Isso, não! Somos velhos quando deixamos de sonhar. Para o meu tio, “sonhos” são objectivos que nos levam a realizar projectos… Não importa a sua grandeza. (Vem-me à ideia Fernando Pessoa: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.») "Fundamental, para nos sentirmos felizes, é aprender, planear, concretizar" - conclui. Concordo. A felicidade está bem ao nosso alcance!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Momento de poesia

E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio o não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma canção, pela paz...




Músicos de rua cantaram, em diferentes locais do mundo, uma mesma canção: "Stand by me". Pela paz.

Alguém concebeu a iniciativa... conjugou vontades... e muitos se envolveram na sua concretização.
O YouTube exibe o vídeo: é um facto que se mobilizaram e conseguiram!

A ideia parece criativa... menos fácil é acreditar que esteja apta a alcançar tão ambicioso objectivo...

A Paz parece inatingível quando não têm fim lutas entre povos vizinhos..., são violadas tréguas estabelecidas..., a indústria da guerra floresce...; pululam ódios raciais e étnicos...; a exploração do homem pelo homem assume os mais variados cambiantes...; acentuam-se desigualdades sociais...; a violência vive instalada na intimidade do seio familiar, onde a relação de afecto seria a única com verdadeira razão de existir...

Uma canção pouca diferença fará. Apesar da universalidade da linguagem musical.
Mas é certo que qualquer acto causa reacção... e pode gerar diferença.
Sem dúvida, grandes realizações começaram por uma simples ideia.
"Não há caminho... O caminho faz-se caminhando."

Paz?
Eu quero acreditar que ela possa espalhar-se como um manto... que cada um de nós ajudará a estender...
...«Paz... aos homens de boa vontade...»


O 1º de Janeiro aproxima-se; é o Dia da Paz.
Vem mesmo a propósito:
Feliz Ano Novo!...

Já agora, aqui fica o link para quem queira aceder ao vídeo e ouvir a canção:
http://www.flixxy.com/peace-through-music.htm



(Ou então, cantada por Ben King, com direito a tradução: http://www.youtube.com/watch?v=QxRyPKYlIsc )


Outro link ainda, para quem queira saber mais sobre este evento pela paz: autores, participantes... http://www.mahalo.com/Stand_By_Me_Video


quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

"As galinhas da Vovó"...


É este o meu presépio. O indispensável símbolo desta época natalícia, data em que, mais ou menos conscientemente, o mundo celebra um nascimento.

O meu presépio não é branco nem negro: é cor de terra, castanho. Cor do material simples de que é feito: o barro. Saído de mãos hábeis de um artesão que o moldou com formas estilizadas. Simples e sóbrio, como eu gosto.

Simbólico e discreto, o meu presépio não escapou aos olhos atentos do Francisco. Dois anos e meio ladinos e curiosos, parou em frente dele, no meio das suas correrias alegres pela casa fora.
Olhou, reviu num ápice os seus conhecimentos do mundo, relacionou-os e inferiu, convicto: "(...são)...as galinhas da vovó...".
Confundira as ovelhinhas... apesar destas não serem exactamente como as galinhas que vira há tempos, algures num quintal...


Perplexos, os adultos riram... e apressaram-se a aproveitar aquele momento para uma lição precisa e breve, como convinha: "não é uma capoeira: é um estábulo"... e mais isto e mais aquilo... blá-blá-blá...:

"Nasceu Jesus, muito pobrezinho, mas tinha Mãe e Pai... e animais amigos"...

São assim os olhos das crianças...


...Feliz Natal!...


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Citação...

"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

domingo, 14 de dezembro de 2008

Contar histórias é fundamental...


Do património oral fazem parte todas aquelas histórias ancestrais que passaram de pais para filhos, de boca em boca, mesmo antes de haver escrita ou quando esta era apenas privilégio de alguns...

Foi assim, passando de geração em geração, que chegaram até nós lendas, contos tradicionais, quadras populares, provérbios, adivinhas, lengalengas e trava-línguas... que continuam a deliciar quem os escuta... e muito divertem jovens e menos jovens...

Desde o século XIX, quase tudo passou a ser escrito. E ainda bem: o mais certo seria que muito deste legado se perdesse...

O hábito de contar histórias foi sendo substituído pela atenção à TV e outras diversões. Mas não há nada como uma criança escutar uma história... e assim desenvolver a sua capacidade de concentração e memória, estimular a imaginação, fazer perguntas, enriquecer a linguagem, resolver problemas...

Pode acontecer até que essas histórias preencham o seu imaginário e ganhem, um dia, uma nova vida...

A jovem Joana Pires escutou muitas vezes o seu pai... Este, natural de Angola, atravessou tempos de guerra, no seu país, e guardou na memória duras histórias que repetidamente contava à filha, na sua infância...

A Joana vive na Austrália, onde está a finalizar um Curso de Arte, de Direcção de Actores...
Ontem, ela levou à cena "A Rosa de Angola", que teve uma estreia coroada de êxito.
As histórias que guardou na memória constituem um importante património oral que este pai legou a sua filha... que, por sua vez, o soube recriar e escrever...

Bem-hajam. Parabéns!

Uma flor para a Austrália..., onde as histórias da História de Angola são agora recontadas!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Tempo de poesia...

«na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.»

José Luis Peixoto, A criança em ruínas, Quasi, 5ª ed, 2003
(p. 13, poema integral)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Uma rosa - para Estocolmo

Porque as flores são silenciosamente fluentes, quando as palavras nos morrem na garganta...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pelos Direitos Humanos!

Há 60 anos, no dia 10 de Dezembro de 1948, foi adoptada e proclamada, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

10 de Dezembro. Dia de comemoração, dia dos Direitos Humanos.

Por isso, tal como o fazemos nas datas dos nossos aniversários ou no fim/ início de um novo ano ou ciclo, é também tempo de reflexão, tempo de nos orgulharmos pelo que já conseguimos, mas também, e sobretudo, tempo de olharmos para o que ainda temos para fazer.

Sessenta anos! Muito tempo, muita luta, muita batalha vencida.

Mas...

«Não há mas./Todos temos culpa. E a nossa culpa é mortal.»

(António Gedeão)

In: http://direitos-humanos-esm.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Natal, e não Dezembro

A cidade revela bem que é Dezembro...
Saibamos preparar-nos para acolher o Natal...


Natal, e não Dezembro (1962)


Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.


Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.



David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal, Editorial Verbo, 2ª edição


Voltei à escola...

Setembro trouxe, como sempre, infalivelmente, um novo ano lectivo...
Entre dias amenos, dando lugar à esperança de belos dias ao ar livre, ainda por acontecer, foi tempo de preparativos para receber novas e velhas turmas, alunos novos ou desconhecidos; jovens curiosos ou desmotivados, tímidos ou atrevidos, francos ou dissimulados, preguiçosos e empenhados, maus e bons alunos…, cada um carregando as suas expectativas e limitações, receios e sonhos, por vezes bem distantes do que deles se espera, na escola… Para mais neste ano em que metas de sucesso, de tudo e mais alguma coisa, passaram a ser mensuráveis em grelhas e mais grelhas, de forma diversa em cada recanto do país…

Setembro trouxe-me à memória os meus tempos de menina, os meus primeiros passos na escola…
Nos idos anos 50, eu fui das que fizeram uma passagem pela Pré-Primária!… “Lembro-me” disso, talvez apenas devido às repetidas narrativas da minha mãe, confirmadas por uma fotografia de uma daquelas festas de fim de ano lectivo para pais, na qual estou, bem pequenina, muito senhora do meu papel de anão,
seguindo a bela Branca de Neve (certamente, a Educadora)…

Tinha sete anos já bem contados quando entrei para a “1ª classe”. Assim ditou a exigência da idade, à data da matrícula.
Levava, certamente, o cabelo preso por um largo laço branco e um vestido cintado, preso nas costas por outro grande laço, acentuando a saia franzida e rodada… uma imagem que se repete nas escassas fotografias que conservo…

Não sei quantas seríamos naquela sala branca com quadro negro de ardósia, com carteiras muito alinhadinhas, de sólida madeira, com uma concavidade para colocar frágeis lápis de ardósia… (Ai, eles que não caíssem!…) e também canetas de aparo que introduzíamos, repetidamente, num branco tinteiro de cerâmica, implantado ao meio, a fim de recolhermos a imprescindível tinta permanente… causadora de dramáticos borrões!…

Recordo as infindáveis filas de carteiras, ocupadas por muitas meninas negras, mulatas e brancas (todas nós portuguesas, a maioria nascida em Angola) e conservo a vaga imagem da minha professora exigente e intransigente, que a todas tudo ensinava, mantendo uma disciplina garantida pelo infalível método das reguadas…

Quem tivesse capacidade de memória e raciocínio, método de estudo e um comportamento dócil (natural na época… e para mais nas meninas…), facilmente passaria incólume a castigos corporais e obteria sucesso escolar.
Ano após ano, fui assim avançando na minha escolaridade…

Nos anos 70, voltei à escola.
Desta vez, do outro lado das fileiras: como professora.
Empunhava um horário de 28h lectivas, que me atribuía sete turmas, de 40 a 45 alunas cada, perto de trezentas meninas, negras, mulatas e brancas (nascidas na Guiné; todas portuguesas, ainda que falando crioulo, entre si) a quem eu deveria ensinar Francês e que eu deveria avaliar…

Dera explicações, enquanto estudante; trabalhara voluntariamente numa sala de estudo, num bairro da lata, em Lisboa…
O meu curso, como era habitual, não tivera estágio integrado…
O curso de Ciências Pedagógicas era tão teórico quanto toda a formação académica feita, até então…
Em suma, aprendera a ser professora, observando aulas na minha condição de aluna. E pouco mais.

Reuniões de grupo... e colegas disponíveis para ajudar; paixão de ensinar, vontade de aprender e vencer desafios… amadorismo… Sempre aprendiz, fui somando experiência.

Sinto-me feliz por ter trabalhado nestes anos que passaram: devotada à profissão e aos alunos, em dedicação exclusiva e voluntária, tudo fazendo com prazer, por paixão…
Cargos exercidos rotativamente, tornando todos corresponsáveis pelo bom desempenho dessa missão...
Reuniões de efectivo trabalho... e não apenas para desbravar chorrilhos de novas legislações...
Participação periódica num Conselho Pedagógico, em que eram discutidos, democraticamente, problemas concretos e onde se procuravam soluções, nos limites do nosso poder de decidir e agir, após a auscultação de todos.
Muitas condições de trabalho foram, deste modo, melhorando... muitas questões pedagógicas, resolvidas.

Noites curtas para tanto que fazer!
A pasta carregada, sempre atrás…
Acompanhamento de estágios.
Formação aos sábados… por opção!
Congressos pagos, em período de férias…
Experimentação de novas metodologias.
Recurso a todas as estratégias... e aos meios tecnológicos à nossa disposição...

Cada novidade e dificuldade sendo encarada como uma nova oportunidade.

Muito trabalho! Sem fugir a desafios nem a responsabilidades.
Sem ter em mira qualquer recompensa, a não ser ensinar melhor.
Pelos alunos.


Profissão e não carreira.
Sujeita a uma avaliação periódica.

Fazendo formação, regular e obrigatoriamente.

Voltei à escola, este ano.
Num período de descontentamento e luta.
Em que reina a desconfiança no nosso trabalho e a incerteza de uma avaliação justa.
Em que nos sobrecarregam o horário, sem nos darem condições para trabalhar, no local onde somos obrigados a permanecer.

Num novo tempo em que escasseia o respeito granjeado e merecido.

Num momento em que os meninos de várias cores falam várias línguas, as turmas aumentam sem cessar, as problemáticas multiplicam-se... o que não se resolve sem tempo e serenidade para corresponder aos desafios desta nova realidade...

Voltei à escola.
No momento oportuno para lhe dizer adeus.

Um exemplo e conselho


Baloiço
Mise en ligne par ManuelaCaeiro



Dedicatória:

À Ana Santos, minha jovem leitora

E a todos os jovens e menos jovens leitores que me visitam.

.........

A ave baloiçava feliz

num ramo de coqueiro sacudido pelo vento...

Não se sentia em perigo

e achava divertido tanto balanço e movimento...

- Nada é seguro na vida, nem sequer para os humanos,

e é preciso, portanto, dar-lhes exemplo e conselho:

«Saibamos saborear cada momento!»

sábado, 8 de novembro de 2008

A manifestação de 8 de Novembro...





(Em cima: "Ministra da Decepção".)
(Em baixo: "Papelada + papelada = Educação degradada"...)





(... e: "Vamos acabar com este drama.")




"Uma imagem vale mais do que mil palavras" - provérbio chinês.