quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Mais um dia na Anselmo...

Com o 5ºD e o 5ºE da Escola Anselmo de Andrade, acabou hoje a ronda pelos quintos anos - ligando comunidades e culturas, sempre trilhando diferentes percursos, através dos mesmos ou de novos livros.
E assim voltou a ser hoje.
O 5º D deu uma volta por Cabo Verde..., seguiu para Oriente, até à China..., e por fim para Ocidente, até ao Brasil. Por fim, abriu o apetite com as fotografias de uns pratos africanos...

Seguiu-se o 5º E. A professora Vanda Cândido escolheu os livros da sua preferência. E a verdade é que os jovens demonstraram interesse e escuta atenta!
Uma volta pelo mundo (num segundo!), uma história de S. Tomé... e outra da Guiné (ou talvez não). E tudo acabou em festa, tal como na história de Djuku.

Assim temos andado de mão dada pelos países aonde chegámos por mar, no tempo dos Descobrimentos, em especial pelos países da Lusofonia.




quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Nova viagem pelo mundo, na Anselmo

Foi a vez do 5º B.
Depois da surpresa e satisfação pelo nosso reencontro (desde o ano passado), planeámos a viagem do Ler a meias... Que destinos, quais os livros? S. Tomé e Príncipe? Angola? Guiné? Brasil?...
Houve passageiros para todos os destinos, sendo o Brasil o mais votado. Clovis Levi proporcionou-nos, então, uma viagem entre Pólo Norte e Pólo Sul, passando por Santorini (Itália). Alguém diferente que tem de conviver com a sua diferença. Uma história de amor. E um desafio, no final: onde irão as duas personagens viver, tendo necessidades tão opostas?...
Ideias não faltaram: desde a separação do casal à vida a dois, recorrendo até a engenhosas soluções tecnológicas!...

Percorremos por fim o mundo..., num segundo.
Com o tempo esgotado e tanto passeio dado, dissemos adeus: até à vista!








Bibliografia: 
Clovis Levi, O pinguim que morria de frio e outras histórias, Viajante do Tempo Editora
Isabel Minhós Martins/Bernardo carvalho, O mundo num segundo, Planeta Tangerina

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Entre maiores, com memórias...

Estivemos de novo juntos no Centro de convívio.

Recordando os tempos de escola e o primeiro beijo.
Falando de amor, mas também de paz e de guerra.
Entre histórias pessoais em diálogo com as dos livros para Ler a meias...
Evocando outros tempos, com narrativas e poemas. Nem faltou a leitura de uma fábula angolana, com o respetivo sotaque. Nem também o habitual coro final, desta vez cantando A fisga.
Uma sessão passada ora rindo ora muito sérios; ora tagarelando ora em comovido silêncio...
Das memórias dos participantes, realço certo primeiro beijo que foi dado de sopetão, apanhando de  surpresa a jovem de 14 anos que só pensou: "Ai se a minha mãe sabe!"... E não é que ele foi mesmo o futuro marido, o seu companheiro de toda a vida?...
História divertida foi também a daquele neto que perguntava às meninas, saltando etapas, se queriam casar com ele e se surpreendia com a resposta negativa! Por sua vez, quando uma delas lhe pediu dois beijos, ele estranhou e recusou: um bastaria!...
As conversas são como as cerejas...

Uma sessão de que nos despedimos escutando manifestações de simpatia e prazer.
A próxima já tem data: 13 de dezembro.
Até lá, amigos!


Bibliografia:
António Gedeão, Poesias completas, Sá da Costa
João Pedro Mésseder/Ana Biscaia, Que luz estarias a ler?, Xerefé Edições
Jorge Araújo, Beija-mim, Aletheia Editores
José Luandino Vieira, Kaputu Kinjila e o sócio dele Kambaxi Kiaxi, Uma fábula angolana, Letras & Coisas 
Sara Guerra/Marta Inês, Bilhete postal, Pé-coxinho



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

De novo na escola Anselmo de Andrade...


Ligar comunidades e culturas num mundo onde são diversos o relevo, a fauna, a flora, os povos, as suas línguas e cultura, usos e costumes…  - foi, de novo, o fio condutor do Ler a meias…, desta vez com duas turmas de 5º ano.


O mundo num segundo serviu de motivação.
Seguimos para África e os jovens elegeram a obra a ler: o 5º A votou em A viagem de Djuku e o 5º C optou por Um grão de café.
(Eles justificaram a sua escolha de obras: “porque nasceu lá a avó”…, “porque o pai já lá foi e gostou muito”…, “porque a capa é mais bonita”… ou seja, não faltaram razões de peso!)
Continuámos viagem até à América do Sul, ao Brasil. O 5º A leu (a meias…) A caligrafia de Dona Sofia e o 5º C escolheu Obax.

Não ficámos por aqui: as ilustrações de um livro de culinária africana fizeram crescer água na boca: calulu de peixe; cachupa rica; galinha com molho de chabéu… Mnham-mnham!...
Ora depois de comida tão substancial, só mesmo um amigo chinês com um arroto fenomenal…
Todas as obras foram apreciadas e aplaudidas. (As preferências dividiram-se e nem sempre coincidem com as dos professores…)

Até para a semana, Anselmo!


Bibliografia:
Alain Corbel/Éric Lambé, A viagem de Djuku, Caminho
André Neves, A caligrafia de Dona Sofia, Paulinas (São Paulo)
André Neves, Obax, Paleta de Letras
Eunice Meneses/Sónia Trigueirão, O tempero da morena, O melhor da cozinha africana, Marcador
Isabel Minhós Martins/Ricardo Carvalho, O mundo num segundo, Planeta Tangerina
Leonel Neves, Amigos em todo o mundo, Livros Horizonte
Olinda Beja/Teresa Bondoso, Um grão de café, Edições Esgotadas


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Na escola do Laranjeiro nº2

Mês das bibliotecas escolares: voltei ao Agrupamento Ruy Luís Gomes, desta vez ao 1º ciclo - 3º e 4º anos.
Duas sessões, julgava eu. Nada disso! Três sessões. Oito turmas!!!
Primeiro, três turmas de terceiro ano da Laranjeiro 2.
Em seguida, os três quartos anos dessa mesma escola.
Finalmente, o 3º A e o 4º A do Alfeite (que foram até lá e regressaram à sua escola, a pé. Lindos meninos!).
Ah, isto no ginásio, que a biblioteca anda em obras...
Ora bem:
A professora Teresa Ferreira preparou um cantinho muito acolhedor e funcional.
Os meninos receberam a mediadora de leitura com grande entusiasmo.
E as sessões, ligando comunidades e culturas, decorreram entre contos e recontos (uns iguais e outros diferentes, de sessão para sessão). Pouco se deu pela diferença...
Ora vejam o que fizemos juntos (nas três horas):
- uma lengalenga;
- a aventura de Ulisses e as sereias;
- o dia-a-dia de Lia e Lya;
- o jogo do Encontro;
-  observação de ilustrações;
- muitas coisas que acontecem no mundo, no mesmo segundo;
- observação do globo terrestre;
- a lenda de Timor;
- notícia de uns auriculares que traduzem línguas em tempo real;
- a história de Paguê e do grão de café..., em S. Tomé e Príncipe.
Os meninos opinaram sobre o que tinham gostado mais e menos. Qualquer dos livros foi "o preferido" de alguém. Verdade, verdadinha: Um grão de café foi o preferido da maioria.
Não faltaram manifestações de simpatia e apreço.
Tive direito a prendinhas...
Sinto-me grata, para com todos!


Bibliografia:
Isabel Minhós Martins/Bernardo Carvalho, O mundo num segundo, Planeta Tangerina
Margarida Botelho, Lia/Lya, Edição de Autor
Maria Isabel de Mendonça Soares, O mar na cultura popular portuguesa, Terramar
Olinda Beja/Teresa Bondoso, Um grão de café, Edições Esgotadas


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Recomeço nos SSAP

Passámos hoje uma bela tarde, no Centro de convívio.
Uma sessão na senda do tema das bibliotecas escolares: Ligando comunidades e culturas; e sem esquecer o desafio de partilharmos as nossas próprias histórias.
Álbuns de imagens, narrativa de memórias, poemas, contos e recontos..., sustentaram a nossa imaginação, reflexões e emoções, em torno do quotidiano no nosso mundo, das migrações, da esperança no futuro, da generosidade e dura ação de voluntários...
Para despoletar a partilha das nossas memórias, Romeu Correia foi o primeiro a ter a palavra: O primeiro dia de escola. Tanto bastou para que várias histórias surgissem da plateia.
Assim recordámos a nossa infância, a escola e os castigos físicos, medos e aventuras. E mais, muito mais. Até tivemos uma galinha de Trancoso, inesquecível. E um piano tocado por algum fantasma numa sala de espera cheia de zombies! Não faltaram recordações, risos e palmas!
Olhos abertos, silêncio atento, emoções despertas... a nossa hora voou.
Muito afeto, à despedida.
Até novembro!


Bibliografia:
Isabel Minhós Martins/Bernardo Carvalho, O mundo num segundo, Planeta Tangerina
Mariana Chiesa Mateos, Migrando, Orfeu Mini
Miguel Torga, poemas
Vários, Histórias para não adormecer, Relatos dos voluntários da AMI em diversos pontos do mundo, Fundação da AMI


domingo, 22 de outubro de 2017

O prometido é devido...


Alô, SSAP!
Combinámos partilhar memórias. Falar delas, talvez escrevê-las. (Estão lembrados?)
O nosso reencontro vem aí, muito em breve...
Pensei nisso. Lembrei-me de como a minha mãe me ajudou a gostar de ler...
Uma memória de gratidão.
Aqui vai!


Oiço muito boa gente falar de histórias que lhes contavam na infância, de poemas que aprenderam a recitar e que sabem de cor. De grandes bibliotecas que havia lá em casa e de pais leitores. De livros proibidos, alguns fechados à chave, que aguçavam o prazer de ler. De como isso contribuiu para o seu gosto pela literatura.
Posso estar a ser injusta, mas creio que não tive essa sorte. Na verdade, não conservo sequer a memória de escutar histórias ao deitar. Tal não me surpreende: a minha mãe sempre pôs em primeiro lugar ter a casa num brinquinho, não deixar nada à espera do dia seguinte, despachar-se para finalmente repousar, gemendo de cansaço até dar por findas as tarefas de cada dia.
Esta mãe, professora que o marido não quis que trabalhasse “fora de casa”, exercendo a sua profissão, tornou-se doméstica exímia. Não deixou, contudo, de ser uma grande promotora de leitura. Era escasso o plafond financeiro, oh se era!, mas comprava-me livros, quando eu pedia e ela podia. Não arranjava tempo para os ler comigo, realmente não, mas dispunha-se a ouvi-los; ela lidando e eu lendo. Lembro-me de, por norma, eu o fazer sentada na mesa da cozinha. Ou então na varanda. De ler com prazer, acreditando dar-lhe esse mesmo prazer, enquanto cozinhava ou cosia. Provava-me estar atenta. Pelo meio, dava-me um sinónimo, respondia-me a alguma dúvida, rematava a leitura com um provérbio…: Querer é poder. Devagar se vai ao longe. Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Quem ri por último, ri melhor. 
A estrutura de uma carta e de um envelope, também as apreendi com a sua ajuda. Era escrita regular para família que vivia a duas semanas de viagem de navio a vapor, isto é, além-mar, a milhas de distância… Começava-se pelo rascunho - que era depois corrigido e passado a limpo. E a seguir passado a limpo tantas vezes quantas as necessárias, até ficar sem erros de ortografia nem rasuras, e sem apresentar nenhum dos temíveis borrões da caneta de aparo ou da de tinta permanente que eram usadas nesse tempo. Tudo a ser reescrito cada vez com maior sacrifício e com mais ralhetes pelo meio. Até vir o suspiro libertador: “Enganaste-te outra vez aqui…, mas pronto, fica assim!”… (Ainda oiço esse suspiro.)
Era professora, daquele tempo, pois. (Já disse, não é verdade?...)
Ora a minha mãe, com a sua formação e recursos, a seu modo, foi a minha mediadora de leitura e escrita. Conservo esta paixão.
Sempre é verdade que todos os caminhos vão dar a Roma.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Na Escola Secundária/Básica Ruy Luís Gomes

Uma ampla e luminosa biblioteca, duas turmas de 6º ano (à vez), um tapete colorido, leituras, recontos e conversas... e as sessões decorreram em clima de afeto e prazer, com escuta atenta e participação espontânea.
E fomos navegando... 
O Mar, a estrada que ligou Portugal ao mundo: A Nau Catrineta.
"Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso": O meu amigo chinês. 
A língua e a sua evolução. Auriculares que fazem tradução.
Sereias, existem mesmo?, sim ou não?
Livros, à escolha dos jovens:
6ºD
- O 6ºD escolheu obras de São Tomé e de Cabo Verde.

6ºC
- O 6ºC elegeu São Tomé e Brasil.
O livro Rap Rua proporcionou um intenso e divertido final de manhã, graças à colaboração da Érica e do Renato...
Fui adotada como avó por umas meninas que me vieram abraçar...
Recebi prendinhas...
Uma estreia neste Agrupamento; um início de ano fantástico!


Bibliografia:
Douglas Silva Lima/Ângela lago, Rap Rua
Fátima Bettencourt, A cruz do Rufino, Embaixada de Portugal em  Cabo Verde e Centro Cultural Português Praia-Mindelo
Leonel Neves, Amigos em todo o mundo, Livros Horizonte
Maria Isabel de Mendonça Soares (Coord.), O mar na cultura popular portuguesa, Terramar
Olinda Beja/Teresa Bondoso, Um grão de café, Edições Esgotadas
Há uns auriculares que traduzem cerca de 40 línguas em tempo real, in A volta ao mundo, 17/5/2017


Rio acima e mar adiante... ligando comunidades e culturas



Vamo-nos aventurar a ir ao encontro de outros povos a que nos ligam laços históricos e com quem convivemos há muito. E não só. Observar realidades diversas, guiados pelos autores que nos acompanharão. Sim porque esta viagem será feita na companhia de escritores, letristas, jornalistas..., com os seus poemas, histórias, canções e notícias que teremos à mão.
Bem a propósito vem o desafio do Mês das Bibliotecas Escolares: Ligando Comunidades e Culturas.
Este convívio não é surpresa entre nós, onde diariamente (e há muitos séculos) diversas comunidades se cruzam num mesmo bairro; as crianças são colegas de turma...
Esperamos contribuir para dar a conhecer obras e escritores, e valorizar as suas culturas, ao mesmo tempo que perseguiremos o objetivo de, uma vez mais, espalhar sementes de prazer de ler...
Remos abrindo caminho, vamos navegar em 2017/2018.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Ler a meias... no Rio de Contos...



O Ler a meias… recomeçou em setembro, mesmo antes do início das aulas do novo ano de 2017/2018. Uma coisa nunca vista!
Aconteceu no Rio de Contos, em Almada, na sua III edição anual, evento este com um vasto programa, cheio de motivos de interesse, distribuídos por vários espaços da cidade (como já é habitual).
Um desses espaços foi, este ano, o parque Júlio Ferraz, onde teve lugar o Ler a meias… Ora um parque, em pleno verão, combina bem com um piquenique ao ar livre. Foi isso, tal e qual! Um Piquenique de contos, onde vários contadores e mediadores se distribuíram em torno de três árvores e onde piquenicaram (a várias vozes) contos... e fruta, com um público vasto e generoso.
Ler a meias… (ou seja, “a mediadora de leitura veterana de Almada”) fez o que é costume: poemas, contos e recontos, de livro na mão (ou não), desta vez para um público familiar e amigos miúdos e graúdos, sabendo bem reconhecer, desde a 1ª hora, o superior valor dos profissionais que a seu lado contariam: Cláudia Romeiro, Luzia Rosário, Maurício Leite. 
Grata estou pelo convite surpreendente de Miguel Horta.
Foi uma rentrée inesquecível!















Bibliografia (do Ler a meias)...:



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Rio de Contos 2017

Vem aí a 3ª edição do Rio de Contos. Um evento da Associação Cultural  Laredo e da Rede de Bibliotecas Municipais de Almada.
Na nossa cidade, evocando o centenário do escritor Romeu Correia.

Há contos no interior da biblioteca (no Fórum Romeu Correia) e um piquenique de histórias, ao ar livre. Contos para famílias. Sessões diurnas e pela noite dentro. Exposições e feiras de livro. Um debate em torno de provérbios e literatura tradicional... E poderemos cruzar-nos com grandes contadores que vêm de longe, que raramente se encontram entre nós, e que teremos a oportunidade e o privilégio de poder escutar.
(Gratuitamente, como sempre!)
Confio que vai mesmo valer a pena!
Por tudo isto, e porque é "à nossa porta", partilho o programa.






terça-feira, 5 de setembro de 2017

Certeza...


Já as folhas amarelecem salpicadas por benfazejos aguaceiros.
Estes confortam a imensidão da saudade das férias de verão!...
São, porém, pouca água para quem almeja extinguir incêndios com a bênção de nuvens...
E constituem chuva indesejada para os que agora partem com planos de veraneio. Ainda assim, nada que perturbe o prazer dos longos dias sem o tique-taque do relógio, ou o desejo dos passeios de destino incerto, da surpresa oferecida pelo imprevisto da curva da estrada, da descoberta que satisfaz curiosos e aventureiros...
É a hora da lenda, da História..., de ziguezaguear na Geografia.
Pois que seja! O outono é certeza em movimento, nas folhas trazidas pelo vento...


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Histórias: do contador ao ouvidor...




«(...) A força primordial de uma história é, evidentemente, a de nos transportar, com umas quantas palavras, para outro mundo em que imaginamos as coisas em vez de as sofrer, um mundo onde dominamos o espaço e o tempo, onde pomos em movimento personagens impossíveis, onde povoamos como nos apetece outros planetas, onde insinuamos criaturas sob as ervas dos pauis, entre as raízes dos carvalhos, onde pendem salsichas das árvores, onde os rios sobem para a nascente, onde aves tagarelas raptam crianças, onde defuntos inquietos voltam silenciosos para atalhar a um esquecimento, um mundo sem limites e sem regras onde organizamos à nossa maneira os encontros, os combates, as paixões, as surpresas.
O contador é acima de tudo o que vem de fora, aquele que reúne na praça de uma aldeia os que nunca de lá saem e lhes dá a ver outros montes, outras luas, outros terrores, outros rostos. É o mercador de metamorfoses. É aquele que capta a atenção porque traz outra coisa. É outro olhar, é outra voz.
Neste sentido, é por meio do "era uma vez" que a superação do mundo, isto é, a metafísica, se introduz na infância de cada indivíduo e talvez também na dos povos, muitas vezes ao ponto de aí incrustar uma raiz tão forte que as nossas invenções humanas serão para nós, durante toda a vida, uma realidade indiscutível. Após o deslumbramento, o arrebatamento, a história que nos contaram passa a ser a própria base das nossas crenças, cuja força cega conhecemos.
Contudo, |a história| não se limita a esta superação, a esta, se quisermos, transgressão. Por força da sua natureza, porque é essencialmente uma relação entre seres humanos, está sempre ligada ao público que escuta, por vezes até – de um modo menos visível, mais secreto – ao contador em pessoa. É como um desses objetos mágicos de que tantas vezes se serve como, por exemplo, o espelho que fala.
A história é pública. Ao contar-se fala. (...)»

Jean-Claude Carrière, Nova tertúlia de mentirosos, Teorema, pp. 12-13
Ilustração retirada do blogue de Elsa Serra, formadora e contadora.