quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antologia Poética


Canção de uma sombra





Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha
janela onde me vou
Debruçar, para ouvir a
voz das coisas,
Eu não era o que sou.



Se não fosse esta
fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou…
E este
sol, que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.


Ah, se não fosse este
luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.


E se a
estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o
vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.


Ah, se não fosse a
noite misteriosa
Que meus olhos de sombra povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.


Sem esta
terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos
montes e arvoredos,
Eu não era o que sou.




Teixeira de Pascoaes



In Andresen, Sophia de Mello Breyner, Primeiro Livro de Poesia, Caminho, 1996, 4ª edição, pp. 118-119





......................




Uma história de vida


(à maneira de... Teixeira de Pascoaes)





Sou a síntese da herança genética que transporto,
do que vi, ouvi, li, aprendi, vivi…
do que recordo e do que esqueci.
Sou o fruto da influência da família, dos professores,
dos meus amigos.


Se?…
Se eu não fosse habitada por tantas histórias e gentes
Eu não era o que sou.


Se eu não tivesse África como raiz da vida
Se não tivesse uma tetravó negra
avós e pai metropolitanos, emigrantes…
Se não tivesse pele branca e olhos azuis
Se não tivesse tido sempre o mar como horizonte do olhar…


Se eu não tivesse sido imbuída de uma cultura cristã
Se não tivesse tido mãe atenta e uma pequenina irmã
Se não tivesse tido um quintal, trepado às árvores,
descosido e rasgado vestidos na subida,
Arriscando um castigo, pois usar calças era proibido…


Se não tivesse aprendido a viver sem luxos
gerindo e gerando recursos
Se não tivesse mudado de continente, de país, de cidade… 
em viagem impregnada de mar, baloiçada num vapor,  dias a fio
Se não me tornasse imigrante…


Se não tivesse estudado o que estudei
Não tivesse partido solitária e autónoma
para uma cidade universitária,
lá longe, algures, algum tempo…
Se não tivesse sido professora durante décadas,
Bibliotecária, alguns anos,
Leitora,
Amadora amante de teatro, cinema, de arte, enfim


Se não gostasse de crianças
Se não conservasse em mim a criança que fui
Se não fosse desatenta e curiosa
Desajeitada e plena de energia
Insegura, querendo ser segura
Determinada a aprender


Se não tivesse sido Mãe repetidamente, uma vez… outra vez…
Se não tivesse sido Avó… uma, mais uma, mais outra vez…
e ainda outra vez virá…


Se não tivesse vez o casamento
o divórcio…
Se não permanecesse aberta à lição da vida
Ao desejo de a deixar fluir… e dela fruir, em plenitude…
Se não tivesse vencido cada dificuldade
como quem enfrenta um desafio
Se não tivesse quem me amparasse no voo…


Se não conservasse a saúde
Se perdesse a alegria
a espontaneidade
a inocência do olhar
a capacidade de sonhar


Se não fizesse projectos que dão sentido à vida
E não mantivesse a sede de evoluir e construir


Se deixasse de fruir da bonança
e de resistir à tempestade
Se deixasse de escrever
conviver
ver
fotografar
querer saber
querer viver
rir…


Se assim fosse
Eu não seria eu!


Eu não era o que sou.


Manuela Caeiro




1 comentário:

Leonor disse...

Não pude deixar de ficar emocionada ao ler tão belos poemas. O primeiro que nunca tinha lido, apenas te ouvi falar sobre ele é, tal como disseste, lindíssimo. Já o segundo, a tua história, tocou-me especialmente porque te conheço e te reconheço numa e noutra palavra...é uma lição. Obrigada amiga, por seres o que és.

Recebe um abraço cheio de carinho.
Leonor