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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Liberdade, segundo Cecília...


«Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se têm escrito poemas e hinos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade.
Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana; que a liberdade é o maior bem do mundo; que a liberdade é o oposto à fatalidade e à escravidão; nossos bisavós gritavam “Liberdade, Igualdade e Fraternidade!”. Nossos avós cantaram: “Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil!”; nossos pais pediam: “Liberdade! Liberdade! – abre as asas sobre nós”, e nós recordamos todos os dias que “o sol da liberdade em raios fúlgidos – brilhou no céu da Pátria…” – em certo instante.
Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.
Ser livre – como diria o famoso conselheiro… – é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo que partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho… Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autônomo e de teleguiado – é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Supondo que seja isso.)
Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.
Por isso, os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra inocentemente vai até onde o sonho das crianças deseja ir. (Às vezes, é certo, quebra alguma coisa, no seu percurso…).
Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora (muito de outrora!…) não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente, com um fio de linha e um pouco de vento!…
Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida.
E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões, usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade, morreram queimados, com o mapa da Liberdade nas mãos!…
São essas coisas tristes que contornam sombriamente aquele sentimento luminoso da LIBERDADE. Para alcançá-la estamos todos os dias expostos à morte. E os tímidos preferem ficar onde estão, preferem mesmo prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato.
Mas os sonhadores vão para a frente, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos que falam de asas, de raios fúlgidos – linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel…»
Cecília Meireles, Liberdade, in Escolha o seu sonho, Record, Rio de Janeiro, 1964
Queres escutar este texto, em português do Brasil? É aqui.
Imagem retirada da NET, Agrupamento de Escolas de Carnaxide.

sábado, 6 de setembro de 2008

Os azares de uns...

-Isto do negócio dos reboques, tem estado um bocadinho mau… - dizia o motorista, enquanto guiava o seu camião, rebocando um carro avariado. -Hoje, desde as quatro e meia que o trânsito tem sido assim… - E apontava a estrada cheia de luzes: médios, faróis de nevoeiro e de travão, tudo aceso… Centenas de carros, num e noutro sentido…
Continuou:
- Hoje até havia mais trabalho, mas nós nem podemos fazer mais; não conseguimos lá chegar… Demora-se muito tempo para fazer 2 Km, não podemos acudir a todos… Foi o 1º dia de chuva, está a ver?...

O dono do automóvel, à boleia do camião, estava a ver, sim. Suspirava de alívio. Deixara de estar parado exactamente a meio da faixa de rodagem, repartida em três vias, com motor ligado, para poder conservar todas as luzes acesas e mais algumas, com destaque para as de perigo, claro, mas ainda assim nada confiante de que não corresse mesmo perigo, no meio da intensidade de tráfego dos milhares de carros impacientes que por ele haviam passado, a toda a velocidade, já noite cerrada, chuva intensa, durante aquelas duas horas de espera pelo reboque…
De vez em quando soava uma buzinadela: talvez uma reprimenda, por se ter metido à estrada com um carro velho que “morreu na contramão, atrapalhando o tráfego”…, como na canção…
(Ainda por cima!...)

- Eu já devia estar em casa há duas horas e meia, mas nem sei se sigo já para lá… Moro daquele lado, sabe?... Hoje há trabalho, o patrão pede… Depois recompensa-nos… - e seguia decidido e animado, indiferente à fila de trânsito, desatento à contrariedade do socorrido.

O dono do automóvel também. Já estaria em casa há mais de duas horas, se não fosse aquele contratempo.
Carro velho, mas estimado. Todas as revisões em ordem. Inspecções sem mácula. Nada faria prever, ao lançar-se à estrada, que iria parar mais adiante, ao meter uma prudente 3ª que lhe deixou a alavanca de mudanças a bailar na mão…
De noite. Numa 6ª-feira! Muitos de regresso a casa, na margem sul, outros de partida, prontos para o fim-de-semana…
Em plena auto-estrada, a caminho da ponte!...

De boca aberta, fazendo uma rápida avaliação da caricata situação a ser vivida, com surpreendentes reflexos rápidos, ligara de imediato as luzes de perigo, evitando o pior… Em segundos, estabelecera contacto com a assistência em viagem… e, pacientemente, só lhe restara esperar. Sem desesperar…
A ver os carros aproximarem-se e desviarem-se, pelo espelho retroprojector…
Com grande alívio por nada mais lhe acontecer, nesse dia de estreia do colete de segurança…
Sem se arrepender, afinal de contas, do passeio que dera, por uma decisão impulsiva e imprevista, embora a chuva, com que não contara, lhe retirasse fulgor. Aparentemente muito jovem, o motorista conduzia aquele pesado camião de forma segura, com a ligeireza com que se manobra um pequeno automóvel. Eficiente, profissional, vestia a camisola da empresa. Seguramente um empregado a conservar, a estimar. Mesmo neste nosso mundo, em que nem sempre o valor de cada um é recompensado.
Completou a tarefa, deixando o carro inerte estacionado à porta da garagem onde iria ser reparado. Um estreito beco sem saída que o não perturbou. Sem hesitação, improvisou uma forma eficaz de o deixar estacionado à primeira. E rapidamente descolou para mais um serviço, agendado através do telemóvel, sempre a tocar, após uma despedida tão simpática quanto breve.

Um dia de chuva que revitalizou o negócio.
O automobilista-peão fazia contas de cabeça, enquanto recolhia, finalmente, a casa.
Os azares de uns… são a sorte de outros.

domingo, 17 de agosto de 2008

Evasão e alma nova

Na caixa do correio do 6º andar, como em tantas outras do mesmo prédio e da cidade, para além de uma ou outra carta com as habituais facturas mensais, o carteiro depositou, naquele dia de Julho, um largo envelope do Banco, contendo um mapa de Portugal. Uma oferta.
Uma vez desdobrado, aquele mapa exibia o país recortado por estradas multicores, de norte a sul, de leste a oeste, recordando percursos já visitados ou sugerindo outros há muito por acontecer. Um autêntico convite. Um desafio.
“-E se...?” - a ideia surgiu-lhe.
Não fizera planos de férias. Usar o cartão de crédito para fazer uma viagem, após alguns recentes gastos inesperados, estava completamente fora de questão. Decidira que passaria umas férias pacatas e económicas. Era ponto assente.
“Uma voltinha, aventurando-me sem programa nem destino certo...” - e a sua ideia foi tomando forma.
Os preparativos não tomaram muito tempo. Meteu no porta-bagagens a tendinha de dois lugares (fácil de montar e desmontar por uma pessoa só), o saco-cama, uma almofada, uma corda que fixaria entre duas árvores, para poder estender a toalha molhada pela manhã... E a casa estava pronta! Seguiu-se a arrumação dos artigos de higiene; depois, uns chinelos e umas roupas leves que pouco espaço ocupavam no saco, onde ainda couberam umas calças de ganga, uma camisola e uns ténis, para as noites frescas de Verão. Um biquini e o protector solar... O seu caderninho e uns livros, o transístor, uma lanterna e a máquina fotográfica... Tudo resumido ao mínimo. Tanto bastaria!...
À mão, umas maçãs e água... De resto, cafetarias e restaurantes garantiriam a sobrevivência, ao longo da viagem…
E ala, para sul!

As linhas abstractas do mapa, etapa a etapa, ganhavam vida. Via rápida, estrada nacional, caminhos plantados de árvores, com as copas de mãos dadas, oferecendo sombra; adiante, uma cidade... um ferry atravessando o estuário do rio até à península do outro lado... Aqui a vastidão do campo, ali, uma pequena aldeia piscatória; cegonhas à janela dos seus ninhos, nos telhados e chaminés; além, uma serra, acolá, um pinhal, anunciando a vastidão do mar, precedido da alta falésia e das dunas; praias semi-desertas, a perder de vista; gaivotas em voo como uma esquadrilha...
A viagem seria curta. No céu límpido, de vez em quando com um ou outro fiapo de algodão, brilhava um sol intenso... O dia convidava a desentorpecer as pernas, montar tenda, dar ainda um mergulho...

O guia campista apontou o parque mais próximo, no alto da falésia, onde pretendia encontrar um lugar sossegado para morar, bem em frente ao mar... Parou, instalou-se. E subitamente, a vida regressou à pureza do sonho, à simplicidade da satisfação das necessidades básicas essenciais, fundindo-se com a natureza...
Pouco a pouco, o céu foi ganhando os cambiantes do crepúsculo; por sobre a tenda, os pássaros, de ramo em ramo, chilreavam uma melodia, anunciando o final do dia…
Sentou-se então a contemplar o sol mergulhando, lentame
nte, no horizonte. Entretanto, as estrelas acordavam e cintilavam, a coberto da escuridão da lua, em quarto minguante, num espectáculo pleno de magia.
O rugido do mar embalou-lhe o sono.
Quando despertou, correu o fecho éclair e observou o mesmo tom alaranjado vivo no céu, enquanto ouvia a alegria dos pássaros, saudando o novo dia...
Deitava-se e acordava cedo. Dias longos e sem pressa, ao ritmo do sol de Verão e de um calendário sem compromissos.
Mal se despachava, um passeio pela praia meio deserta, um abraço ao Atlântico…

Prazenteiramente sentada numa esplanada, nas horas de maior calor, empreendia uma fantástica viagem, através das páginas do seu livro... Quando calhava, seguindo por uma das estradinhas mais desbotadas do mapa, acontecia uma visita a um farol, um castelo, um museu. Refeições saudáveis e frugais abriam-se à inovação de um sabor regional…
Atenta, observava, de passagem, uma manada de vacas ruminando pacientemente ou um rebanho de ovelhas abrigando-se a uma sombra; um abutre, cruzando velozmente os céus...
Só, na praia, na esplanada, à mesa do restaurante, não passava despercebida e sentia discretos e surpreendidos olhares. Mas ela sabia bem não ser só. E a momentânea solidão, em lugar de lhe pesar, oferecia-lhe a liberdade de dispor de si e decidir o que fazer, a cada momento, aceitando o imprevisto e o prazer da aventura.
Durante aquela meia dúzia de dias, refreou o ritmo violento e estonteante dos últimos meses, pacificou desejos e sonhos, reconciliou-se com o relógio e foi somando descobertas e emoções que as fotografias fariam recordar...
Ao regressar a casa, trazia de volta o generoso mapa que a impulsionara a partir. Este adquirira um ar usado e, nas pontas, ameaçava abrir brechas, mas tornara-se concreto e cheio de vida.
Por sua vez, ela voltara de corpo bronzeado e alma renovada, transbordando de ânimo para uma nova etapa, uma vez acabadas as férias...

15 de Agosto de 2008