segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Voltei à escola...

Setembro trouxe, como sempre, infalivelmente, um novo ano lectivo...
Entre dias amenos, dando lugar à esperança de belos dias ao ar livre, ainda por acontecer, foi tempo de preparativos para receber novas e velhas turmas, alunos novos ou desconhecidos; jovens curiosos ou desmotivados, tímidos ou atrevidos, francos ou dissimulados, preguiçosos e empenhados, maus e bons alunos…, cada um carregando as suas expectativas e limitações, receios e sonhos, por vezes bem distantes do que deles se espera, na escola… Para mais neste ano em que metas de sucesso, de tudo e mais alguma coisa, passaram a ser mensuráveis em grelhas e mais grelhas, de forma diversa em cada recanto do país…

Setembro trouxe-me à memória os meus tempos de menina, os meus primeiros passos na escola…
Nos idos anos 50, eu fui das que fizeram uma passagem pela Pré-Primária!… “Lembro-me” disso, talvez apenas devido às repetidas narrativas da minha mãe, confirmadas por uma fotografia de uma daquelas festas de fim de ano lectivo para pais, na qual estou, bem pequenina, muito senhora do meu papel de anão,
seguindo a bela Branca de Neve (certamente, a Educadora)…

Tinha sete anos já bem contados quando entrei para a “1ª classe”. Assim ditou a exigência da idade, à data da matrícula.
Levava, certamente, o cabelo preso por um largo laço branco e um vestido cintado, preso nas costas por outro grande laço, acentuando a saia franzida e rodada… uma imagem que se repete nas escassas fotografias que conservo…

Não sei quantas seríamos naquela sala branca com quadro negro de ardósia, com carteiras muito alinhadinhas, de sólida madeira, com uma concavidade para colocar frágeis lápis de ardósia… (Ai, eles que não caíssem!…) e também canetas de aparo que introduzíamos, repetidamente, num branco tinteiro de cerâmica, implantado ao meio, a fim de recolhermos a imprescindível tinta permanente… causadora de dramáticos borrões!…

Recordo as infindáveis filas de carteiras, ocupadas por muitas meninas negras, mulatas e brancas (todas nós portuguesas, a maioria nascida em Angola) e conservo a vaga imagem da minha professora exigente e intransigente, que a todas tudo ensinava, mantendo uma disciplina garantida pelo infalível método das reguadas…

Quem tivesse capacidade de memória e raciocínio, método de estudo e um comportamento dócil (natural na época… e para mais nas meninas…), facilmente passaria incólume a castigos corporais e obteria sucesso escolar.
Ano após ano, fui assim avançando na minha escolaridade…

Nos anos 70, voltei à escola.
Desta vez, do outro lado das fileiras: como professora.
Empunhava um horário de 28h lectivas, que me atribuía sete turmas, de 40 a 45 alunas cada, perto de trezentas meninas, negras, mulatas e brancas (nascidas na Guiné; todas portuguesas, ainda que falando crioulo, entre si) a quem eu deveria ensinar Francês e que eu deveria avaliar…

Dera explicações, enquanto estudante; trabalhara voluntariamente numa sala de estudo, num bairro da lata, em Lisboa…
O meu curso, como era habitual, não tivera estágio integrado…
O curso de Ciências Pedagógicas era tão teórico quanto toda a formação académica feita, até então…
Em suma, aprendera a ser professora, observando aulas na minha condição de aluna. E pouco mais.

Reuniões de grupo... e colegas disponíveis para ajudar; paixão de ensinar, vontade de aprender e vencer desafios… amadorismo… Sempre aprendiz, fui somando experiência.

Sinto-me feliz por ter trabalhado nestes anos que passaram: devotada à profissão e aos alunos, em dedicação exclusiva e voluntária, tudo fazendo com prazer, por paixão…
Cargos exercidos rotativamente, tornando todos corresponsáveis pelo bom desempenho dessa missão...
Reuniões de efectivo trabalho... e não apenas para desbravar chorrilhos de novas legislações...
Participação periódica num Conselho Pedagógico, em que eram discutidos, democraticamente, problemas concretos e onde se procuravam soluções, nos limites do nosso poder de decidir e agir, após a auscultação de todos.
Muitas condições de trabalho foram, deste modo, melhorando... muitas questões pedagógicas, resolvidas.

Noites curtas para tanto que fazer!
A pasta carregada, sempre atrás…
Acompanhamento de estágios.
Formação aos sábados… por opção!
Congressos pagos, em período de férias…
Experimentação de novas metodologias.
Recurso a todas as estratégias... e aos meios tecnológicos à nossa disposição...

Cada novidade e dificuldade sendo encarada como uma nova oportunidade.

Muito trabalho! Sem fugir a desafios nem a responsabilidades.
Sem ter em mira qualquer recompensa, a não ser ensinar melhor.
Pelos alunos.


Profissão e não carreira.
Sujeita a uma avaliação periódica.

Fazendo formação, regular e obrigatoriamente.

Voltei à escola, este ano.
Num período de descontentamento e luta.
Em que reina a desconfiança no nosso trabalho e a incerteza de uma avaliação justa.
Em que nos sobrecarregam o horário, sem nos darem condições para trabalhar, no local onde somos obrigados a permanecer.

Num novo tempo em que escasseia o respeito granjeado e merecido.

Num momento em que os meninos de várias cores falam várias línguas, as turmas aumentam sem cessar, as problemáticas multiplicam-se... o que não se resolve sem tempo e serenidade para corresponder aos desafios desta nova realidade...

Voltei à escola.
No momento oportuno para lhe dizer adeus.

5 comentários:

Elsa Neves disse...

Lembro-me tão bem daquele final de tarde, princípio de noite, em 2006, em que a Manuela e eu procurávamos e líamos poemas de Natal, que então seriam impressos e colocados pela biblioteca. Lembro-me tão bem desse e doutros momentos simples mas deliciosos que passei com a Manuela. Em um mês e meio, duração do meu contrato, convivi com uma magnífica mestre... apaixonadíssima pela sua profissão.

Beijinhos de saudades.

Antonio disse...

LINDO !

Merecias mais, mas deixo esta pequena frase: Li-a, nem sei bem onde...

"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina".

Judite disse...

Também eu entrei para a escola aos sete anos. A minha professora chamava-se Olga Pimenta.Era linda, muito jovem e lembro-me que gostava de ler as minhas redacções. Ficou para sempre no universo das minhas memórias felizes.( Será que ainda é viva?)Saio cinquenta e quatro anos depois.Deixei a escola há duas semanas e ainda não consigo dizer como me sinto! Sei que ensinar foi a minha PAIXÃO!Mas...onde está agora o ENAMORAMENTO?

BoDy anD SouL disse...

Uma estoria muito bonita Manuela, pesso desculpa que ainda nao vasculhei todo o seu blog, um bocadinho de cada vez, tambem gostei de ler as sob-estorias, vou fazer um pequenino comentario, secalhar nao devia, e amanha la me arrependo, a Manuela ja me comeca a conhecer...
Mas quando a Manuela fala nos alunos preguicosus, secalhar eu era uma dessas alunas, mas eu digo que nao ha pessoas preguicosas mas sim desmotivadas.
Manuela, tenho a certeza que e uma pessoa magnifica, e quem me dera que tivesse sido minha professora, pois eu detestei o frances desde o principio e que a minha professora tinha "cana" em punho e depois alguns alunos da classe ja tinhao sido alunos dela em esplicacoes, dai que avancava em passo de gigante e nao apanhei nada no principio e passei todos os anos do liceu com negativa a Frances, e triste e eu ate gosto de frances, ja e tarde para mim, so se a Manuela quiser vir de ferias ca e ai eu aprendo, so brincado, ferias e ferias!
Beijo

Everybody´s Changing disse...

Engraçado..Hoje que inauguro um blog deparo com a minha ilustre professora de Português nos "longíncuos" anos 80. Engraçado como o tempo passa...Olho para trás e sinto que o que me transmitiu foi algo de muito positivo. Agradeço-o. Hoje tenho o meu emprego e estou a tirar uma licenciatura em Direito...