segunda-feira, 15 de junho de 2009

Estes pobres...

Acontece todos os dias. Fazem fila. Movem-se norteados pelo objectivo da sobrevivência. Querem passar despercebidos. Aguardam. Resignam-se a aceitar apoio, uma cama, uma refeição gratuita. São os novos pobres. Têm habilitações literárias, muitas vezes de nível superior. Um currículo experientado. Trabalharam anos a fio. Viram as suas empresas falir, os seus postos de trabalho extinguir-se, fugir o seu ganha-pão. Subitamente. Viviam condignamente, desafogadamente. Hoje, numa idade que soma anos, sentem-se capazes de tudo, incapazes para tudo. Agora, sobra tempo para deitar contas à vida. Todo o futuro é para reequacionar. Talvez a sós. Que a família não suspeite da má sorte. Com sorte, restam-lhes um magro subsídio de desemprego, poupanças a rarear... Uma baixa médica, uma esperança de reforma antecipada. Vender algo que não compraram barato, mesmo ao desbarato. É preciso viver a curto prazo. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa. A depressão ronda. É preciso resistir. Sem sucumbir. A causa é citada a cada passo: Crise. É a Crise. Sim, a crise da Economia. Uma crise que tudo justifica, sem justificação. Uma crise a nível global, mas não geral. Basta ver as gritantes desigualdades sociais: os que têm e os que não têm direito a subsídio de desemprego; as pensões irrisórias e as outras, chorudas; os salários mínimos e aqueles outros, milionários... A mais paupérrima miséria de quem ignora o que fazer para pedir socorro, a par da frenética ganância de quem tudo tem e quer cada vez mais. Não olhando a meios para atingir fins. Sem sobressaltos de consciência pela necessidade de justiça social. Indiferente a solidariedade social. São muitos os braços inertes que tanto ainda poderiam construir! Demasiada a inteligência desaproveitada! Excessiva, a energia desperdiçada! Esmagadora, esta selvática Economia. “Sempre assim foi, sempre assim será.”- dirão muitos. “Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar” – cantava uma respeitável voz resistente. Certo é que não é possível aceitarmos este caos como algo pacífico e sem remédio. Faltam oportunidades para quem ainda muito pode contribuir com as suas competências e apetências para um mundo melhor. Inventemos saídas para a Crise. Aposte-se na Educação. Na Saúde (“...um bem-estar social e mental...”, segundo a Organização Mundial de Saúde. Como estar mais de acordo?) Aposte-se na Justiça. Recrie-se esta sociedade injusta que prescinde de alguém humana e socialmente útil, como de uma peça enferrujada e sem préstimo... colocada à margem, apenas, vá lá (o que não chega para nos tranquilizar!) com direito à sopa dos pobres...

2 comentários:

Joaquim Chaves disse...

Parabéns pelo tema!
Por um lado porque o blogue da Manuela Caeiro tem demonstrado muita virtude e versatilidade intelectual. Demonstra agora visão, consciência e solidariedade social.
Por outro lado porque este tema é sempre urgente, emergente, actual. Não nos basta ajudar os amigos, os vizinhos, os familiares. É necessário abordar o tema, denunciar publicamente com as armas que temos na mão. Que grande arma Manuela!
O desemprego aproxima-se dos 10%, sem se vislumbrar qualquer saída da parte dos responsáveis políticos. A produção nacional extingue-se e o PIB já foi. Se uns acham que o problema se resolve com a extinção dos subsídios sociais, outros ignoram o estado real do país. Enquanto isto o mais comum dos portugueses esconde-se na sombra de um angustioso desemprego.
Para além das propostas sociais aqui apresentadas, aposte-se na produção nacional, na nossa criatividade e no consumo de produtos nacionais. De Espanha pode não vir bom vento, nem bom casamento, mas bons exemplos de capacidade produtiva e aposta nos produtos nacionais, não nos faltam.

Everybody´s Changing disse...

Infelizmente o tema está mais actual que nunca e receio que estará assim durante muito tempo. Chamem-me pessimista mas quando assisto ao crescimento das desigualdades sociais e degradação das condições de vida, temo não ser algo de fácil e rápida solução. As prioridades dos governantes continuam afastadas do que é realmente importante. Os governados lutam (os que têm a força para tal...) e cada vez são mais os que sobrevivem. Cada vez menos os que "vivem". Os avanços que o século XX nos trouxe na medicina, indústria, etc não se reflectiram no aumento da qualidade de vida. Sim a esperança de vida aumentou, e a qualidade?! É certo que nos cabe a nós sermos os primeiros a tentar mudar as coisas mas como sempre ouvi dizer, uma andorinha não faz a Primavera. Enquanto isso, o tempo vai passando...Quem sabe este não se encarregará de corrigir as mentalidades e a colocar as coisas no rumo certo. É a minha esperança...