sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Imagina como seria...

"(...) sempre que o Homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.»
António Gedeão




De Nordeste a "Oriente", porque é Natal...


A camioneta de carreira avançava, tão apressada quanto podia. Partira com significativo atraso. O limpa-neves demorara longo tempo a tornar as vias transitáveis… Só então saíra finalmente da estação o primeiro carro e entretanto todo o serviço se acumulara. Para mais, sendo época de muitos passageiros ou não fosse antevéspera de Natal.
A estrada nada fazia temer, mas o gelo que ainda se amontoava nas bermas aconselhava prudência ao motorista.
Os passageiros do Norte ignoravam, indiferentes, a paisagem. Tão pouco se deixavam surpreender pelo entusiasmo dos do Sul que, clic, clic…, não resistiam a mais uma fotografia que logo seria partilhada por telemóvel… E em breve legendavam-na, de viva voz: “Caiu tanta neve! Está tudo branco! Tão bonito!...” Tão maravilhados se sentiam que se esqueciam do desejo de chegar ao destino.
Os outros não. Na sua grande maioria, eram idosos, muito idosos. Seguiam viagem com vontade de permanecer em suas casas, junto da braseira, tranquilamente. Vinham de uma aldeia perdida na serra, já cansados de transbordos e longas esperas nas paragens, carregando sacos e saquinhos de mão, mais o saquito de viagem, uma caixa de papelão e outro saco de rede com couves da horta para a Consoada… Não fosse a insistência dos filhos bem como o desejo de estar junto deles no Natal e, seguramente, não estariam ali. Cheios de vontade e pressa de alcançar o destino, iam-se lamentando da viagem: «Eles, sim, eles é que deviam vir cá acima, como é costume…  Mas não quiseram vir, as estradas estão perigosas, as crianças… Eu é que já não tenho idade para isto!...»
Neste ponto, estavam todos de acordo.


O Sol mal conseguira romper as densas nuvens, durante aquele curto dia de Inverno. Agora despedia-se. Intensificavam-se o cansaço e a impaciência, à medida que anoitecia. Disso eram prova as constantes espreitadelas para o relógio e o contínuo cálculo do atraso previsto que, apesar da chuva e das  obrigatórias e necessárias paragens, por sorte se ia tornando cada vez mais reduzido.
Por fim, a estação Oriente - o final da viagem. Carros parados com luzes de perigo, braços à espera de pais idosos e dos sacos e saquinhos, caixas de papelão e sacos de rede com couves da terra para a Consoada - que subitamente se espalharam no cais, mal estacionou o autocarro e foi aberta a bagageira, a abarrotar…
Passos apressados. Vozes alegres. Dúvidas desfeitas. Lágrimas felizes. Abraços. Rodas chiando. Sacos arrastados com esforço. Ensaios para tudo caber nos porta-bagagens. Trás! Objectivo atingido, num abrir e fechar de olhos.
Despindo singelos casacos negros de malha, um a um iam entrando nos carros dos familiares que os haviam esperado e que rapidamente iam partindo. 
«Chegámos!» - pensavam, felizes, quase esquecidos do cansaço.
O cais regressava por fim à calma fria. Outros passageiros chegariam mais tarde. Tudo por um convívio familiar, em mais um Natal...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal, História e Sociologia...


25 de Dezembro, anteriormente ao Cristianismo, era já tempo de festividade: celebrava-se o nascimento do Sol Invencível, o deus-Sol que renasce no solstício de Inverno.

À antiquíssima festa pagã sobrepôs-se, há cerca de dois mil anos, a festa cristã do nascimento do Menino-Deus.


A religiosidade faz parte da nossa herança cultural. Os presépios que, nesta época do ano, proliferam nas nossas casas, nas montras e em plena rua, comprovam-no; por outro lado, assim se apela a que não nos esqueçamos do significado atribuído, de longa data, a esta data...


Contudo, a forma como se comemora o Natal, nos nossos dias, revela bem que nas nossas sociedades, cada vez mais laicizadas, novos valores se sobrepõem à tradição religiosa.


O sociólogo Moisés Espírito Santo analisa: «A felicidade individual é, hoje, um objectivo primordial. O nascimento de Jesus é como que um antigo símbolo do “Eu, indivíduo” cujo objectivo na vida é “ser feliz”.»
E acrescenta: «Actualmente, o principal símbolo do Natal é a família. Vem depois a ideia de solidariedade humana, em que os indivíduos, com as suas diferenças estatutárias, se projectam como uma grande família humana. Há assim uma vontade de refazer a sociedade, mais igualitária, mais justa, e de relançar a fraternidade. (…)»
Não surpreende a sua conclusão: «O materialismo (comércio, consumo, etc), próprio desta época do ano, deriva da simbólica sociológica da “oferta”, num projecto de “fraternidade”.»


Convenhamos: renascer, reunir a família, recriar o social – é um projecto só por si muito amplo..., demasiado vasto apenas para um Natal.


Oferecer… o quê, como? Há tanta forma de se ser fraterno e solidário, no nosso dia-a-dia!


Tornar feliz, sem dúvida. Ser feliz, sim!
(Objectivos a não perder de vista, na azáfama e correria de cada dia...)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

E é Natal!...


- Menino Jesus, a Terra, este nosso planeta, precisa tanto de um presente de Natal!...

O 1º Período chega ao fim...

2009 foi o ano da aposentação. E, no entanto, a escola continua a ser um dos espaços em que me movo regularmente. As crianças continuam a encher-me de energia e entusiasmo. O meu tempo permanece pautado pelos períodos escolares. O livro mantém-se o meu instrumento de trabalho - agora liberto de programa obrigatório...  


Promover o livro e a leitura - lendo, recontando, explicitando, despertando a curiosidade... Salpicar a leitura de escrita, espontaneamente (se possível e oportuno)... Um projecto in progress


Comecei por três sessões de escrita, no "ano passado" (Maio de 2009). 
Desde 17 de Novembro, realizei nove sessões de histórias de Natal... e outras duas, diferentes entre si, em virtude do público-alvo (numa, 4-5 anos; noutra, adultos). 
Novas experiências acumuladas às de muitos longos anos.




Passo a passo, o 1º Período, isto é, 2009 chega ao fim. 
Com deliciosos momentos. 


Deixo aqui um portfolio de imagens (preservando, necessariamente, a identidade das crianças). Para recordar.






Eis as escolas:
Jardim de Infância Nuclisol (Instituto Piaget - Mirandela)
EB1 nº1 da Cova da Piedade (Agrupamento Vertical de Escolas Comandante Conceição e Silva - Cova da Piedade/Almada);
EB1 de Conde de Ferreira (Agrupamento Vertical de Escolas Anselmo de Andrade - Almada);
EB1 de Casal de Bolinhos (Agrupamento Vertical de Escolas de Azeitão);
EB1 de Vendas de Azeitão (Agrupamento Vertical de Escolas de Azeitão);
EB 2.3 D. António da Costa (Agrupamento Vertical de Escolas de D. António da Costa - Almada)


A Leonor (Professora Bibliotecária de Azeitão) publicou...:
http://palavras-partilhadas.blogspot.com/2009/12/uma-historia-de-natal.html

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Declaração Universal dos Direitos Humanos













A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adoptada pela ONU, em 10/12/1948 (há 61 anos), na sequência do fim da II Guerra Mundial.


Esta Declaração pretendia ser um ideal comum a todos os povos e todas as nações, através da adopção de medidas progressivas, de carácter nacional e internacional, que assegurassem o seu reconhecimento e a sua observância universal. 
Muito tem sido feito. Muito há por fazer.

Temos Declaração; para quando o cumprimento integral dos Direitos?!...

Pela paz, pelos direitos humanos...

Bob Dylan, nos idos anos 60, com 21 anos, cantando pelo fim da Guerra do Vietname - esta canção que se transformou num hino pelos direitos civis:


«How many roads must a man walk down 
Before you call him a man? 
Yes, "n" how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand? 
Yes, "n"  how many times must the cannon balls fly
Before they´re forever banned?
The answer, my friend, is blowin´ in the wind
The answer is blowin´ in the wind.  


How many years must a mountain exist
Before it´s washed to the sea?
Yes, "n" how many years can some people exist
Before they´re allowed to be free?
Yes, "n" how many times must a man turn his head
And pretend that he just doesn´t see? 
The answer, my friend, is blowin´ in the wind 
The answer is blowin´ in the wind.  



How many times must a man look up
Before he can really see the sky?
Yes, "n" how many ears must one man have
Before he can hear a people cry? 
Yes, "n" how many deaths will it takes till he knows
Too many people have died?
The answer, my friend, is blowin´ in the wind 
The answer is blowin´ in the wind.»  






sábado, 5 de dezembro de 2009

«Rumo à Ciência», no Jardim de Infância


Há meses atrás, contactaram-me. O telefonema vinha do nordeste transmontano, onde um projecto de motivação para a Ciência, destinado aos mais pequenitos,  ganhara forma. Confiavam em mim para escutar, opinar, sugerir... E assim sucedeu. 
As histórias, claro, não podiam deixar de ser adicionadas ao projecto.


Não me esqueci da sugestão feita. E, entretanto, fui procurando obras, em prosa ou em verso, em torno da natureza ou sobre engenhocas e inventos que, enfim, me parecessem adaptáveis à faixa etária dos 4-5 anos e dos temas científicos que se poderiam abordar num projecto com este cariz (sabendo eu bem que não sou perita nem nas Ciências nem no trabalho com esse público-alvo). 


Reuni, no entanto, uns tantos livros que me pareceu poderem ser úteis, de algum modo.


Numa recente e curta viagem lá acima, a bagagem ia reforçada com o resultado dessa despretensiosa e empenhada busca que, por sinal, logo começou a servir. 




Tudo se conjugou para que, no dia 30 de Novembro, eu fosse prestar uma colaboração à professora do Ensino Superior, Cristina Pinto, no «Rumo à Ciência»,  e que, em paralelo com a temática das estações do ano, com o Outono e as suas tonalidades quentes a darem espaço à criatividade, eu fizesse a minha estreia em promoção da leitura, na "Pré-Primária"...





Doze meninas e meninos que se mostraram muito participativos e sempre atentos a uma história da autora Manuela Alves, da Editorial Caminho, Salpico - alcunha de uma criança que cresceu com os avós, numa quinta onde vivia tranquilo e livre, e que um dia foi viver junto dos pais e irmãos, numa cidade barulhenta e apressada... sujeito a uma adaptação difícil, mas conseguida (como é próprio de uma qualquer história... e da vida!)...


Os pequenitos demonstraram e afirmaram gostar... e eu também.

domingo, 22 de novembro de 2009

Livraria para a infância, ilustração para fazer sonhar



Dirigi-me ao espaço onde ia decorrer a formação, nos Casais Brancos, em Óbidos: uma antiga escola primária que, em vez de estar ao abandono ou encarregada de funções em nada compatíveis com a sua missão inicial, é hoje uma bem apetrechada e lindíssima livraria. Melhor: uma livraria dedicada em exclusivo à literatura infantil ou com ela relacionada. Seria concebível um melhor destino?!
E com isto tudo ainda não disse que se trata de uma livraria onde, entre os 10 Direitos do Livreiro, se contam “Conhecer os seus Livros de cor”, “Informar”, “Formar”… e que se auto-denomina “uma casa ao serviço da mediação da leitura, onde moram livreiros mordidos por um bicho de conto”. Quem conhece Mafalda Milhões acredita que terá sido, sem dúvida! Esta dá vida ao projecto da livraria Histórias com Bicho.


A temática da acção de formação girava em torno dos livros, do ler, do contar, da ilustração com  “as cores do A B C”… Uma acção com carácter eminentemente prático, após uma curta abordagem teórica: como a ilustração evoluiu desde o tempo da pequenina gravura a preto e branco, perdida entre letras…; mostra de magníficas ilustrações de alguns ilustradores de renome, da actualidade…; o que a cor sugere, os sentimentos que desperta…; a forma como se combinam as cores para criar determinados ambientes e acordar emoções…
Na realidade, um outro código que é imprescindível aprender a ler, ensinar a ler…


“Habituei-me a retirar do texto toda a informação, esquecendo-me até de olhar para a ilustração…” – confessei com arrependimento, eu que ali fui de livre vontade, decidida a penitenciar-me e a querer saber mais.


“A mim acontece-me ler um livro e esquecer-me de olhar para as palavras”… - sossegou-me a formadora, Danuta Wojciechowska.


E assim me pus a reflectir na equivalente importância de ambos os códigos. Na injustiça de não se considerar o ilustrador como um co-autor. Na insuficiente preparação que tive neste domínio. E quantos professores ainda hoje a terão, lamentavelmente?!


Só sei que nada sei… Mas sinto orgulho nas modestas obras-primas que criei na componente prática da acção: uma composição cromática, a aguarela, e uma ilustração, realizada a partir de pintura a guache e découpage, que assinalam a intensa experiência vivida naquela velha escola, tornando inesquecível a minha passagem por ali. 


Um local a visitar, tanto pela livraria e pelo edifício em si como também pela paisagem, com quilómetros de horizonte, incluindo uma ampla vista sobre a vila de Óbidos…


http://www.obichinhodeconto.pt/  (uma página em remodelação, aqui à mão)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Promoção da leitura: um novo projecto de vida…

Hoje, vou fugir da rotina das crónicas e notícias, histórias e poesias, leituras e citações, melodias, filmes e fotografias…  e vou falar de sonhos bem reais! 


Referir-me a um projecto que idealizei, verbalizei, a que dei forma gráfica, que submeti à aprovação de um Conselho de Docentes e que finalmente iniciei. Ontem, dia 17 de Novembro.


Ler e contar histórias, animar e mediar a leitura, promover leitura autónoma - eis os meus objectivos. 


Este 1º projecto é o “Ler a meias…” 
O público, crianças do 1º Ciclo. O local, uma biblioteca escolar… O lucro, a felicidade de o poder realizar. Esperando que a semente dê fruto...



Natal foi o tema de abertura. Luisa Ducla Soares e o seu “Natal no Hipermercado”, deram o mote para uma breve leitura de catálogos do «Toys ´R Us», observação de postais ilustrados, chegados pelo correio, daqui e dacolá, cartões de Natal, cartas ao Pai Natal… 


Entretanto a história foi-se desenrolando, sem perder o ritmo, suscitando o entusiasmo de todos e de cada um… Bastava ver os olhos das crianças atentas, ouvir os seus risos, as suas exclamações... (Idêntica reacção numa e noutra turma de 3º ano.)




Uma 1ª sessão que contrariou as dúvidas de alguns professores, receosos da perda de tempo que tal actividade poderia constituir para o cumprimento do programa!… Mas que vingou, graças ao entusiasmo e confiança de outros.



Uma sessão que me anima a prosseguir. (Nunca duvidei!)


Um momento mágico que me faz sentir feliz pela opção deste novo projecto de vida…




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Astérix e Obélix fazem 50 anos


(Uderzo, 81 anos, desenhador, com as suas personagens: Astérix e Obélix)

O 50º aniversário de Astérix e Obélix, será no dia 29 de Outubro, mas a festa começou antes.
No dia 22, em 18 línguas e em muitos países, foi posto à venda O aniversário de Astérix e Obélix - O livro de ouro.


56 páginas de histórias curtas, narradas em pranchas inéditas, para satisfação dos milhões de fãs de todas as idades, espalhados pelo mundo inteiro, atentos à interminável luta dos gauleses contra os romanos, resistindo à invasão...


Uma prenda especial.  (Ver aqui .)
E há mais... "Le blog des irréductibles": http://blog.asterix.com/

Prémio Literário Cidade de Almada



Domingos Lobo, com o seu "Para guardar o fogo - Epitáfios", foi o vencedor da 20ª edição do prestigiado prémio literário Cidade de Almada, modalidade de poesia.
A cerimónia decorreu na noite de 22 de Outubro, no Fórum Romeu Correia.
O escritor premiado, já outras vezes galardoado, está a redigir o seu 4º romance e tem-se igualmente dedicado à poesia, "preguiçosamente", segundo fez crer.
Por tudo o que foi referido, pela análise feita da obra, pelos poemas que tivemos o privilégio de escutar, aguardamos a sua publicação.
Assim que a obra se transforme em objecto-livro, estará disponível nas nossas bibliotecas municipais e escolares.
Almada, Cidade Educadora, empenha-se no apoio à criação e à respectiva difusão, para que "cada vez mais pessoas possam fruir da cultura" - como salientou o Vereador desse pelouro, o Engº António Matos, que realçou o nº crescente de bibliotecas, de leitores registados e de livros requisitados, na autarquia. Um objectivo nobre e bem sucedido; uma obra a prosseguir, com determinação.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antologia Poética


Canção de uma sombra





Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha
janela onde me vou
Debruçar, para ouvir a
voz das coisas,
Eu não era o que sou.



Se não fosse esta
fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou…
E este
sol, que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.


Ah, se não fosse este
luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.


E se a
estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o
vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.


Ah, se não fosse a
noite misteriosa
Que meus olhos de sombra povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.


Sem esta
terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos
montes e arvoredos,
Eu não era o que sou.




Teixeira de Pascoaes



In Andresen, Sophia de Mello Breyner, Primeiro Livro de Poesia, Caminho, 1996, 4ª edição, pp. 118-119





......................




Uma história de vida


(à maneira de... Teixeira de Pascoaes)





Sou a síntese da herança genética que transporto,
do que vi, ouvi, li, aprendi, vivi…
do que recordo e do que esqueci.
Sou o fruto da influência da família, dos professores,
dos meus amigos.


Se?…
Se eu não fosse habitada por tantas histórias e gentes
Eu não era o que sou.


Se eu não tivesse África como raiz da vida
Se não tivesse uma tetravó negra
avós e pai metropolitanos, emigrantes…
Se não tivesse pele branca e olhos azuis
Se não tivesse tido sempre o mar como horizonte do olhar…


Se eu não tivesse sido imbuída de uma cultura cristã
Se não tivesse tido mãe atenta e uma pequenina irmã
Se não tivesse tido um quintal, trepado às árvores,
descosido e rasgado vestidos na subida,
Arriscando um castigo, pois usar calças era proibido…


Se não tivesse aprendido a viver sem luxos
gerindo e gerando recursos
Se não tivesse mudado de continente, de país, de cidade… 
em viagem impregnada de mar, baloiçada num vapor,  dias a fio
Se não me tornasse imigrante…


Se não tivesse estudado o que estudei
Não tivesse partido solitária e autónoma
para uma cidade universitária,
lá longe, algures, algum tempo…
Se não tivesse sido professora durante décadas,
Bibliotecária, alguns anos,
Leitora,
Amadora amante de teatro, cinema, de arte, enfim


Se não gostasse de crianças
Se não conservasse em mim a criança que fui
Se não fosse desatenta e curiosa
Desajeitada e plena de energia
Insegura, querendo ser segura
Determinada a aprender


Se não tivesse sido Mãe repetidamente, uma vez… outra vez…
Se não tivesse sido Avó… uma, mais uma, mais outra vez…
e ainda outra vez virá…


Se não tivesse vez o casamento
o divórcio…
Se não permanecesse aberta à lição da vida
Ao desejo de a deixar fluir… e dela fruir, em plenitude…
Se não tivesse vencido cada dificuldade
como quem enfrenta um desafio
Se não tivesse quem me amparasse no voo…


Se não conservasse a saúde
Se perdesse a alegria
a espontaneidade
a inocência do olhar
a capacidade de sonhar


Se não fizesse projectos que dão sentido à vida
E não mantivesse a sede de evoluir e construir


Se deixasse de fruir da bonança
e de resistir à tempestade
Se deixasse de escrever
conviver
ver
fotografar
querer saber
querer viver
rir…


Se assim fosse
Eu não seria eu!


Eu não era o que sou.


Manuela Caeiro




quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Prémio Nobel da Literatura 2009

A Academia sueca já decidiu o vencedor do ano. Aliás, a vencedora: Herta Muller, escritora alemã de origem romena. A notícia aqui está, à distância de um clique:

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poesia em animação...


José Saramago escreveu, em 2001, o seu único conto infantil...
...que, cinco anos mais tarde, foi transformado numa premiada curta metragem de animação, por Juan Pablo Etcheverry.
Palavras e imagens fundidas numa estética profundamente poética...
A não perder:

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Parabéns, Mafalda!


«Mafalda, a personagem de BD que o argentino Quino idealizou para um anúncio a electrodomésticos, celebra hoje 45 anos no papel de uma das mais improváveis e divertidas comentadoras políticas da actualidade.
De traços simples, cabelo negro farto e muito opinativa, Mafalda surgiu pela primeira vez a 29 de Setembro de 1964 nas páginas do semanário argentino "Primera Plana". Quino, então com 32 anos, nunca adivinharia o sucesso daquelas tiras humorísticas, que se prolongaram por nove anos. (...) À primeira vista, Mafalda podia ser uma menina de seis anos, reguila, desafiadora e descarada, mas depressa se percebeu que da sua boca, dos balões que Quino preenchia, saíam comentários mordazes e pertinentes sobre a ordem do mundo, a luta de classes, o capitalismo e o comunismo, mas também, de forma mais subtil, sobre a situação política e social argentina. (...) A par da atitude de adulto mas com o desarmante discurso de uma criança, Mafalda tinha essa mesma condição de menina, que detestava sopa, adorava os Beatles, não compreendia a guerra no Vietname e tinha monólogos preocupados em frente a um globo terrestre. » In: http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/538454
«No passado dia 30 de Agosto, um discreto senhor de 77 anos sentou-se num banco da Rua do Chile, 73, em Buenos Aires, ao lado da estátua de uma menina em tamanho natural (...)
O senhor de idade era o desenhador Quino, e a menina da estátua, Mafalda, a sua grande criação, que hoje faz 45 anos. E, no edifício junto ao qual a estátua foi inaugurada, viveu Quino (aliás, Joaquín Salvador Lavado) durante a sua infância. (...) Em 1973, e em plena crista da onda de popularidade, Quino decidiu parar de desenhar Mafalda, para evitar cair na repetição e na rotina, e para se dedicar ao desenho de humor e à caricatura. (...) Mafalda continua viva como nunca, e os seus álbuns a esgotar edições. E agora, aos 45 anos, até já tem uma estátua ao pé do prédio onde viveu o "pai" Quino quando era miúdo como ela.» http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1375374

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um novo ano...







O Outono vem chegando de mansinho.
Empalidece o sol, soltam-se as folhas douradas embaladas pelo vento..., as folhas dos livros e cadernos novos sussurram pedidos de atenção...
É um novo ano lectivo que começa.

Tempo de aprender.
Numa escola para todos, sem olhar a sexo, origem social, país natal...
Universal e obrigatória.
Uma conquista do nosso tempo.
Uma aposta vital.



Quase esquecemos que nem sempre assim foi!

A velhinha escola António José Gomes, da Cova da Piedade,

de 1911, hoje transformada em museu, destinava-se exclusivamente ao sexo masculino. Haveria outra para o sexo feminino, pensarão. É verdade, mas não com esta dignidade, acanhada no 1º andar de um prédio... e destinada apenas àquelas cujos pais consideravam que valia a pena "pôr a estudar". 
Ainda assim, aí estudavam muitas meninas, da 1ª à 4ª "classes", entregues à atenção constante de uma única professora, Conceição Sameiro Antunes, sem dúvida uma das precursoras heróicas da aplicação do método de ensino diferenciado...
Ter estudado abriu-lhes as portas do futuro. Reconhecemo-lo hoje, com naturalidade. Assim se foram esbatendo as diferenças de género; assim se tem construído a igualdade.


Hoje em dia, acreditamos que cada professor lecciona um único ano de escolaridade... Ilusão! Cada turma tem alunos mais e menos adiantados, mais e menos motivados, alunos estrangeiros, alguns com necessidades educativas especiais... Subgrupos muito diversos, condições adversas. Exigindo uma resposta construída de dedicação, criatividade, empenhamento... Muito esforço. Nem sempre valorizado. Nem sempre bem sucedido.

Às famílias compete um papel diferente, igualmente exigente: conciliar o seu horário profissional (mais o tempo de deslocação) com os toques de campainha das crianças, com a necessária disponibilidade para cuidar delas e as apoiar... Tarefa hercúlea. Que vale o esforço!

Afinal, é na criança que reside a chave do sucesso de aprender.
Não basta ensinar!...
O estudante precisa de reconhecer a importância do saber, dar valor ao trabalho, sentir confiança e auto-estima. Por fim, tudo será (mais) fácil...

O insucesso terá um único culpado?
A resposta chega em tom de humor (surripiado ao blogue "A malta do Montijo" http://amaltadomontijo.blogspot.com/ ):



Recorrendo à gíria escolar, é tempo de desejar - aos jovens, seus pais, professores e demais trabalhadores das escolas - um bem sucedido e FELIZ ANO NOVO!... 

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Verdade e mentira da fotografia... (Citação)


«(...) Dizem que as fotografias não mentem, mas essa é a maior mentira que já ouvi.
E foi assim, abrindo a gaveta à procura de qualquer coisa, que, sem aviso, me escorregou para as mãos uma fotografia tua tirada durante aqueles quatro dias. Fiquei a olhar-te longamente, longa, longa, longamente. Longamente me fui dando conta de que tudo aquilo acontecera mesmo: eu não o sonhara, durante vinte anos.
Nisso, quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá, as fotografias não mentem - esse instante existiu mesmo. Porém, a mentira consiste em pensar que esse instante é eterno, que dois amantes felizes e abraçados numa fotografia ficaram para sempre felizes e abraçados.
É por isso que não gosto de olhar para fotografias antigas: se alguma coisa elas reflectem, não é a felicidade, mas sim a traição - quando mais não seja a traição do tempo, a traição daquele mesmo instante em que ali ficámos aprisionados no tempo. Suspensos e felizes, como se a felicidade se pudesse suspender carregando no botão "pause" no filme da vida. (...)»

Miguel Sousa Tavares, No teu deserto, Oficina do Livro, 2009

domingo, 13 de setembro de 2009

Leituras de Verão...


Impõe-se um comentário aos livros lidos. E não basta dizer "Gostei" ou, menos ainda, "É bonito" ou coisa do género. Já no Liceu, há muitos, muitos anos, aprendi que não, isso nunca!...
Acontece que não estou a fazer nenhum trabalho escolar e muito menos uma crítica para um qualquer meio de comunicação social... Não se trata de trabalho! Sorte a minha!...

O que irei referir em torno do tema que livremente escolhi é decisão pessoal. Despretensiosa, como sempre. Simples apontamentos.

Questiono-me sobre a intenção com que falo das minhas leituras de Verão: quatro livros que saltaram um tanto ao acaso de entre pesadas pilhas em fila de espera, vendo consumado o paciente e mudo desejo de que chegasse a sua vez. Casualmente, escolhi dois autores portugueses, dois estrangeiros, todos contemporâneos, vivos.

Antes do mais, este meu acto de escrita constitui um momento de síntese sobre as cerca de mil páginas lidas. Não nego igualmente a intenção de, eventualmente, por este meio, colaborar na respectiva divulgação...
Não será essa, afinal, a vocação de um blogue?




A gaiola de ouro, de Shirin Ebadi, explica-nos a História recente do Irão. As Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa, fala-nos da História recente do Peru.
Se dantes talvez adormecêssemos ao ler os manuais de História, agora temos a oportunidade de saber mais, sem esforço e com prazer...

Ambos os romances tecem uma história que nos prende a atenção e nos ajuda a compreender a política do mundo em que vivemos, enquanto as personagens destes dois romances se movem por entre a ficção, bem assentes na realidade da nossa época, na sua terra.

Mario Vargas Llosa apimenta a narrativa em torno das relações de uma "menina má" e de um "menino bom", deixando o leitor sempre em suspenso, tentando descortinar o surpreendente desfecho daquela inexplicável história de amor... tão particular quanto qualquer outra.

Shirin Ebadi, advogada e activista dos direitos humanos, Nobel da Paz em 2003, adopta uma atitude de denúncia: centra a sua história numa família, cada um dos irmãos seguindo um ideal de vida e um percurso diferente, cada qual preso em seu beco sem saída... como o seu país natal.

Nos romances nacionais, a História não é tema de eleição. Naturalmente.

Manuel Córrego (pseudónimo literário de Manuel Pereira da Costa) é advogado ligado às Letras, por diversas vezes galardoado. O seu livro Vento de Pedra foi distinguido com o prémio literário Ordem de Advogados, 2008.
A ênfase deste seu romance é dada à condição humana, com destaque para a condição feminina, em gerações sucessivas de um passado recente, no norte do país. Muitas histórias se entrelaçam no seu fio condutor. As peripécias sucedem-se e os valores questionados não nos deixam sentir indiferentes. Uma narrativa densa e bem escrita conduzida por narradores que alternam sem aviso, o que nos espicaça a atenção e a curiosidade, até ao inevitável final.

Em No teu deserto, Miguel Sousa Tavares evoca memórias, mais ou menos romanceadas. Relata uma viagem pelo deserto, em que "ele" segue com duas máquinas fotográficas e outra de filmar, em riste, decidido a respeitar o compromisso de fazer reportagens para periódicos e televisão, tendo por companhia, meio acidental, uma jovem com quem con-viveu intensamente um «quase romance».
Surpreendentemente, o desenlace é desvendado logo de início, mas a expectativa não decresce pois as circunstâncias e motivos conservam o seu segredo e a curiosidade acelera, pelo contrário, o ritmo de leitura, na esperança de descobrirmos rapidamente o que falta saber (tanto mais que o livro é curto... e se lê bem...)

Quatro livros, quatro convites à leitura:
  • Córrego, Manuel, Vento de Pedra, Sopa de Letras, 2008
  • Ebadi, Shirin, A gaiola de ouro, A Esfera dos Livros, 2009
  • Llosa, Mario Vargas, Travessuras da menina má, Dom Quixote, 2006
  • Tavares, Miguel Sousa, No teu deserto, Oficina do Livro, 2009
Pessoalmente, não saberei aconselhar qual deles não perder... nem por qual começar...
A cada um, a sua livre opção. Fruto do acaso ou da vontade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

«Quem inventou o mês de Agosto?!...»


Ferragudo. Agosto. Tarde de sol tórrido. Raros se atrevem a mergulhar no rio Arade. Maré cheia, águas relativamente límpidas, mas as sujas margens desaconselham o banho apetecido. Que calor!

Um beco sem saída desemboca num pontão junto à foz do rio. Em frente, o mar. Na outra margem, Portimão.
A placa é clara: trânsito proíbido, excepto a residentes. Escassos veículos ousam a transgressão. Apenas peões se permitem aí sentir a brisa do Oceano, talvez pescar... ou simplesmente sentarem-se numa das esplanadas, beber uma água fresca ou tomar uma refeição, ainda que a desoras... De facto, as convidativas mesas estão sempre postas. Em enormes grelhadores, as brasas ardem em permanência, prontas para saborosos petiscos. Quanto calor!

Nesta latitude, Agosto é sinónimo de Verão. Agosto é praia. Mar, sal e sol. Costa de braços abertos para todo um país em férias. Para os nossos emigrantes que voltam, ano a ano. E não só: também para um bom punhado de espanhóis, ingleses e demais turistas "multinacionais"...

Quem inventou Agosto povoou cada pequena baía, fazendo crescer infinitamente uma antiga aldeia de pescadores... Encheu as arribas de casas que em Agosto abrem janelas e estendem toalhas salgadas ao sol...

Quem inventou Agosto engarrafou com filas de carros cada caminho que desemboca numa praia, para alegria de quem tem de trabalhar na grande cidade, mais a norte... Não a sul.
Gente, gente, gente... Calor!...

Quem inventou Agosto treinou a paciência de quem conduz e procura estacionar um automóvel... ou a de quem aguarda pacientemente ser atendido numa qualquer fila, em pastelaria, restaurante, minimercado, farmácia ou correio... suportando o calor. A custo.
Tudo sem importância quando finalmente se estende a toalha no areal e se mergulha na praia. Frescura!...

Agosto inventado, tem vencimento extra. Saldos. Passeios. Convívio. Tempo livre. Repouso. Preguiça subsidiada. Que o calor amplia.

«Quem inventou o mês de Agosto?!» foi uma pergunta que não espelhava alegria. Pelo contrário, soava a interjeição de grande desânimo. Quem assim falava era a empregada de mesa de um daqueles restaurantes, enquanto repunha uma mesa pela enésima, digo, pela milionésima vez, naquele tórrido dia de Agosto, sentindo o cansaço de um dia, aliás, de todo um mês que nunca mais chegava ao fim.
Com a fadiga de quem trabalha para proporcionar férias a quem as pode gozar.

Talvez ela suspire hoje de alívio, agora que as auto-estradas já registaram a avalanche do regresso a casa.

Talvez a Economia tenha sido relançada, assim esperamos! Mas provavelmente tal não trará grande reflexo para as suas magras finanças...

Para a «história» ficarão o sabor a mar, as recordações e as fotografias dos veraneantes. O calendário aguardando o próximo Estio. O desejo de regressar.