Num cacilheiro, abordam-me:
- Desculpe, mas a senhora não é a professora Manuela Caeiro?
- Sim...
O rosto era-me familiar. Não admira que não a reconhecesse de imediato: já se passaram tantos anos! (Talvez vinte, trinta?...)
Abriu-se-lhe um sorriso de alegria e os olhos demonstraram visível comoção.
Alice Vieira e eu temos um cantinho no coração desta senhora: associa Rosa, minha irmã Rosa à memória das nossas aulas de Português...
Ousei dizer-lhe:
- Mas tive a sensação que, ao ler esse livro, eu não conseguia captar a atenção geral da turma! Lembro-me que uma colega minha opinou ser uma obra mais indicada para leitura autónoma... e eu concordei!...
- Mas era a maneira como nos lia!... - E o movimento das mãos parecia rebuscar a memória. - Eu adoro esse livro! Comprei-o... ainda hoje o tenho.
As suas palavras emocionadas transbordavam de afeto pelo livro, pelas aulas...
(Como não ficar, também eu, comovida?)
Fizemos a viagem lado a lado. Falámos ao longo da travessia. Histórias de vida. Histórias da turma; laços de amizade que mantêm vivos; atitudes solidárias em momentos difíceis, entre si. Até hoje!
O barco atracou.
Cada uma foi à sua vida.
Como não ficar a sentir..., a matutar?...
O que melhor plantei entre as crianças foram palavras..., as minhas e as dos escritores... (Saberão hoje alguma coisa de categorias de textos, de conceitos gramaticais? Nem sequer são os mesmos!!!)
O melhor currículo que a escola pode dar aos jovens não será porventura este, o oculto? A integração social, o valor da amizade e da solidariedade...?
Tanto programa, tanto plano, tanta lufa-lufa... e afinal...
Ler, citar, contar, escrever... Partilhar experiências de mediação de leitura e de vida...
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segunda-feira, 28 de abril de 2014
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Observar e ser observado...
Eu observava à minha volta, à medida que o metro avançava. (Há sempre uma crónica debaixo de olho, quando a buscamos...)
Precisamente à minha frente, sentou-se uma jovem, ágil como é habitual na sua idade; surpreendentemente discreta, no vestuário e na apresentação.
Embora sendo loira e bela, facilmente passaria despercebida, não fosse aquele seu impulso de imediatamente abrir a mochila, pegar num caderno e numa lapiseira (em vez de um qualquer tablet), olhar serenamente para a esquerda e para a direita e, sem tempo a perder, começar a escrever, desenhando cada letra devagar... Compassadamente, a um olhar seguia-se uma frase breve...; a novo olhar, umas tantas palavras mais...
Eu olhava-a, curiosa...
Poesia? Prosa?, registo de impressões de viagem...?
Impossível confirmar!
Fitou-me. Desviei o olhar, por instantes. Voltei a espreitar; continuava a olhar na minha direção, lapiseira suspensa sobre o caderno aberto...
Observar e ser observada...
Interesse e inquietude...
Terei entrado na sua história?
Como gostaria de ler o seu texto!...
O trajeto era curto. Dúvida e desejo ficaram por satisfazer.
Por mim, fica assim descrita a bela jovem amante da escrita.
Precisamente à minha frente, sentou-se uma jovem, ágil como é habitual na sua idade; surpreendentemente discreta, no vestuário e na apresentação.
Embora sendo loira e bela, facilmente passaria despercebida, não fosse aquele seu impulso de imediatamente abrir a mochila, pegar num caderno e numa lapiseira (em vez de um qualquer tablet), olhar serenamente para a esquerda e para a direita e, sem tempo a perder, começar a escrever, desenhando cada letra devagar... Compassadamente, a um olhar seguia-se uma frase breve...; a novo olhar, umas tantas palavras mais...
Eu olhava-a, curiosa...
Poesia? Prosa?, registo de impressões de viagem...?
Impossível confirmar!
Fitou-me. Desviei o olhar, por instantes. Voltei a espreitar; continuava a olhar na minha direção, lapiseira suspensa sobre o caderno aberto...
Observar e ser observada...
Interesse e inquietude...
Terei entrado na sua história?
Como gostaria de ler o seu texto!...
O trajeto era curto. Dúvida e desejo ficaram por satisfazer.
Por mim, fica assim descrita a bela jovem amante da escrita.
Imagem retirada de um jornal digital.
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Eis setembro...
É cedo. A manhã promete verão.
O sol reverdece a relva e cada gota da rega matinal banha-a com a luminosidade do arco-íris.
Esvoaçam bandos de pombos.
A Alameda move-se.
Atravessam-na uns calções e um top bem recortados, um sari, uma túnica, umas calças generosas presas junto aos calcanhares, saia e blusa discretas sobre sandálias de saltos confortáveis, chinelos rasos ou havaianas...
De telemóvel na mão, há quem aproveite para fazer recomendações, avisos, desabafos, imprecações... Percebe-se pelo tom. As línguas são diversas, algumas delas irreconhecíveis, talvez árabe, línguas eslavas, sei lá!
Cruzamo-nos ali com o mundo.
Passam trabalhadores diligentes, sem tempo a perder; uma mãe apressada empurra um carrinho de bebé; o mais velhinho segue-a, a pé.
Pequenos comerciantes dispõem à porta caixotes de fruta; lá dentro atendem clientes.
Um centro de tempos livres reabriu portas. Outras portas à volta mantêm-se cerradas, ostentando ar de falência e abandono...
Entrevemos de relance, no centro de trabalho temporário, alguém sentado lendo, quem sabe?, talvez uma página de anúncios de emprego...
Vende-se, aluga-se, arrenda-se, em grandes parangonas expostas em janelas fechadas, comprovam a recuperação económica adiada...
De um daqueles prédios, irrompe uma jovem mulher, no seu vestido ondulante, descendo escadas em perfeito equilíbrio sobre saltos pontiagudos. Alguém a espera em carro vistoso e mal estacionado, com cortesia de amante.
Chora convulsivamente um bebé, no Jardim Infantil do lado de lá da rua, certamente num espaço por enquanto desconhecido, onde se sente desprotegido. A mãe inquieta, em segredo, sofre também... Tempo de adaptação, seguramente breve.
É setembro.
Retoma-se, aos poucos, um novo ciclo de vida.
Convoca-se a tenacidade e a coragem bem como o prazer de fruir do dia-a-dia.
O futuro exige garantias.
O sol reverdece a relva e cada gota da rega matinal banha-a com a luminosidade do arco-íris.
Esvoaçam bandos de pombos.
A Alameda move-se.
Atravessam-na uns calções e um top bem recortados, um sari, uma túnica, umas calças generosas presas junto aos calcanhares, saia e blusa discretas sobre sandálias de saltos confortáveis, chinelos rasos ou havaianas...
De telemóvel na mão, há quem aproveite para fazer recomendações, avisos, desabafos, imprecações... Percebe-se pelo tom. As línguas são diversas, algumas delas irreconhecíveis, talvez árabe, línguas eslavas, sei lá!
Cruzamo-nos ali com o mundo.
Passam trabalhadores diligentes, sem tempo a perder; uma mãe apressada empurra um carrinho de bebé; o mais velhinho segue-a, a pé.
Pequenos comerciantes dispõem à porta caixotes de fruta; lá dentro atendem clientes.
Um centro de tempos livres reabriu portas. Outras portas à volta mantêm-se cerradas, ostentando ar de falência e abandono...
Entrevemos de relance, no centro de trabalho temporário, alguém sentado lendo, quem sabe?, talvez uma página de anúncios de emprego...
Vende-se, aluga-se, arrenda-se, em grandes parangonas expostas em janelas fechadas, comprovam a recuperação económica adiada...
Chora convulsivamente um bebé, no Jardim Infantil do lado de lá da rua, certamente num espaço por enquanto desconhecido, onde se sente desprotegido. A mãe inquieta, em segredo, sofre também... Tempo de adaptação, seguramente breve.
É setembro.
Retoma-se, aos poucos, um novo ciclo de vida.
Convoca-se a tenacidade e a coragem bem como o prazer de fruir do dia-a-dia.
O futuro exige garantias.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Será lixo? Será gente?!...
Chego a Lisboa. Desço na última paragem da Av. de Berna e atravesso a pé a Av. da República.
Bem no centro daquele imenso largo inóspito e ruidoso, ladeado pelo intenso tráfego de ambos os sentidos da dita avenida, estende-se por terra uma mancha negra.
Cativa o olhar, aquele monte de trapos lançado sobre paralelipípedos de pedra esbranquiçada.
O que será?... Lixo?...
Gente!... Homem ou Mulher?, não se distingue.
Volume sujo e andrajoso; inodoro no espaço aberto; exposto e discretamente encoberto, no meio da praça deserta.
Um sem-abrigo não surpreende. (Mau sinal!) Mas ali? Não optar por um local recôndito, um vão de escada, o recanto de uma sacada?... Ali mesmo?!
Estendo o olhar, alargando o plano.
Por cima dele, um outdoor enorme que me não prendera a distraída atenção...
Um cartaz de sorrisos prometedores e afetuosos...
Uma mensagem breve.
Um sem-abrigo abrigado na esperança...
"Queremos Lisboa! +Habitada +Viva +Solidária"
Esta não é uma ação de campanha. (Poderia ser, admito.)
Bem no centro daquele imenso largo inóspito e ruidoso, ladeado pelo intenso tráfego de ambos os sentidos da dita avenida, estende-se por terra uma mancha negra.
Cativa o olhar, aquele monte de trapos lançado sobre paralelipípedos de pedra esbranquiçada.
O que será?... Lixo?...
Gente!... Homem ou Mulher?, não se distingue.
Volume sujo e andrajoso; inodoro no espaço aberto; exposto e discretamente encoberto, no meio da praça deserta.
Um sem-abrigo não surpreende. (Mau sinal!) Mas ali? Não optar por um local recôndito, um vão de escada, o recanto de uma sacada?... Ali mesmo?!
Estendo o olhar, alargando o plano.
Por cima dele, um outdoor enorme que me não prendera a distraída atenção...
Um cartaz de sorrisos prometedores e afetuosos...
Uma mensagem breve.
Um sem-abrigo abrigado na esperança...
"Queremos Lisboa! +Habitada +Viva +Solidária"
Esta não é uma ação de campanha. (Poderia ser, admito.)
Apenas vi. Li.
Sem indiferença.
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segunda-feira, 18 de março de 2013
Mar de palavras, melodia de fonemas…
Quando ele se acercou de mim, estávamos
em local concorrido de turistas. Jovem, alto, ar amável. Quereria alguma
informação?
Falou-me em italiano. Respondi,
com hesitação. Ensaiou nova tentativa: english?...
Reparei no seu saco cor de mar. Volumoso.
Quereria vender-me algo?
Entretanto, ele continuava em busca
da melhor forma de dizer ao que vinha, língua após língua… Percebi, já não sei dizer
em qual delas, que pretendia contar-me uma história.
“Escritor? Venderia livros?”
- Não!
E seria pouco relevante perceber
a língua - retorquiu ele, quando duvidei da minha capacidade de compreensão.
“É bem possível!” E crescia a minha curiosidade.
Perspicaz e poliglota, sem mais
demoras, o improvisado contador de histórias desfiou um mar de palavras, gesticulou brevemente, recontou, recitou de cor, por
vezes alongando o olhar para esgravatar o fundo da memória… Naveguei à bolina na sua voz.
Apreendi apenas a melodia daquele mar de fonemas.
Retive simplesmente a poesia deste encontro.
Agradeceu-me o sorriso:
seria paga bastante, mas aceitou, sobre o seu barrete vermelho entre mãos, humilde e grato, modesta paga…
Eu cruzara-me, afinal, com um jovem mercador de coisa nenhuma, que seguiu semeando e colhendo sonhos…
Foto de um outro viajante, em diverso tempo e lugar...
Nota: O mercador de coisa nenhuma, de António Torrado, é um conto para crianças de todas as idades...
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segunda-feira, 19 de março de 2012
Citação: Dia do Pai Afetivo...
« São José tinha muita pinta, e às vezes parece que certa igreja se esquece do que representa simbolicamente a Sagrada Família: uma mãe adolescente, com a coragem de enfrentar a gravidez e a educação de um filho, contra toda a má língua da vizinhança, baseada apenas na sua imensa fé em Deus (pai “biológico”) que confia a guarda de Maria e de seu filho Jesus a um pai adoptivo. E José, carpinteiro, que assume o papel de verdadeiro pai até ao fim.
2008 anos depois, não pode ser por acaso (mas, talvez passe por mais um desígnio celeste) que se celebra o dia do Pai no dia que o calendário religioso atribui a S. José. Ou seja, para todos os efeitos, no dia do Pai Afectivo. »
2008 anos depois, não pode ser por acaso (mas, talvez passe por mais um desígnio celeste) que se celebra o dia do Pai no dia que o calendário religioso atribui a S. José. Ou seja, para todos os efeitos, no dia do Pai Afectivo. »
Isabel Stillwell, Jornal DESTAK, 19 de Março de 2008
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sábado, 25 de dezembro de 2010
As palavras dos outros...
POEMA DE NATAL
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
- Mas quando será de todos?Sidónio MuralhaE, a propósito de pobres, bem como do aproveitamento político que destes se faz, convido à leitura de Pobres é o que está a dar, de Manuel António Pina: aqui.
POEMA DE NATAL
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
- Mas quando será de todos?
Sidónio Muralha
E, a propósito de pobres, bem como do aproveitamento político que destes se faz, convido à leitura de Pobres é o que está a dar, de Manuel António Pina: aqui.
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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
De Nordeste a "Oriente", porque é Natal...
A camioneta de carreira avançava, tão apressada quanto podia. Partira com significativo atraso. O limpa-neves demorara longo tempo a tornar as vias transitáveis… Só então saíra finalmente da estação o primeiro carro e entretanto todo o serviço se acumulara. Para mais, sendo época de muitos passageiros ou não fosse antevéspera de Natal.
A estrada nada fazia temer, mas o gelo que ainda se amontoava nas bermas aconselhava prudência ao motorista.
Os passageiros do Norte ignoravam, indiferentes, a paisagem. Tão pouco se deixavam surpreender pelo entusiasmo dos do Sul que, clic, clic…, não resistiam a mais uma fotografia que logo seria partilhada por telemóvel… E em breve legendavam-na, de viva voz: “Caiu tanta neve! Está tudo branco! Tão bonito!...” Tão maravilhados se sentiam que se esqueciam do desejo de chegar ao destino.
Os outros não. Na sua grande maioria, eram idosos, muito idosos. Seguiam viagem com vontade de permanecer em suas casas, junto da braseira, tranquilamente. Vinham de uma aldeia perdida na serra, já cansados de transbordos e longas esperas nas paragens, carregando sacos e saquinhos de mão, mais o saquito de viagem, uma caixa de papelão e outro saco de rede com couves da horta para a Consoada… Não fosse a insistência dos filhos bem como o desejo de estar junto deles no Natal e, seguramente, não estariam ali. Cheios de vontade e pressa de alcançar o destino, iam-se lamentando da viagem: «Eles, sim, eles é que deviam vir cá acima, como é costume… Mas não quiseram vir, as estradas estão perigosas, as crianças… Eu é que já não tenho idade para isto!...»
Neste ponto, estavam todos de acordo.
Neste ponto, estavam todos de acordo.
O Sol mal conseguira romper as densas nuvens, durante aquele curto dia de Inverno. Agora despedia-se. Intensificavam-se o cansaço e a impaciência, à medida que anoitecia. Disso eram prova as constantes espreitadelas para o relógio e o contínuo cálculo do atraso previsto que, apesar da chuva e das obrigatórias e necessárias paragens, por sorte se ia tornando cada vez mais reduzido.
Passos apressados. Vozes alegres. Dúvidas desfeitas. Lágrimas felizes. Abraços. Rodas chiando. Sacos arrastados com esforço. Ensaios para tudo caber nos porta-bagagens. Trás! Objectivo atingido, num abrir e fechar de olhos.
Despindo singelos casacos negros de malha, um a um iam entrando nos carros dos familiares que os haviam esperado e que rapidamente iam partindo.
«Chegámos!» - pensavam, felizes, quase esquecidos do cansaço.
«Chegámos!» - pensavam, felizes, quase esquecidos do cansaço.
O cais regressava por fim à calma fria. Outros passageiros chegariam mais tarde. Tudo por um convívio familiar, em mais um Natal...
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Um novo ano...
Empalidece o sol, soltam-se as folhas douradas embaladas pelo vento..., as folhas dos livros e cadernos novos sussurram pedidos de atenção...
É um novo ano lectivo que começa.
Tempo de aprender.
Numa escola para todos, sem olhar a sexo, origem social, país natal...
Universal e obrigatória.
Uma conquista do nosso tempo.
Uma aposta vital.
Quase esquecemos que nem sempre assim foi!
A velhinha escola António José Gomes, da Cova da Piedade,
de 1911, hoje transformada em museu, destinava-se exclusivamente ao sexo masculino. Haveria outra para o sexo feminino, pensarão. É verdade, mas não com esta dignidade, acanhada no 1º andar de um prédio... e destinada apenas àquelas cujos pais consideravam que valia a pena "pôr a estudar".
Ainda assim, aí estudavam muitas meninas, da 1ª à 4ª "classes", entregues à atenção constante de uma única professora, Conceição Sameiro Antunes, sem dúvida uma das precursoras heróicas da aplicação do método de ensino diferenciado...
Ter estudado abriu-lhes as portas do futuro. Reconhecemo-lo hoje, com naturalidade. Assim se foram esbatendo as diferenças de género; assim se tem construído a igualdade.
Hoje em dia, acreditamos que cada professor lecciona um único ano de escolaridade... Ilusão! Cada turma tem alunos mais e menos adiantados, mais e menos motivados, alunos estrangeiros, alguns com necessidades educativas especiais... Subgrupos muito diversos, condições adversas. Exigindo uma resposta construída de dedicação, criatividade, empenhamento... Muito esforço. Nem sempre valorizado. Nem sempre bem sucedido.
Hoje em dia, acreditamos que cada professor lecciona um único ano de escolaridade... Ilusão! Cada turma tem alunos mais e menos adiantados, mais e menos motivados, alunos estrangeiros, alguns com necessidades educativas especiais... Subgrupos muito diversos, condições adversas. Exigindo uma resposta construída de dedicação, criatividade, empenhamento... Muito esforço. Nem sempre valorizado. Nem sempre bem sucedido.
Às famílias compete um papel diferente, igualmente exigente: conciliar o seu horário profissional (mais o tempo de deslocação) com os toques de campainha das crianças, com a necessária disponibilidade para cuidar delas e as apoiar... Tarefa hercúlea. Que vale o esforço!
Afinal, é na criança que reside a chave do sucesso de aprender.
Não basta ensinar!...
O estudante precisa de reconhecer a importância do saber, dar valor ao trabalho, sentir confiança e auto-estima. Por fim, tudo será (mais) fácil...
O insucesso terá um único culpado?
A resposta chega em tom de humor (surripiado ao blogue "A malta do Montijo" http://amaltadomontijo.blogspot.com/ ):
Recorrendo à gíria escolar, é tempo de desejar - aos jovens, seus pais, professores e demais trabalhadores das escolas - um bem sucedido e FELIZ ANO NOVO!...
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Manuela Caeiro
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
«Quem inventou o mês de Agosto?!...»
Ferragudo. Agosto. Tarde de sol tórrido. Raros se atrevem a mergulhar no rio Arade. Maré cheia, águas relativamente límpidas, mas as sujas margens desaconselham o banho apetecido. Que calor!
Um beco sem saída desemboca num pontão junto à foz do rio. Em frente, o mar. Na outra margem, Portimão.
A placa é clara: trânsito proíbido, excepto a residentes. Escassos veículos ousam a transgressão. Apenas peões se permitem aí sentir a brisa do Oceano, talvez pescar... ou simplesmente sentarem-se numa das esplanadas, beber uma água fresca ou tomar uma refeição, ainda que a desoras... De facto, as convidativas mesas estão sempre postas. Em enormes grelhadores, as brasas ardem em permanência, prontas para saborosos petiscos. Quanto calor!
Nesta latitude, Agosto é sinónimo de Verão. Agosto é praia. Mar, sal e sol. Costa de braços abertos para todo um país em férias. Para os nossos emigrantes que voltam, ano a ano. E não só: também para um bom punhado de espanhóis, ingleses e demais turistas "multinacionais"...
Quem inventou Agosto povoou cada pequena baía, fazendo crescer infinitamente uma antiga aldeia de pescadores... Encheu as arribas de casas que em Agosto abrem janelas e estendem toalhas salgadas ao sol...
Quem inventou Agosto engarrafou com filas de carros cada caminho que desemboca numa praia, para alegria de quem tem de trabalhar na grande cidade, mais a norte... Não a sul.
Gente, gente, gente... Calor!...
Quem inventou Agosto treinou a paciência de quem conduz e procura estacionar um automóvel... ou a de quem aguarda pacientemente ser atendido numa qualquer fila, em pastelaria, restaurante, minimercado, farmácia ou correio... suportando o calor. A custo.
Tudo sem importância quando finalmente se estende a toalha no areal e se mergulha na praia. Frescura!...
Agosto inventado, tem vencimento extra. Saldos. Passeios. Convívio. Tempo livre. Repouso. Preguiça subsidiada. Que o calor amplia.
«Quem inventou o mês de Agosto?!» foi uma pergunta que não espelhava alegria. Pelo contrário, soava a interjeição de grande desânimo. Quem assim falava era a empregada de mesa de um daqueles restaurantes, enquanto repunha uma mesa pela enésima, digo, pela milionésima vez, naquele tórrido dia de Agosto, sentindo o cansaço de um dia, aliás, de todo um mês que nunca mais chegava ao fim.
Com a fadiga de quem trabalha para proporcionar férias a quem as pode gozar.
Talvez ela suspire hoje de alívio, agora que as auto-estradas já registaram a avalanche do regresso a casa.
Talvez a Economia tenha sido relançada, assim esperamos! Mas provavelmente tal não trará grande reflexo para as suas magras finanças...
Para a «história» ficarão o sabor a mar, as recordações e as fotografias dos veraneantes. O calendário aguardando o próximo Estio. O desejo de regressar.
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Manuela Caeiro
domingo, 19 de julho de 2009
Fantasias da Lua...
Faz hoje 40 anos que Neil Armstrong desceu da Apolo 11, pisando a Lua pela primeira vez, aí dando então "um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a Humanidade". De facto.

Assistimos pela televisão, a preto e branco...
Quem não tinha televisor, acorreu a casa de um generoso vizinho mais abonado, com posses para pagar o aparelho e a taxa mensal, ou então ao café mais próximo... ou talvez se tenha mesmo limitado a ver, incapaz de ouvir, de olhos postos numa montra de electrodomésticos com uma ou outra TV ligada, como técnica de vendas...
Um feito que fazia crescer o entusiasmo.
Grassava alguma incredulidade: «Será que foram dar a outro lado e julgam que estão na Lua?...» Dúvidas de gente de boa-fé.
Com a desconfiança própria dos homens informados que não encontram respostas para as suspeitas que teimam em desvendar, há quem ainda hoje reúna provas para defender a tese de fraude e conspiração, em que estariam envolvidos Richard Nixon, a NASA e Stanley Kubrick...
O Homem não teria chegado à Lua em 20 de Julho de 1969?!
Não creio.
Há aqueles que não escondem outro tipo de preocupações: «Os Verões já não são iguais, faz frio em vez de calor ou o inverso, chove demais ou de menos?... Desde que os homens se meteram a caminho da Lua...»
Mexeram com as nuvens e, obviamente, influenciaram a Meteorologia?!...
Também não creio.

Porém, tenho crenças.
A Lua é um satélite fiel e influente na nossa vida.
Poderá continuar a receber visitantes, exibir bandeiras, aceitar sondas e câmaras... dispensar pedaços de si que permitirão o avanço da Astronomia e da Ciência, em geral... tornar-se-á cada vez menos misteriosa para o Homem.
Contudo, conservará os seus mistérios...
Assim permanecendo cheia de encanto e magia.
A um ritmo certo, crescerá e minguará... será pródiga de luar e voltará a ocultar-se...
Sucederá ao Sol.
Manter-se-á ligada à noite, ao sonho, à inspiração.
Farta em fantasia.
Como nos habituou.
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Manuela Caeiro
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Estes pobres...
Acontece todos os dias. Fazem fila. Movem-se norteados pelo objectivo da sobrevivência. Querem passar despercebidos. Aguardam. Resignam-se a aceitar apoio, uma cama, uma refeição gratuita. São os novos pobres. Têm habilitações literárias, muitas vezes de nível superior. Um currículo experientado. Trabalharam anos a fio. Viram as suas empresas falir, os seus postos de trabalho extinguir-se, fugir o seu ganha-pão. Subitamente. Viviam condignamente, desafogadamente. Hoje, numa idade que soma anos, sentem-se capazes de tudo, incapazes para tudo. Agora, sobra tempo para deitar contas à vida. Todo o futuro é para reequacionar. Talvez a sós. Que a família não suspeite da má sorte. Com sorte, restam-lhes um magro subsídio de desemprego, poupanças a rarear... Uma baixa médica, uma esperança de reforma antecipada. Vender algo que não compraram barato, mesmo ao desbarato. É preciso viver a curto prazo. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa. A depressão ronda. É preciso resistir. Sem sucumbir. A causa é citada a cada passo: Crise. É a Crise. Sim, a crise da Economia. Uma crise que tudo justifica, sem justificação. Uma crise a nível global, mas não geral. Basta ver as gritantes desigualdades sociais: os que têm e os que não têm direito a subsídio de desemprego; as pensões irrisórias e as outras, chorudas; os salários mínimos e aqueles outros, milionários... A mais paupérrima miséria de quem ignora o que fazer para pedir socorro, a par da frenética ganância de quem tudo tem e quer cada vez mais. Não olhando a meios para atingir fins. Sem sobressaltos de consciência pela necessidade de justiça social. Indiferente a solidariedade social. São muitos os braços inertes que tanto ainda poderiam construir! Demasiada a inteligência desaproveitada! Excessiva, a energia desperdiçada! Esmagadora, esta selvática Economia. “Sempre assim foi, sempre assim será.”- dirão muitos. “Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar” – cantava uma respeitável voz resistente. Certo é que não é possível aceitarmos este caos como algo pacífico e sem remédio. Faltam oportunidades para quem ainda muito pode contribuir com as suas competências e apetências para um mundo melhor. Inventemos saídas para a Crise. Aposte-se na Educação. Na Saúde (“...um bem-estar social e mental...”, segundo a Organização Mundial de Saúde. Como estar mais de acordo?)
Aposte-se na Justiça. Recrie-se esta sociedade injusta que prescinde de alguém humana e socialmente útil, como de uma peça enferrujada e sem préstimo... colocada à margem, apenas, vá lá (o que não chega para nos tranquilizar!) com direito à sopa dos pobres...
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sábado, 2 de maio de 2009
Foi baptizado, o Tomás...
Logo para começar, tropeço no título. Baptizado ou batizado? Com "pê" ou sem ele?... Opto pela convenção anterior ao novo acordo ortográfico, com consoante muda, mas muito viva e cheia de História. Vendo bem, o acordo não entrou ainda em vigor. Infelizmente, não irá resolver a uniformidade da língua portuguesa no mundo, o que seria a sua mais-valia. Adiante.

Salto prontamente para a personagem principal: o mais novo membro da família, o Tomás. Com apenas quatro meses, reuniu em torno de si, numa bonita igrejinha de Setúbal, meia dúzia de crianças e três dezenas de familiares e amigos, todos animados para assistir ao seu baptizado.
Que ganhou ele com o seu baptismo? «Ficou livre do "pecado original", passou a ser membro da comunidade cristã e tornou-se filho de Deus, a quem, doravante, pode chamar Pai.» - esclareceu o jovem padre.
Este, realmente jovem, seguiu criteriosamente, um a um, os rituais da cerimónia do baptismo e preparou cuidadosamente o seu sermão. Foi explicando, com rigor, a razão de ser de todo o habitual cerimonial. Apimentou o discurso ao falar sobre a facilidade de se ter um filho, com afirmações ligeiras de quem carece de experiência de vida. Compreensível, lamentavelmente.
Como lhe competia, o senhor padre fez questão de tudo orientar bem como de vigiar o cumprimento de regras, na sua casa de Deus. Intransigentemente. Pregou, literalmente, vários "sermões", com a autoridade de um "magister dixit". Faltou-lhe a bonomia de quem desculpa um atraso, de quem compreende a alegria simples de um encontro há muito esperado, de quem entende o precipitado entusiasmo daquele que se instala num lugar menos próprio para captar o melhor ângulo para uma fotografia, num momento especial...
Esperar-se-ia que ele, na sua igreja, pudesse ser como um pai tolerante e compreensivo ou como um anfitrião que acolhesse simpaticamente as suas visitas. Desejar-se-ia que ele fizesse sentir ali bem todos e cada um; que fizesse crescer em alguns daqueles que raramente o visitam o desejo de lá voltar; que talvez assim aumentasse o "rebanho" cada vez mais disperso por novas igrejas, hoje sediadas em caves, garagens, antigas lojas, velhos cinemas, em espaços mais ou menos nobres, espalhados por este e por aquele mundo fora...
Porquê toda esta debandada, quando tanta gente é explorada por corruptos autodenominados "ministros de Deus"? Talvez por uma fé pouco racional, por uma esperança... Por falsas promessas, talvez... Certamente porque a sua nova igreja os acolhe, os escuta, os faz participar e sentir-se parte de uma comunidade.
Esta velha igreja (em que fui baptizada e educada), por muito que custe admitir, tem de reformular objectivos, repensar estratégias, renovar métodos; formar padres com competências sociais e humanas para novos tempos. Se quiser cativar e acolher.
O Tomás, por enquanto, mantém-se imperturbável perante a aparente carência de bondade divina de um representante de Deus na Terra.
Pachorrento e sorridente, ele aceitou cada ritual do seu baptismo com a boa disposição de um bebé saudável, alimentado e bem cuidado, criado com amor no seio de uma família feliz.
Coerente, o Tomás manteve-se sereno ao longo do agradável dia de festa que a todos proporcionou.
Quando um dia mais tarde vir as suas fotografias, só esta alegria irá ressaltar.
O resto é espuma. Não importa.
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Manuela Caeiro
terça-feira, 21 de abril de 2009
O meu tio
Um título destes, no singular, confundirá qualquer membro da minha família: são tantos tios (e principalmente, tias), «de quem irá ela falar?»...
Ainda no século XX, eram muito numerosas as famílias … A “demografia” não constava do léxico e certamente não estava na ordem do dia. O meu pai tinha cinco irmãos; a minha mãe, onze!
Nada de dúvidas: refiro-me ao meu mais novo tio paterno.
Moreno, conserva a pele tisnada do sol das muitas caminhadas diárias… Vertical, pugna intransigentemente pelos seus princípios… e é um prazer calcorrear a marginal a seu lado e ouvi-lo falar tempo sem fim, tomando posição sobre assuntos que vêm à baila ou evocando memórias. Algumas das quais em que sou protagonista, na juventude.
Com setenta e oito anos completos, desfia longas histórias de toda uma vida de estudo e trabalho, composta de tudo o que preenche qualquer vida intensamente vivida: muitas escolhas e lutas; êxitos e insucessos; “nódoas negras” e alegrias; motivos de satisfação e orgulho...
Para qualquer criança (ou mesmo pai) dos nossos dias, seria inimaginável viver tudo aquilo por que passou. Ele e várias outras crianças que moravam em lugarejos e cujos pais tiveram brio e posses para os “pôr a estudar”; que foram forçados a vencer duras provas.
«O que não nos mata faz-nos crescer» - dizem. Assim aconteceu.
Aos dez anos, o meu tio saiu da sua aldeia, da casa de família, e foi estudar para o Porto. Sozinho. Ano após ano, cada vez mais crescido e responsável, tratava do seu alojamento, das matrículas, da gestão da parca mesada, da organização do seu estudo… Uma autonomia e independência conquistada a pulso, de terra em terra. Do Porto para Lisboa. Mais tarde para Luanda. De novo, Lisboa...
Satisfeito, olha para trás, tenta um balanço e divide os seus anos em três fases: 1) “A vida activa”, onde aglutina quer a idade adulta quer a sua infância, precocemente amadurecida…; 2) “A reforma”, o período de liberdade para trabalhar no que deseja, com direito ao descanso de que necessita – um direito justo para todos, em qualquer idade, como ele afirma judiciosamente, contrariando, sorridente, o que sabe pela sua experiência e, sobretudo, pela sua formação em Economia...; 3) “A doença”…
O coração cansou-se. A doença coronária que recentemente se manifestou, acrescentou-lhe sentido à vida. Afinal, tem fim! Há que vivê-la. Bem. “Um dia de cada vez”.
Como? Sabemos. Vigiando a alimentação, mantendo hábitos saudáveis, praticando exercício físico com moderação… Mas há mais. Contando com a família. Cultivando amizades. Dando vida aos anos.
Envelhecemos quando desistimos de fazer coisas novas. Isso, não!
Somos velhos quando deixamos de sonhar.
Para o meu tio, “sonhos” são objectivos que nos levam a realizar projectos… Não importa a sua grandeza.
(Vem-me à ideia Fernando Pessoa: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.»)
"Fundamental, para nos sentirmos felizes, é aprender, planear, concretizar" - conclui.
Concordo. A felicidade está bem ao nosso alcance!
Ainda no século XX, eram muito numerosas as famílias … A “demografia” não constava do léxico e certamente não estava na ordem do dia. O meu pai tinha cinco irmãos; a minha mãe, onze!
Nada de dúvidas: refiro-me ao meu mais novo tio paterno.
Moreno, conserva a pele tisnada do sol das muitas caminhadas diárias… Vertical, pugna intransigentemente pelos seus princípios… e é um prazer calcorrear a marginal a seu lado e ouvi-lo falar tempo sem fim, tomando posição sobre assuntos que vêm à baila ou evocando memórias. Algumas das quais em que sou protagonista, na juventude.
Com setenta e oito anos completos, desfia longas histórias de toda uma vida de estudo e trabalho, composta de tudo o que preenche qualquer vida intensamente vivida: muitas escolhas e lutas; êxitos e insucessos; “nódoas negras” e alegrias; motivos de satisfação e orgulho...
Para qualquer criança (ou mesmo pai) dos nossos dias, seria inimaginável viver tudo aquilo por que passou. Ele e várias outras crianças que moravam em lugarejos e cujos pais tiveram brio e posses para os “pôr a estudar”; que foram forçados a vencer duras provas.
«O que não nos mata faz-nos crescer» - dizem. Assim aconteceu.
Aos dez anos, o meu tio saiu da sua aldeia, da casa de família, e foi estudar para o Porto. Sozinho. Ano após ano, cada vez mais crescido e responsável, tratava do seu alojamento, das matrículas, da gestão da parca mesada, da organização do seu estudo… Uma autonomia e independência conquistada a pulso, de terra em terra. Do Porto para Lisboa. Mais tarde para Luanda. De novo, Lisboa...
Satisfeito, olha para trás, tenta um balanço e divide os seus anos em três fases: 1) “A vida activa”, onde aglutina quer a idade adulta quer a sua infância, precocemente amadurecida…; 2) “A reforma”, o período de liberdade para trabalhar no que deseja, com direito ao descanso de que necessita – um direito justo para todos, em qualquer idade, como ele afirma judiciosamente, contrariando, sorridente, o que sabe pela sua experiência e, sobretudo, pela sua formação em Economia...; 3) “A doença”…
O coração cansou-se. A doença coronária que recentemente se manifestou, acrescentou-lhe sentido à vida. Afinal, tem fim! Há que vivê-la. Bem. “Um dia de cada vez”.
Como? Sabemos. Vigiando a alimentação, mantendo hábitos saudáveis, praticando exercício físico com moderação… Mas há mais. Contando com a família. Cultivando amizades. Dando vida aos anos.
Envelhecemos quando desistimos de fazer coisas novas. Isso, não!
Somos velhos quando deixamos de sonhar.
Para o meu tio, “sonhos” são objectivos que nos levam a realizar projectos… Não importa a sua grandeza.
(Vem-me à ideia Fernando Pessoa: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.»)
"Fundamental, para nos sentirmos felizes, é aprender, planear, concretizar" - conclui.
Concordo. A felicidade está bem ao nosso alcance!
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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
"As galinhas da Vovó"...
É este o meu presépio. O indispensável símbolo desta época natalícia, data em que, mais ou menos conscientemente, o mundo celebra um nascimento.
O meu presépio não é branco nem negro: é cor de terra, castanho. Cor do material simples de que é feito: o barro. Saído de mãos hábeis de um artesão que o moldou com formas estilizadas. Simples e sóbrio, como eu gosto.
Simbólico e discreto, o meu presépio não escapou aos olhos atentos do Francisco. Dois anos e meio ladinos e curiosos, parou em frente dele, no meio das suas correrias alegres pela casa fora.
Olhou, reviu num ápice os seus conhecimentos do mundo, relacionou-os e inferiu, convicto: "(...são)...as galinhas da vovó...".
Confundira as ovelhinhas... apesar destas não serem exactamente como as galinhas que vira há tempos, algures num quintal...
Perplexos, os adultos riram... e apressaram-se a aproveitar aquele momento para uma lição precisa e breve, como convinha: "não é uma capoeira: é um estábulo"... e mais isto e mais aquilo... blá-blá-blá...:
"Nasceu Jesus, muito pobrezinho, mas tinha Mãe e Pai... e animais amigos"...
São assim os olhos das crianças...
...Feliz Natal!...
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Nuvens no horizonte... da saúde!
Não conversam. Estão ali, ocasionalmente, por uma mesma razão. Preparam-se para fazer exames médicos delicados, precisamente ao que as distingue na sua condição de mulher: os seios, o útero.
Após a chamada, numa segunda sala de espera - confortável, de paredes claras e sobriamente decorada - trazem já vestida uma bata sobre o peito nu.
Mantêm uma postura serena; contudo, não conseguem disfarçar uma pontinha de ansiedade, quer ali se encontrem por uma questão de rotina ou para um exame prescrito na sequência de sintomas observados… Sobretudo estas.
Reina o silêncio. Têm ar distraído ou pensativo. Rostos sérios ou crispados. Um pé abana como conta-minutos: tic-tac, tic-tac… Uns olhos vermelhos são diques reprimindo lágrimas, prontas a despenhar-se…
As revistas mais ou menos cor-de-rosa, ao alcance da mão, dificilmente lhes captam o desejo de ler, tanto mais que vão bebendo regularmente água, adicionando mau-estar ao que já sentem…
Em breve (“Deus queira que não”), poderão confirmar diagnósticos e suspeitas. Saber o que prefeririam ignorar.
Amadureceram aprendendo a lutar pela sua emancipação; pela igualdade. São donas de casa eficientes, esposas, mães atentas, exímias malabaristas na gestão de orçamentos familiares, profissionais competentes. Com falhas previsíveis em quem pratica o “tudo-em-um”. Lutadoras. Vencedoras.
Frágeis.
Receiam, neste momento, ser vencidas por uma doença que se instalou silenciosamente, cresceu traiçoeiramente… Poderá soar o toque a reunir forças, para tentar vencer um combate desigual. Afinal esse exame momentâneo, prestes a ser feito, condicionar-lhes-á o futuro…
Haja o que houver, cabe-lhes a habitual responsabilidade de não beliscar o bem-estar e a alegria daqueles que as rodeiam: um propósito que as força à coragem.
Elas já viram rostos em capas de revista, leram reportagens; sabem que há histórias de sucesso. Para mais, ainda há esperança: pode nem ser nada!
Apenas desejam ser saudáveis. Viver. Apenas.
Como as felizardas que, em breve, ouvirão o veredicto do médico que as observar: “Está tudo bem!”.
Como eu, felizmente.
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quarta-feira, 7 de maio de 2008
Solidão & Companhia
O mundo em que vivemos, como que obedecendo ao “crescei e multiplicai-vos” (embora por vias sem expressão nos índices de natalidade…) não pára de se desenvolver, com reflexos vivos no nosso quotidiano…
Sendo, como sempre, seres eminentemente sociais, temos a família, os amigos, os colegas de trabalho...; os vizinhos do bairro…, os conhecidos…; aqueles que nos atendem no café, na loja, no banco, na repartição…; os que conhecemos numa formação… numa viagem… num encontro de pesca desportiva ou de fotógrafos… Um mundo de relações: barreira erguida contra a solidão.
Há muito que a necessidade de proximidade física - para que a amizade se faça sentir – deixou de ser um imperativo…
Já os nossos avós corriam para atender um telefonema e escutar uma familiar voz sem corpo… E, através da rádio, podiam sentir-se próximos de um locutor auditivamente presente e fisicamente distante que, ontem como hoje, os acompanhava, pronto para os distrair ou informar…
O cinema e a televisão acrescentaram-lhe a imagem, povoando cada vida de vivas companhias virtuais.
Passo a passo... tique-taque, tique-taque... chegámos à era digital. Esta em que os dedos co
nstroem pontes que nos unem... clique-clique, clique-clique..., a partir de teclados de computadores…
Selos… são agora certamente mais raros e caros, na colecção de qualquer dedicado filatelista. É ver os marcos de correio, um após outro, a serem selados e retirados de locais onde se encontravam implantados há décadas…
Viva o e-mail!
Hoje, rapidamente efectuamos uma operação matemática, sem precisar de recorrer à máquina de calcular… fazemos uma pesquisa, sem a loooooonga e penosa consulta de índices de livros apinhados em estantes… Lemos jornais digitais, obras digitalizadas… Visitamos museus e países… Escolhemos e pagamos viagens… Encomendamos vulgares produtos de mercearia... Evitamos a fila e a burocracia das Finanças, para sabermos informações ou pagar impostos… Obtemos certidões: assim a impressora o permita!... Entregamos requerimentos no “Divórcio na hora”… ou peças processuais para tribunais, no Citius. Tudo em nome de nos facilitar a vida e apressar o seu ritmo…
Viva o Google!
De olhos presos num ecrã, alcançamos todos os sítios, sem sair do lugar…
Confinamo-nos, durante horas, a uma sala, quantas vezes isolados e sem nos sentirmos sós…
Porque a WEB, hoje, possibilita-nos criar redes sociais e interagir… O mundo de cada um pode tornar-se infinitamente mais vasto…
Proliferam blogues… sítios como o Flickr… a rádio social last.fm… o hi-5… inúmeros portais para diversos públicos-alvo; simples questão de interesses e escolha…
Vivemos na era do voyeurismo invertido, dizem. Somos nós que nos damos a ver: com fotografia ou avatar, nome verdadeiro ou pseudónimo (mais ou menos criativo), construímos uma identidade, com a qual fazemos amigos. Anonimato e familiaridade.
Dizem também que comentar e ser comentado provoca stress, causa dependência.
Não necessariamente, digo eu. Usar as tecnologias que, por sorte, estão agora à nossa disposição (e que não cessarão de evoluir) só pode trazer efeitos positivos: assim as usemos com sageza. Circular num ambiente digital, onde acabamos por integrar um grupo social, tão restrito quanto alargado, tão próximo quanto distante, não exige passar a ter um dia-a-dia virtual. Do mesmo modo que beber um café ou um copo de vinho não nos torna dependentes… e usar um cartão de crédito nos não endivida…
Fruir da nossa liberdade implica fazer opções. Reflectir, decidir. Saber viver cada experiência com conta, peso e medida...
Um equilíbrio que desejo manter, ao esperar pelo comentário da Teresa, da Elsa, da Ana, da Fernanda, da Judite, do José ou do António..., no meu blogue…; do Antonimus, do Marco Osório, da Luísa, da Margarida, da Lara ou da Aquaviva… ou do Aurelio, da Boram e da Kitty… (amigos da Grande Lisboa, do Porto e de vários continentes…) - no Flickr… Amigos estes (mais aqueles que não citei) desconhecidos-conhecidos que - tão imprescindíveis como os amigos de carne, osso.. e coração... - fazem parte de mim e me acompanham, ensinam, estimulam, fazem crescer… sentir realizada, feliz!...
Companhia. Sem solidão.
Sendo, como sempre, seres eminentemente sociais, temos a família, os amigos, os colegas de trabalho...; os vizinhos do bairro…, os conhecidos…; aqueles que nos atendem no café, na loja, no banco, na repartição…; os que conhecemos numa formação… numa viagem… num encontro de pesca desportiva ou de fotógrafos… Um mundo de relações: barreira erguida contra a solidão.
Há muito que a necessidade de proximidade física - para que a amizade se faça sentir – deixou de ser um imperativo…
Já os nossos avós corriam para atender um telefonema e escutar uma familiar voz sem corpo… E, através da rádio, podiam sentir-se próximos de um locutor auditivamente presente e fisicamente distante que, ontem como hoje, os acompanhava, pronto para os distrair ou informar…
O cinema e a televisão acrescentaram-lhe a imagem, povoando cada vida de vivas companhias virtuais.
Passo a passo... tique-taque, tique-taque... chegámos à era digital. Esta em que os dedos co
Selos… são agora certamente mais raros e caros, na colecção de qualquer dedicado filatelista. É ver os marcos de correio, um após outro, a serem selados e retirados de locais onde se encontravam implantados há décadas…
Viva o e-mail!
Hoje, rapidamente efectuamos uma operação matemática, sem precisar de recorrer à máquina de calcular… fazemos uma pesquisa, sem a loooooonga e penosa consulta de índices de livros apinhados em estantes… Lemos jornais digitais, obras digitalizadas… Visitamos museus e países… Escolhemos e pagamos viagens… Encomendamos vulgares produtos de mercearia... Evitamos a fila e a burocracia das Finanças, para sabermos informações ou pagar impostos… Obtemos certidões: assim a impressora o permita!... Entregamos requerimentos no “Divórcio na hora”… ou peças processuais para tribunais, no Citius. Tudo em nome de nos facilitar a vida e apressar o seu ritmo…
Viva o Google!
Confinamo-nos, durante horas, a uma sala, quantas vezes isolados e sem nos sentirmos sós…
Porque a WEB, hoje, possibilita-nos criar redes sociais e interagir… O mundo de cada um pode tornar-se infinitamente mais vasto…
Proliferam blogues… sítios como o Flickr… a rádio social last.fm… o hi-5… inúmeros portais para diversos públicos-alvo; simples questão de interesses e escolha…
Vivemos na era do voyeurismo invertido, dizem. Somos nós que nos damos a ver: com fotografia ou avatar, nome verdadeiro ou pseudónimo (mais ou menos criativo), construímos uma identidade, com a qual fazemos amigos. Anonimato e familiaridade.
Dizem também que comentar e ser comentado provoca stress, causa dependência.
Não necessariamente, digo eu. Usar as tecnologias que, por sorte, estão agora à nossa disposição (e que não cessarão de evoluir) só pode trazer efeitos positivos: assim as usemos com sageza. Circular num ambiente digital, onde acabamos por integrar um grupo social, tão restrito quanto alargado, tão próximo quanto distante, não exige passar a ter um dia-a-dia virtual. Do mesmo modo que beber um café ou um copo de vinho não nos torna dependentes… e usar um cartão de crédito nos não endivida…
Fruir da nossa liberdade implica fazer opções. Reflectir, decidir. Saber viver cada experiência com conta, peso e medida...
Um equilíbrio que desejo manter, ao esperar pelo comentário da Teresa, da Elsa, da Ana, da Fernanda, da Judite, do José ou do António..., no meu blogue…; do Antonimus, do Marco Osório, da Luísa, da Margarida, da Lara ou da Aquaviva… ou do Aurelio, da Boram e da Kitty… (amigos da Grande Lisboa, do Porto e de vários continentes…) - no Flickr… Amigos estes (mais aqueles que não citei) desconhecidos-conhecidos que - tão imprescindíveis como os amigos de carne, osso.. e coração... - fazem parte de mim e me acompanham, ensinam, estimulam, fazem crescer… sentir realizada, feliz!...
Companhia. Sem solidão.
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Manuela Caeiro
sábado, 12 de abril de 2008
Uma nova entrada para a EB 2.3 Comandante Conceição e Silva
A minha última "croniqueta" teve fins didácticos... Postei-a no blogue da "minha" biblioteca.
Se me quiserem ler...
...sigam o link:
http://bibliotecaxcompanhia.blogspot.com/2008/04/uma-nova-entrada-para-escola.html
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Manuela Caeiro
sexta-feira, 28 de março de 2008
À chegada, emoções em desfile...
É nas alturas de festa que a solidão mais pesa…
É para estas ocasiões que se programam uns dias de férias. E que mais se viaja. Quer pela ânsia de uma fuga à rotina, gozando alguns dias de descanso, retemperadores de energia. Quer buscando companhia de familiares e amigos distantes. Talvez por ambas as razões, num “2 em 1” voluntário, consciente… Por desejo, por tradição.
E então é ver as intermináveis filas de veículos nos acessos às auto-estradas rumando a norte e a sul; o tráfego intenso nos terminais de autocarros, onde o afluxo de passageiros conduz à lufa-lufa de desdobramentos contínuos de carreiras e ao corre-corre de quem pretende localizar o número do seu autocarro e respectiva linha; a idêntica canseira nas estações de caminhos-de-ferro, lendo placas informativas, correndo à procura da plataforma e da carruagem certa, no meio daquele longo comboio tão cheiinho delas e que não espera por ninguém…
Idêntico é o corropio, nos aeroportos. Aí se assiste à permanente e sucessiva chegada de passageiros, carregados de malas, prontos para embarcar - conformados em sujeitar-se, depois de tantos e tão cansativos preparativos de viagem, a um check in obsessivo e sem sentido, em nome do temor do terrorismo..., como se este não tivesse que ser, por natureza, inesperado e criativo, para apanhar todos desprevenidos, a cada nova investida!...
Do outro lado, nas chegadas, aglomera-se uma multidão que espera, impaciente, familiares ou amigos, prontos para o abraço e o convívio. Tardam.
O desfile de gente que desembarca é permanente. Os olhos lançam-se ao desafio de identificar, pela forma de vestir, pelo colorido das roupas e do tom de pele, pela língua que falam, o país de onde virão, o voo de que terão desembarcado… Tarefa muito dificultada, neste nosso mundo global e cosmopolita. Onde ninguém é “ateniense nem grego” e cada um é, por direito próprio, cidadão do mundo!
Os olhos de quem espera lançam-se à aventura de identificar o pai, o filho, a avó, o neto, a namorada, o amigo…, mal este transponha aquela larga porta, precedido do carrinho das bagagens, talvez, desta vez, com um traje mais formal ou, pelo contrário, com o habitual boné do Sporting e umas “havaianas” nos pés…
A vida desfila num aeroporto, carregada de emoção… Exibe-nos profissionais ou estudantes, sonhando férias… turistas com ânsia de sol e de deleite-de-ver-mundo... Conta-nos histórias de aventura, de ausência, de saudade, de amizade e amor…
A criança trepa o corrimão, corre para o pai, salta-lhe para o colo em que se aninha, preso ao seu pescoço, assim descendo a rampa, enquanto a mãe, a esposa, corre ao encontro de ambos, na outra extremidade…
A neta, mais crescida desde a última despedida, foi prontamente reconhecida… Mais fácil foi para ela reconhecê-los (eles estão iguaizinhos!)… Saltou prontamente para o solo, galgando o corrimão, e abraçou-os longamente… Consolava, no seu português com sotaque, a sua avó que, não conseguindo estancar as grossas lágrimas, limpava-as com um largo sorriso escancarado no rosto…
Um casal de turistas procura atentamente o seu nome, escrito numa placa… Um porto seguro…
Ouve-se um grito de alegria, num nome pronunciado à distância… Acena-se. Estendem-se braços para os quais alguém corre prontamente…
O filho vem de férias, finalmente. Os seus melhores amigos fizeram questão de estar presentes e empunham uma mensagem: “Bem-vindo a casa, Francisco!”… Depois de largar as malas e de saborear longamente, com os pais, a saudosa refeição (já preparada), os jovens irão divertir-se juntos... Que saudades de Lisboa!...
Os escuteiros vinham fardados, animados. A meio da rampa, fizeram ouvir a sua voz em uníssono, fazendo-se anunciar num hino solidário que ecoou fortemente naquele enorme salão…
O velho casal chega de férias… E lá está a família, feliz, à sua espera. Os presentes vêm na mala!... A alegria do reencontro com os avós é genuína, desinteressada... Mas que a prendinha é esperada, quem duvida?...
Descem olhos ansiosos, em activa busca de alguém que ainda não avistaram: talvez ele se tenha atrasado… talvez só o conheça ainda virtualmente… O momento é de intensa expectativa...
Lá ao fundo, aquele jovem casal reencontra-se e funde-se num prolongado beijo apaixonado… O carro das bagagens gira abandonado, seguindo por instantes um movimento de inércia, em perfeita liberdade...
Há também aqueles que ninguém espera. Turistas, quase todos. Mesmo quando disfarçam a intenção de permanecer, para além do tempo permitido pelo seu visto e data de viagem de regresso, dispostos a lançar-se numa aventura clandestina.
Mas é também o caso daquele outro que viaja em serviço, por rotina. Traz a sua malinha com rodas, apanha um táxi e segue, confiante e livre…
Em contrapartida, há os turistas cujos amigos os esperam. Turistas recorrentes que voltam ao mesmo sítio a que muitos laços afectivos os ligam.
É o caso dos Ericsson, Nystrom e Jarl que, há mais de vinte anos, regressam a Portugal, anualmente, para quatro ou cinco intensos dias de sol, mar, sabores, repouso em contínuo movimento e vivência da amizade.
As emoções vibram a cada passageiro que chega, a cada minuto que passa… e corporizam-se num arrepio que percorre a espinha do espectador atento… Comovi-me, com frequência! Absorta a observar, sem o impulso de fotografar, apertando a máquina entre as mãos.
Sem emoção, não há vida.
E a vida é clara e emocionalmente vivida, nas “chegadas” de um aeroporto!
É para estas ocasiões que se programam uns dias de férias. E que mais se viaja. Quer pela ânsia de uma fuga à rotina, gozando alguns dias de descanso, retemperadores de energia. Quer buscando companhia de familiares e amigos distantes. Talvez por ambas as razões, num “2 em 1” voluntário, consciente… Por desejo, por tradição.
Idêntico é o corropio, nos aeroportos. Aí se assiste à permanente e sucessiva chegada de passageiros, carregados de malas, prontos para embarcar - conformados em sujeitar-se, depois de tantos e tão cansativos preparativos de viagem, a um check in obsessivo e sem sentido, em nome do temor do terrorismo..., como se este não tivesse que ser, por natureza, inesperado e criativo, para apanhar todos desprevenidos, a cada nova investida!...
Do outro lado, nas chegadas, aglomera-se uma multidão que espera, impaciente, familiares ou amigos, prontos para o abraço e o convívio. Tardam.
O desfile de gente que desembarca é permanente. Os olhos lançam-se ao desafio de identificar, pela forma de vestir, pelo colorido das roupas e do tom de pele, pela língua que falam, o país de onde virão, o voo de que terão desembarcado… Tarefa muito dificultada, neste nosso mundo global e cosmopolita. Onde ninguém é “ateniense nem grego” e cada um é, por direito próprio, cidadão do mundo!
Os olhos de quem espera lançam-se à aventura de identificar o pai, o filho, a avó, o neto, a namorada, o amigo…, mal este transponha aquela larga porta, precedido do carrinho das bagagens, talvez, desta vez, com um traje mais formal ou, pelo contrário, com o habitual boné do Sporting e umas “havaianas” nos pés…
A vida desfila num aeroporto, carregada de emoção… Exibe-nos profissionais ou estudantes, sonhando férias… turistas com ânsia de sol e de deleite-de-ver-mundo... Conta-nos histórias de aventura, de ausência, de saudade, de amizade e amor…
A criança trepa o corrimão, corre para o pai, salta-lhe para o colo em que se aninha, preso ao seu pescoço, assim descendo a rampa, enquanto a mãe, a esposa, corre ao encontro de ambos, na outra extremidade…
A neta, mais crescida desde a última despedida, foi prontamente reconhecida… Mais fácil foi para ela reconhecê-los (eles estão iguaizinhos!)… Saltou prontamente para o solo, galgando o corrimão, e abraçou-os longamente… Consolava, no seu português com sotaque, a sua avó que, não conseguindo estancar as grossas lágrimas, limpava-as com um largo sorriso escancarado no rosto…
Um casal de turistas procura atentamente o seu nome, escrito numa placa… Um porto seguro…
Ouve-se um grito de alegria, num nome pronunciado à distância… Acena-se. Estendem-se braços para os quais alguém corre prontamente…
O filho vem de férias, finalmente. Os seus melhores amigos fizeram questão de estar presentes e empunham uma mensagem: “Bem-vindo a casa, Francisco!”… Depois de largar as malas e de saborear longamente, com os pais, a saudosa refeição (já preparada), os jovens irão divertir-se juntos... Que saudades de Lisboa!...
Os escuteiros vinham fardados, animados. A meio da rampa, fizeram ouvir a sua voz em uníssono, fazendo-se anunciar num hino solidário que ecoou fortemente naquele enorme salão…
O velho casal chega de férias… E lá está a família, feliz, à sua espera. Os presentes vêm na mala!... A alegria do reencontro com os avós é genuína, desinteressada... Mas que a prendinha é esperada, quem duvida?...
Descem olhos ansiosos, em activa busca de alguém que ainda não avistaram: talvez ele se tenha atrasado… talvez só o conheça ainda virtualmente… O momento é de intensa expectativa...
Lá ao fundo, aquele jovem casal reencontra-se e funde-se num prolongado beijo apaixonado… O carro das bagagens gira abandonado, seguindo por instantes um movimento de inércia, em perfeita liberdade...
Há também aqueles que ninguém espera. Turistas, quase todos. Mesmo quando disfarçam a intenção de permanecer, para além do tempo permitido pelo seu visto e data de viagem de regresso, dispostos a lançar-se numa aventura clandestina.
Mas é também o caso daquele outro que viaja em serviço, por rotina. Traz a sua malinha com rodas, apanha um táxi e segue, confiante e livre…
Em contrapartida, há os turistas cujos amigos os esperam. Turistas recorrentes que voltam ao mesmo sítio a que muitos laços afectivos os ligam.
É o caso dos Ericsson, Nystrom e Jarl que, há mais de vinte anos, regressam a Portugal, anualmente, para quatro ou cinco intensos dias de sol, mar, sabores, repouso em contínuo movimento e vivência da amizade.
As emoções vibram a cada passageiro que chega, a cada minuto que passa… e corporizam-se num arrepio que percorre a espinha do espectador atento… Comovi-me, com frequência! Absorta a observar, sem o impulso de fotografar, apertando a máquina entre as mãos.
Sem emoção, não há vida.
E a vida é clara e emocionalmente vivida, nas “chegadas” de um aeroporto!
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Amores perfeitos
Existirão amores perfeitos?
Sonhadores sequiosos de felicidade, temos essa aspiração enraizada dentro de nós.
A multifacetada realidade nem o confirma nem o desmente...
Os vizinhos de cima divorciaram-se. Quem diria? Tão novos! E pareciam tão felizes!...
Os vizinhos do lado, casados de longa data, certamente nunca pensaram separar-se. Vivem numa partilhada rezinguice crónica que lhes preenche o quotidiano, fazendo-os sentir-se vivos e acompanhados. Pior seria a solidão, acreditam.
O vizinho do 1º, suspeito eu, não pensou assim. O casal mudou-se para cá há pouco. Nada sabemos do seu passado, excepto o que é observável à primeira vista: os cabelos grisalhos dele contrastam com a juventude dela...

O adolescente do 3º, há meses a fio, é visto com a mesma amiga. Descontraídos, andam de mãos dadas, conversam sobre tudo ou nada, olham-se nos olhos, trocam carícias...; ingenuamente, confiam que o seu amor durará para sempre... Ilusão? Ou não?...
O viúvo continua só. Circunstância?... Opção?... Terá conhecido alguém-algures...?... Real? Virtual...?... Quererá, algum dia, que esse alguém invada o espaço privado da sua vida?... Aceitará prescindir da independência e da liberdade que hoje tanto preza?...
Naqueles dias em que seguramente estará só - nos dias de festa, aos domingos, nas férias de Verão... -, a vizinha solitária do prédio em frente planifica e gere o seu tempo em liberdade. Vai ao cinema, visita a família, sai com amigos.
Nos outros dias, espera... Será ele quem agendará o desejado encontro - quando puder, quando quiser. Ela espera sem remorso: ele contou-lhe que não é feliz! E acalenta uma esperança: um dia, terão mais tempo para si...
No bairro, ela ignora alguns masculinos olhares cobiçosos e outros tantos vigilantes olhares femininos...
Aquele correspondente holandês que exibia orgulhosamente a sua aliança, revelando simultaneamente que era casado com um português - o vizinho do rés-do-chão, imigrante no seu país - deixou de escrever. Trabalho em excesso?... Ou terá perdido a motivação para saber mais português e praticar a língua escrita?... Continuarão unidos, felizes?... Um dia o saberemos...
Haverá amores perfeitos!?
De certeza! Acreditamos que sim!
Pelo menos enquanto durarem... e forem sentidos como perfeitos.
E afinal todos sabemos que há mesmo amores-perfeitos.
Ou tinham-se esquecido?...
Sonhadores sequiosos de felicidade, temos essa aspiração enraizada dentro de nós.
A multifacetada realidade nem o confirma nem o desmente...
Os vizinhos de cima divorciaram-se. Quem diria? Tão novos! E pareciam tão felizes!...
O vizinho do 1º, suspeito eu, não pensou assim. O casal mudou-se para cá há pouco. Nada sabemos do seu passado, excepto o que é observável à primeira vista: os cabelos grisalhos dele contrastam com a juventude dela...

O adolescente do 3º, há meses a fio, é visto com a mesma amiga. Descontraídos, andam de mãos dadas, conversam sobre tudo ou nada, olham-se nos olhos, trocam carícias...; ingenuamente, confiam que o seu amor durará para sempre... Ilusão? Ou não?...
O viúvo continua só. Circunstância?... Opção?... Terá conhecido alguém-algures...?... Real? Virtual...?... Quererá, algum dia, que esse alguém invada o espaço privado da sua vida?... Aceitará prescindir da independência e da liberdade que hoje tanto preza?...
Naqueles dias em que seguramente estará só - nos dias de festa, aos domingos, nas férias de Verão... -, a vizinha solitária do prédio em frente planifica e gere o seu tempo em liberdade. Vai ao cinema, visita a família, sai com amigos.
Nos outros dias, espera... Será ele quem agendará o desejado encontro - quando puder, quando quiser. Ela espera sem remorso: ele contou-lhe que não é feliz! E acalenta uma esperança: um dia, terão mais tempo para si...
No bairro, ela ignora alguns masculinos olhares cobiçosos e outros tantos vigilantes olhares femininos...
Aquele correspondente holandês que exibia orgulhosamente a sua aliança, revelando simultaneamente que era casado com um português - o vizinho do rés-do-chão, imigrante no seu país - deixou de escrever. Trabalho em excesso?... Ou terá perdido a motivação para saber mais português e praticar a língua escrita?... Continuarão unidos, felizes?... Um dia o saberemos...
Haverá amores perfeitos!?
De certeza! Acreditamos que sim!
Pelo menos enquanto durarem... e forem sentidos como perfeitos.
E afinal todos sabemos que há mesmo amores-perfeitos.Ou tinham-se esquecido?...
Dedico este par de amores-perfeitos a todos aqueles que acreditam... E também aos outros!
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Manuela Caeiro
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