Mostrar mensagens com a etiqueta acordo ortográfico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta acordo ortográfico. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de março de 2012

Nós e as palavras...

Muito falamos, hoje em dia, de defesa da língua, pensando sobretudo em grafia, enquanto permanece viva a polémica em torno do Acordo Ortográfico.
A língua, porém, é muito mais do que isso! É sintaxe, é léxico, é fonética... É música - que nos acompanha desde o colo, que aprendemos a reproduzir, que partilhamos com quem nos rodeia, e com a qual aprendemos a comunicar.
A grafia, essa, é convenção social. Bem penosa de aprender... "Ou escreves assim ou cometes um erro" - disseram-nos (disse eu), anos a fio. De repente, subvertem-nos as regras. Penosas de aprender.
Como resistir à estranheza de uma nova imagem gráfica das velhas amigas palavras, aparentemente para nos confundir?... Inevitável, a celeuma.
Confio nos linguistas que, fundamentadamente, assumiram a mudança. Há duas décadas!... Cientes das razões, das necessidades e não menos das implicações e dificuldades. Apesar de tudo isso!
Malaca Casteleiro integrou essa equipa. Foi meu professor. Reconheço-lhe competência e seriedade. Insufla-me confiança.
Assim venço eu a minha resistência. Indiferente a quem se serve do cargo que ocupa para exercer pressão, contrariar legislação...
Duas décadas volvidas, passou, creio eu, o tempo de estudar, debater, decidir..., avaliar questões legais e processuais.
O Acordo Ortográfico chegou às escolas, em setembro. 
É tempo de o aplicar.
Em paz.


José Gomes Ferreira, escritor de outras eras, apontou preocupações diversas: o léxico, esse sim. 
Partilho um divertido excerto de Gavetas das nuvens.

« - O Sr. já reparou bem num dicionário?... Num dicionário qualquer?...  No de Morais, por exemplo... ou no do povo... (Tanto faz!...) Já reparou?... Pois a mim faz-me lembrar, sabe o quê?... Um jazigo de família, ou melhor, um jazigo da nação. Uma espécie de mausoléu de papel, onde gerações de gatos-pingados empilharam séculos  e séculos de palavras.  Algumas já definitivamente mortas, cobertas de bichos e de coroas saudosas.  Outras quase a morrer... E muitas, apenas adormecidas, à espera de um toque de dedos para regressarem à vida diária... onde utilizamos ao todo quantas palavras vivas - diga-me lá quantas? Quinhentas?... Mil?... Nem tantas talvez! Garanto-lhe que, em certos dias, quando subo ao Chiado... ou entro num café da Baixa... e ouço essa gente parda a repisar, de manhã até à noite, os mesmos termos, as eternas expressões... os substantivos inevitáveis... os adjetivos fatais... e o verbo ser, o verbo haver, e o verbo ter, e o verbo fazer... sabe o que me apetece? Saltar para cima de uma mesa ou de um marco postal e gritar furioso aos homens: não deixem morrer as palavras, assassinos! Não deixem morrer as palavras! E algumas são tão bonitas!... "Ardimento", por exemplo... Como é que os portugueses puderam esquecer-se desta palavra tão jovem, tão quente, tão expressiva e teimam em usar "coragem" e "entusiasmo"? E "solerte"? Conhece? Agora já ninguém diz solerte! Porquê? Sim: porquê? "Fulano é solerte?" E "ardiloso"? E "roaz"? E "impérvio"?... E "estólido"? Ouça: e se eu lhe chamasse estólido, gostava? Seu estólido!... »


Glossário:
ardiloso - astucioso, manhoso
estólido - desprovido de inteligência, parvo, tolo, insensato
impérvio - intransitável, impenetrável, inacessível, insensível
roaz - roedor, destruidor
solerte - finório, astuto, velhaco


Sugestão de leitura: Acordo Ortográfico
Imagens - da NET.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Postagem escrita segundo o acordo ortográfico de 1990...


Embora mal amado, está em vigor o novo Acordo Ortográfico, agora por um período de transição até 2012, sem adiamento de prazo. Os jornais adotaram-no e já comprei livros que trazem a chancela “texto segundo o Acordo Ortográfico de 1990 (Diário da República nº 193, Série I-A, páginas 4370 a 4388)”. Nas escolas, ditará a grafia a partir de 2011/2012. É desta!
Não é meu hábito resistir teimosamente às mudanças e chegou finalmente a minha vez de ser proativa, tarde e a más horas. Precisei de um impulso como este, do tipo “Ano Novo, vida nova”…
Eu sei que a ortografia é uma convenção social; que a língua escrita sempre sofreu alterações, que está novamente em processo de mudança e não será a última vez.
Sei que há bons linguistas e gramáticos no Brasil e que muitos leitores de Português, espalhados pelo mundo inteiro, são brasileiros ou de outros países da CPLP, além de portugueses. Por que razão se há de aprender a escrever a nossa língua de maneira diferente, em duas salas de aula contíguas?
Uniformizar a língua escrita é um bom objetivo. Por isso, pelo contrário, me custa aceitar a inclusão de tantas exceções, no texto do Acordo… 
De que nos servem as consoantes mudas, algumas das quais resistem sem que as pronunciemos? A sua abolição aliviará muitos aprendizes de Português e nenhum Romano se virá insurgir contra o nosso desrespeito pelo étimo latino…
Camões e Pessoa regeram-se por normas ortográficas diversas.
Em vinte anos decorridos desde a assinatura deste último Acordo Ortográfico, assisti a polémicas (tanto em Portugal como nos outros países de expressão portuguesa), furtei-me a abaixo-assinados… Fiquei na expetativa. Basta.
Calha bem: estamos em janeiro… É já.

(Apenas 7 alterações, em todo este texto?!...)

Eis o que muda: 

Buscando um conversor fiável e gratuito para a nova ortografia:


A não perder: 
uma crónica do Jornal das Letras, aqui

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Língua Portuguesa e Fernando Pessoa...

«A minha pátria é a língua portuguesa» é afirmação, sobejamente conhecida, de Fernando Pessoa; descontextualizada, obviamente.
Estive há dias no II Congresso da Língua Portuguesa, realizado ao longo de dois intensos dias, no Instituto Piaget de Almada
Vindos dos quatro cantos do Mundo da Lusofonia, escritores, jornalistas, sociólogos, cientistas, professores, políticos, economistas... integraram os diversos painéis em que se debateu a diversidade e universalismo da língua, a sua difusão nos media e no ciberespaço, o seu uso nos grandes espaços linguísticos e económicos, especificando-se o seu valor económico, o seu peso na Ciência e na Literatura, os seus poetas, o seu ensino... venturas e desventuras. E o acordo ortográfico foi repetidamente citado, a talho de foice, ora contra ora a favor, evidenciando-se que este se vai tornando mais consensual. 

Eis o texto de Fernando Pessoa de onde foi extraída aquela citação (com referência ao Padre António Vieira), tal como Pessoa o escreveu, respeitando as regras ortográficas do seu tempo - diferenças que não afectam a nossa compreensão.
(Faz hoje 75 anos sobre a sua morte.) 
"Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa que me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palacio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes - tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é - não - a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d'aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."

sábado, 2 de maio de 2009

Foi baptizado, o Tomás...

Logo para começar, tropeço no título. Baptizado ou batizado? Com "pê" ou sem ele?... Opto pela convenção anterior ao novo acordo ortográfico, com consoante muda, mas muito viva e cheia de História. Vendo bem, o acordo não entrou ainda em vigor. Infelizmente, não irá resolver a uniformidade da língua portuguesa no mundo, o que seria a sua mais-valia. Adiante.


Salto prontamente para a personagem principal: o mais novo membro da família, o Tomás. Com apenas quatro meses, reuniu em torno de si, numa bonita igrejinha de Setúbal, meia dúzia de crianças e três dezenas de familiares e amigos, todos animados para assistir ao seu baptizado.

Que ganhou ele com o seu baptismo? «Ficou livre do "pecado original", passou a ser membro da comunidade cristã e tornou-se filho de Deus, a quem, doravante, pode chamar Pai.» - esclareceu o jovem padre.

Este, realmente jovem, seguiu criteriosamente, um a um, os rituais da cerimónia do baptismo e preparou cuidadosamente o seu sermão. Foi explicando, com rigor, a razão de ser de todo o habitual cerimonial. Apimentou o discurso ao falar sobre a facilidade de se ter um filho, com afirmações ligeiras de quem carece de experiência de vida. Compreensível, lamentavelmente.

Como lhe competia, o senhor padre fez questão de tudo orientar bem como de vigiar o cumprimento de regras, na sua casa de Deus. Intransigentemente. Pregou, literalmente, vários "sermões", com a autoridade de um "magister dixit". Faltou-lhe a bonomia de quem desculpa um atraso, de quem compreende a alegria simples de um encontro há muito esperado, de quem entende o precipitado entusiasmo daquele que se instala num lugar menos próprio para captar o melhor ângulo para uma fotografia, num momento especial...

Esperar-se-ia que ele, na sua igreja, pudesse ser como um pai tolerante e compreensivo ou como um anfitrião que acolhesse simpaticamente as suas visitas. Desejar-se-ia que ele fizesse sentir ali bem todos e cada um; que fizesse crescer em alguns daqueles que raramente o visitam o desejo de lá voltar; que talvez assim aumentasse o "rebanho" cada vez mais disperso por novas igrejas, hoje sediadas em caves, garagens, antigas lojas, velhos cinemas, em espaços mais ou menos nobres, espalhados por este e por aquele mundo fora...

Porquê toda esta debandada, quando tanta gente é explorada por corruptos autodenominados "ministros de Deus"? Talvez por uma fé pouco racional, por uma esperança... Por falsas promessas, talvez... Certamente porque a sua nova igreja os acolhe, os escuta, os faz participar e sentir-se parte de uma comunidade.

Esta velha igreja (em que fui baptizada e educada), por muito que custe admitir, tem de reformular objectivos, repensar estratégias, renovar métodos; formar padres com competências sociais e humanas para novos tempos. Se quiser cativar e acolher.

O Tomás, por enquanto, mantém-se imperturbável perante a aparente carência de bondade divina de um representante de Deus na Terra.

Pachorrento e sorridente, ele aceitou cada ritual do seu baptismo com a boa disposição de um bebé saudável, alimentado e bem cuidado, criado com amor no seio de uma família feliz.

Coerente, o Tomás manteve-se sereno ao longo do agradável dia de festa que a todos proporcionou.
Quando um dia mais tarde vir as suas fotografias, só esta alegria irá ressaltar.
O resto é espuma. Não importa.