sábado, 2 de maio de 2009

Momento de poesia: «Poema à mãe»

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.


Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.


Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.


Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.


Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.


Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.


Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,

E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!


Olha - queres ouvir-me?
-Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;


Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;


Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...


Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.


Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.


Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade



Podemos ouvir este poema, lido por Nuno Miguel Henriques:

3 comentários:

Francisquinho disse...

Ola Mae, :)

(desculpa os erros de acentuacao mas estou a usar o telemovel!)

Quem diria que de tao longe eu iria ler o teu blogue? Mas se vim ca por causa do texto do "nosso" Tomas, nao consegui evitar uma lagrima no canto do olho ao ler este poema. E de facto lindo e imaginei-me a ver-te le-lo.

Imaginei-te na sala de aula, na estrado, por algum motivo a imagem que me vem a cabeca imagina-te sentada na secretaria (que belo exemplo!) a olhar os alunos e a ler. Com a tua voz carinhosa, com a entoacao que so tu consegues dar a um poema, com as tuas sempre vivas expressoes faciais e aquele sorriso a que uma vida de experiencias umas doces e outras tantas amargas, nao conseguiu retirar uma ponta da alegria de menina que dele sempre sobressai.

Os alunos ouviram atentamente, na realidade ficaram tao absorvidos que quando acabaste todos eles, incluindo eu, ficaram em silencio, pensando em todas as palavras e no seu sentido juntas. E ninguem comentou. Alguns, entendendo um pouco melhor o sentimento do poeta, esboçaram, como eu, uma lagrima.

E a contemplar como tocaste os alunos, sentada na secretaria, deixaste de ser professora e passaste a ser mae e mais uma vez leste o poema...

Muitos beijos,

Francisco Guilherme

Manuela Caeiro disse...

Ser vista assim por alguém... ser assim retratada por um filho... também me comoveu...
Bem-hajas, Francisco!
Fazes-me sentir que vale(u) a pena viver!...
E, apesar de teres "partido com as aves" (tal como o sujeito poético)... não penses que "traíste"... Sei bem que "conservas as rosas"... e as distribuis agora ao teu Francisquinho. Segue o teu caminho! Sinto enorme orgulho!...

Isabel loves design disse...

Lindo e emocionante para quem já não tem mãe mais ainda...

...Bem, só agora li o dialogo lindíssimo entre vos e sinto-me uma intrusa, mas e lindo presenciar. Agora e que derramei as lagrimas a serio. Que bom se ter filhos carinhosos.
Felicidades.