domingo, 17 de agosto de 2008

Evasão e alma nova

Na caixa do correio do 6º andar, como em tantas outras do mesmo prédio e da cidade, para além de uma ou outra carta com as habituais facturas mensais, o carteiro depositou, naquele dia de Julho, um largo envelope do Banco, contendo um mapa de Portugal. Uma oferta.
Uma vez desdobrado, aquele mapa exibia o país recortado por estradas multicores, de norte a sul, de leste a oeste, recordando percursos já visitados ou sugerindo outros há muito por acontecer. Um autêntico convite. Um desafio.
“-E se...?” - a ideia surgiu-lhe.
Não fizera planos de férias. Usar o cartão de crédito para fazer uma viagem, após alguns recentes gastos inesperados, estava completamente fora de questão. Decidira que passaria umas férias pacatas e económicas. Era ponto assente.
“Uma voltinha, aventurando-me sem programa nem destino certo...” - e a sua ideia foi tomando forma.
Os preparativos não tomaram muito tempo. Meteu no porta-bagagens a tendinha de dois lugares (fácil de montar e desmontar por uma pessoa só), o saco-cama, uma almofada, uma corda que fixaria entre duas árvores, para poder estender a toalha molhada pela manhã... E a casa estava pronta! Seguiu-se a arrumação dos artigos de higiene; depois, uns chinelos e umas roupas leves que pouco espaço ocupavam no saco, onde ainda couberam umas calças de ganga, uma camisola e uns ténis, para as noites frescas de Verão. Um biquini e o protector solar... O seu caderninho e uns livros, o transístor, uma lanterna e a máquina fotográfica... Tudo resumido ao mínimo. Tanto bastaria!...
À mão, umas maçãs e água... De resto, cafetarias e restaurantes garantiriam a sobrevivência, ao longo da viagem…
E ala, para sul!

As linhas abstractas do mapa, etapa a etapa, ganhavam vida. Via rápida, estrada nacional, caminhos plantados de árvores, com as copas de mãos dadas, oferecendo sombra; adiante, uma cidade... um ferry atravessando o estuário do rio até à península do outro lado... Aqui a vastidão do campo, ali, uma pequena aldeia piscatória; cegonhas à janela dos seus ninhos, nos telhados e chaminés; além, uma serra, acolá, um pinhal, anunciando a vastidão do mar, precedido da alta falésia e das dunas; praias semi-desertas, a perder de vista; gaivotas em voo como uma esquadrilha...
A viagem seria curta. No céu límpido, de vez em quando com um ou outro fiapo de algodão, brilhava um sol intenso... O dia convidava a desentorpecer as pernas, montar tenda, dar ainda um mergulho...

O guia campista apontou o parque mais próximo, no alto da falésia, onde pretendia encontrar um lugar sossegado para morar, bem em frente ao mar... Parou, instalou-se. E subitamente, a vida regressou à pureza do sonho, à simplicidade da satisfação das necessidades básicas essenciais, fundindo-se com a natureza...
Pouco a pouco, o céu foi ganhando os cambiantes do crepúsculo; por sobre a tenda, os pássaros, de ramo em ramo, chilreavam uma melodia, anunciando o final do dia…
Sentou-se então a contemplar o sol mergulhando, lentame
nte, no horizonte. Entretanto, as estrelas acordavam e cintilavam, a coberto da escuridão da lua, em quarto minguante, num espectáculo pleno de magia.
O rugido do mar embalou-lhe o sono.
Quando despertou, correu o fecho éclair e observou o mesmo tom alaranjado vivo no céu, enquanto ouvia a alegria dos pássaros, saudando o novo dia...
Deitava-se e acordava cedo. Dias longos e sem pressa, ao ritmo do sol de Verão e de um calendário sem compromissos.
Mal se despachava, um passeio pela praia meio deserta, um abraço ao Atlântico…

Prazenteiramente sentada numa esplanada, nas horas de maior calor, empreendia uma fantástica viagem, através das páginas do seu livro... Quando calhava, seguindo por uma das estradinhas mais desbotadas do mapa, acontecia uma visita a um farol, um castelo, um museu. Refeições saudáveis e frugais abriam-se à inovação de um sabor regional…
Atenta, observava, de passagem, uma manada de vacas ruminando pacientemente ou um rebanho de ovelhas abrigando-se a uma sombra; um abutre, cruzando velozmente os céus...
Só, na praia, na esplanada, à mesa do restaurante, não passava despercebida e sentia discretos e surpreendidos olhares. Mas ela sabia bem não ser só. E a momentânea solidão, em lugar de lhe pesar, oferecia-lhe a liberdade de dispor de si e decidir o que fazer, a cada momento, aceitando o imprevisto e o prazer da aventura.
Durante aquela meia dúzia de dias, refreou o ritmo violento e estonteante dos últimos meses, pacificou desejos e sonhos, reconciliou-se com o relógio e foi somando descobertas e emoções que as fotografias fariam recordar...
Ao regressar a casa, trazia de volta o generoso mapa que a impulsionara a partir. Este adquirira um ar usado e, nas pontas, ameaçava abrir brechas, mas tornara-se concreto e cheio de vida.
Por sua vez, ela voltara de corpo bronzeado e alma renovada, transbordando de ânimo para uma nova etapa, uma vez acabadas as férias...

15 de Agosto de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Leituras de férias...


FICHA DE LEITURA


Autor: Castanheira, Alexandre
Título: Outrar-se ou a longa invenção de mim
Editora: Campo das Letras
Colecção: Campo da Memória - 11
1ª edição, Porto, Outubro de 2003

Esta obra é um romance autobiográfico, em jeito de memória-balanço de uma vida de setenta anos, relatado na 3ª pessoa. O que não surpreende o leitor, pois, sendo una, a personagem desdobra-se em dois nomes principais e muitos pseudónimos, como se de outros se tratasse, em determinados períodos da vida, em virtude de circunstâncias várias, de lutas que empreendeu, da clandestinidade em que viveu durante quinze anos, do exílio...

Outrar-se é um neologismo que significa, efectivamente, tornar-se outrem.

Mais do que memórias de uma vida, neste relato, com tanto de histórico como de poético, é evocado um tempo da nossa História recente, narrado do ponto de vista de um resistente, politicamente activo contra a Ditadura. Tantos anos volvidos, esta obra ajuda a compreender a organização do PCP, na clandestinidade; ajuda a recordar e valorizar a acção solidária de muitos homens que, como Alexandre, se sacrificaram em nome de ideais e da construção da nossa Democracia.

Ajuda, sobretudo, a entender este Homem, figura de relevo de Almada - afável, prestável, simples, culto…; autarca, poeta, pedagogo…; sempre com um sorriso calmo e acolhedor, que tão bem comunica com os jovens, levando-os a buscar a poesia que transportam dentro de si e, a partir dela, produzir belos textos…

Foi num desses bem sucedidos ateliês de escrita - que realizou na minha escola - que o ouvi falar deste seu livro que me apressei a comprar, assim que surgiu a oportunidade.
Finalmente, pude lê-lo!

Férias: tempo de lazer..., tempo para ler...

sábado, 26 de julho de 2008

Faltam cinco minutos...


Atravesso o jardim… e reparo no chão atapetado de folhas amarelecidas!...

Tanto tempo à espera das férias, dos dias longos sem pressa, dos passeios à beira-mar, ao sol e ao luar, do repouso sem horário, do tempo de acarinhar desejos adiados – o livro que se não leu, a viagem que se não fez, o encontro por acontecer… – e subitamente, antes que seja iniciado o exercício do direito ao Verão, já o Outono se anuncia…

Injusto para quem teve um ano tão longo e atribulado… tão preenchido de trabalhos e responsabilidades, de correrias entre intransigentes toques de campainha, de escassez de tempo para realizar tarefas imprescindíveis, às quais a infindável lista de prioridades ditava, sucessivamente, ordem secundária… com o relógio impondo limites ao excesso de trabalho…

Agora, férias!...
Urge contrariar o Outono que se anuncia, gozando o calor que permanece, a liberdade dos corpos seminus, envoltos em vestes vaporosas que filtram os beijos do sol, o fascínio perpétuo de cada nascer e adormecer do astro que ilumina os dias, ignorando, por imposição pessoal, tudo o que ficou por rever ou fazer… abraçando, com ternura, o imprevisto do porvir, o sabor da aventura do quotidiano… com alma e coração...

Inexoravelmente, faltam poucas semanas para o retorno ao serviço, para o recomeço de um novo ano, a acontecer num Outono que já lançou o seu pré-aviso… tal como avisamos uma criança, que se diverte no parque infantil: “Vá, aproveita! Daqui a cinco minutos, vamos embora!”…
E então o menino lança-se prolongadamente na sua última volta no baloiço e no escorrega… do mesmo modo que eu corro a aproveitar os meus “cinco minutos”…
Até já!...
Boas férias!...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

As palavras dos outros


«Desiderata

Vai serenamente por entre a agitação e a pressa e lembra-te da paz que pode haver no silêncio.
Sem seres subserviente, mantém-te tanto quanto possível em boas relações com todos. Diz a tua verdade calma e claramente, e escuta com atenção os outros; mesmo que menos dotados e ignorantes, também eles têm a sua história. Evita as pessoas barulhentas e agressivas: são mortificações para o espírito. Se te comparas com os outros, podes tornar-te presunçoso e melancólico porque haverá sempre pessoas superiores e inferiores a ti. Apraz-te com as tuas realizações tanto como com os teus planos.
Põe todo o interesse na tua carreira, ainda que ela seja humilde: é um bem real nos destinos mutáveis do tempo. Usa de prudência nos teus negócios porque o mundo está cheio de astúcia, mas que isto não te cegue ao ponto de não veres virtude onde ela existe; muitas pessoas lutam por altos ideais e, em todo o lado, a vida está cheia de heroísmo.
Sê fiel a ti mesmo. Sobretudo não simules afeição nem sejas cínico em relação ao amor, porque em face da aridez e do desencanto ele é perene como a relva.
Toma amavelmente o conselho dos mais idosos, renunciando com graciosidade às ideias da juventude. Educa a fortaleza de espírito, para que ela te salvaguarde numa inesperada desdita. Mas não te atormentes com fantasias. Muitos receios surgem da fadiga e da solidão.
Para além de uma disciplina salutar, sê gentil contigo mesmo. Tu és um filho do Universo e, tal como as árvores e as estrelas tens o direito de o habitar. E quer isto seja ou não claro para ti, sem dúvida que o Universo é-te disto revelador. Portanto, vive em paz com Deus, seja qual for a ideia que Dele tiveres. E, quaisquer que sejam as tuas lutas e aspirações, na ruidosa confusão da vida, conserva-te em paz com a tua alma.
Com toda a sua falsidade, escravidão e sonhos desfeitos, o mundo é ainda maravilhoso. Sê cauteloso. Luta para seres feliz!

M. C.»

Estas iniciais nada têm a ver com Manuela Caeiro. A sério! Nada sei dizer sobre o seu autor.
...Polémico? Talvez! Mas muito sábio, também!... Um bom lema de vida para cada um de nós!
É preciso viver... sabendo contornar as esquinas da vida...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Festa pelo S. João...








«Bela cidade de Almada
de S. João é devota,
o Tejo vai aos folguedos
nas asas de uma gaivota.»




Foi esta a quadra que escolhemos - eu e a Fernanda Ataíde.
Fomos juntas à festa... depois de um cansativo dia de trabalho.
Prontas para nos divertirmos: e "meu dito, meu feito"!






Gastronomia da época: sardinha assada, salada mista... e sangria.
Música ao vivo...: das marchas, às "melodias de sempre"... e ao "pimba", pois claro!, tudo se ouviu, a partir daquele palco que anunciava, em letras grandes: "Festas Populares de Cacilhas".
Foi festa rija, na verdade...; bem popular, realmente...; em Cacilhas, sem dúvida!





No bailarico, dançavam casais, velhos e novos; mulheres com mulheres... e brincavam crianças...; não faltavam cães, certamente em busca da companhia dos donos...





Associámo-nos à festa!
Apitou o comboio..., marchámos..., fizemos rodas, de mãos dadas com as crianças...





Boa ginástica! Convívio. Satisfação.
Marcando o final da noite, fogo de artifício...





Desta festa, conservo o manjerico. Fotografias. Memórias.
Vivam os santos populares!...

Em especial... o S. João!

terça-feira, 10 de junho de 2008

Provérbio

"Uma imagem vale mais do que mil palavras."

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Antologia poética



Felicidade


A felicidade sentava-se todos os dias
no peitoril da janela.



Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém;
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo
pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério
no seu próprio nome.

Sena, Jorge de, Perseguição, Líricas Portuguesas, Portugália Editora, p.245

quinta-feira, 15 de maio de 2008

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Solidão & Companhia

O mundo em que vivemos, como que obedecendo ao “crescei e multiplicai-vos” (embora por vias sem expressão nos índices de natalidade…) não pára de se desenvolver, com reflexos vivos no nosso quotidiano…

Sendo, como sempre, seres eminentemente sociais, temos a família, os amigos, os colegas de trabalho...; os vizinhos do bairro…, os conhecidos…; aqueles que nos atendem no café, na loja, no banco, na repartição…; os que conhecemos numa formação… numa viagem… num encontro de pesca desportiva ou de fotógrafos… Um mundo de relações: barreira erguida contra a solidão.

Há muito que a necessidade de proximidade física - para que a amizade se faça sentir – deixou de ser um imperativo…

Já os nossos avós corriam para atender um telefonema e escutar uma familiar voz sem corpo… E, através da rádio, podiam sentir-se próximos de um locutor auditivamente presente e fisicamente distante que, ontem como hoje, os acompanhava, pronto para os distrair ou informar…

O cinema e a televisão acrescentaram-lhe a imagem, povoando cada vida de vivas companhias virtuais.

Passo a passo... tique-taque, tique-taque... chegámos à era digital. Esta em que os dedos constroem pontes que nos unem... clique-clique, clique-clique..., a partir de teclados de computadores…

Selos… são agora certamente mais raros e caros, na colecção de qualquer dedicado filatelista. É ver os marcos de correio, um após outro, a serem selados e retirados de locais onde se encontravam implantados há décadas…

Viva o e-mail!

Hoje, rapidamente efectuamos uma operação matemática, sem precisar de recorrer à máquina de calcular… fazemos uma pesquisa, sem a loooooonga e penosa consulta de índices de livros apinhados em estantes… Lemos jornais digitais, obras digitalizadas… Visitamos museus e países… Escolhemos e pagamos viagens… Encomendamos vulgares produtos de mercearia... Evitamos a fila e a burocracia das Finanças, para sabermos informações ou pagar impostos… Obtemos certidões: assim a impressora o permita!... Entregamos requerimentos no “Divórcio na hora”… ou peças processuais para tribunais, no Citius. Tudo em nome de nos facilitar a vida e apressar o seu ritmo…
Viva o Google!
De olhos presos num ecrã, alcançamos todos os sítios, sem sair do lugar…
Confinamo-nos, durante horas, a uma sala, quantas vezes isolados e sem nos sentirmos sós…
Porque a WEB, hoje, possibilita-nos criar redes sociais e interagir… O mundo de cada um pode tornar-se infinitamente mais vasto…
Proliferam blogues… sítios como o Flickr… a rádio social last.fm… o hi-5… inúmeros portais para diversos públicos-alvo; simples questão de interesses e escolha…

Vivemos na era do voyeurismo invertido, dizem. Somos nós que nos damos a ver: com fotografia ou avatar, nome verdadeiro ou pseudónimo (mais ou menos criativo), construímos uma identidade, com a qual fazemos amigos. Anonimato e familiaridade.

Dizem também que comentar e ser comentado provoca stress, causa dependência.
Não necessariamente, digo eu. Usar as tecnologias que, por sorte, estão agora à nossa disposição (e que não cessarão de evoluir) só pode trazer efeitos positivos: assim as usemos com sageza. Circular num ambiente digital, onde acabamos por integrar um grupo social, tão restrito quanto alargado, tão próximo quanto distante, não exige passar a ter um dia-a-dia virtual. Do mesmo modo que beber um café ou um copo de vinho não nos torna dependentes… e usar um cartão de crédito nos não endivida…


Fruir da nossa liberdade implica fazer opções. Reflectir, decidir. Saber viver cada experiência com conta, peso e medida...

Um equilíbrio que desejo manter, ao esperar pelo comentário da Teresa, da Elsa, da Ana, da Fernanda, da Judite, do José ou do António..., no meu blogue…; do Antonimus, do Marco Osório, da Luísa, da Margarida, da Lara ou da Aquaviva… ou do Aurelio, da Boram e da Kitty… (amigos da Grande Lisboa, do Porto e de vários continentes…) - no Flickr… Amigos estes (mais aqueles que não citei) desconhecidos-conhecidos que - tão imprescindíveis como os amigos de carne, osso.. e coração... - fazem parte de mim e me acompanham, ensinam, estimulam, fazem crescer… sentir realizada, feliz!...

Companhia. Sem solidão.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Antologia Poética - Mar...

Arte de navegar

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.

Eugénio de Andrade, in Eros de Passagem, Campo das Letras,3ª edição,1998



Mar

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I, 1944


Lusitânia


Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo, 1958



Pintura de Manuela Marques: http://sesimbrapainting.blogspot.com/

sábado, 12 de abril de 2008

Uma nova entrada para a EB 2.3 Comandante Conceição e Silva


A minha última "croniqueta" teve fins didácticos... Postei-a no blogue da "minha" biblioteca.
Se me quiserem ler...
...sigam o link:
http://bibliotecaxcompanhia.blogspot.com/2008/04/uma-nova-entrada-para-escola.html

sexta-feira, 28 de março de 2008

À chegada, emoções em desfile...

É nas alturas de festa que a solidão mais pesa…
É para estas ocasiões que se programam uns dias de férias. E que mais se viaja. Quer pela ânsia de uma fuga à rotina, gozando alguns dias de descanso, retemperadores de energia. Quer buscando companhia de familiares e amigos distantes. Talvez por ambas as razões, num “2 em 1” voluntário, consciente… Por desejo, por tradição.



E então é ver as intermináveis filas de veículos nos acessos às auto-estradas rumando a norte e a sul; o tráfego intenso nos terminais de autocarros, onde o afluxo de passageiros conduz à lufa-lufa de desdobramentos contínuos de carreiras e ao corre-corre de quem pretende localizar o número do seu autocarro e respectiva linha; a idêntica canseira nas estações de caminhos-de-ferro, lendo placas informativas, correndo à procura da plataforma e da carruagem certa, no meio daquele longo comboio tão cheiinho delas e que não espera por ninguém…

Idêntico é o corropio, nos aeroportos. Aí se assiste à permanente e sucessiva chegada de passageiros, carregados de malas, prontos para embarcar - conformados em sujeitar-se, depois de tantos e tão cansativos preparativos de viagem, a um check in obsessivo e sem sentido, em nome do temor do terrorismo..., como se este não tivesse que ser, por natureza, inesperado e criativo, para apanhar todos desprevenidos, a cada nova investida!...

Do outro lado, nas chegadas, aglomera-se uma multidão que espera, impaciente, familiares ou amigos, prontos para o abraço e o convívio. Tardam.

O desfile de gente que desembarca é permanente. Os olhos lançam-se ao desafio de identificar, pela forma de vestir, pelo colorido das roupas e do tom de pele, pela língua que falam, o país de onde virão, o voo de que terão desembarcado… Tarefa muito dificultada, neste nosso mundo global e cosmopolita. Onde ninguém é “ateniense nem grego” e cada um é, por direito próprio, cidadão do mundo!

Os olhos de quem espera lançam-se à aventura de identificar o pai, o filho, a avó, o neto, a namorada, o amigo…, mal este transponha aquela larga porta, precedido do carrinho das bagagens, talvez, desta vez, com um traje mais formal ou, pelo contrário, com o habitual boné do Sporting e umas “havaianas” nos pés…

A vida desfila num aeroporto, carregada de emoção… Exibe-nos profissionais ou estudantes, sonhando férias… turistas com ânsia de sol e de deleite-de-ver-mundo... Conta-nos histórias de aventura, de ausência, de saudade, de amizade e amor…

A criança trepa o corrimão, corre para o pai, salta-lhe para o colo em que se aninha, preso ao seu pescoço, assim descendo a rampa, enquanto a mãe, a esposa, corre ao encontro de ambos, na outra extremidade…

A neta, mais crescida desde a última despedida, foi prontamente reconhecida… Mais fácil foi para ela reconhecê-los (eles estão iguaizinhos!)… Saltou prontamente para o solo, galgando o corrimão, e abraçou-os longamente… Consolava, no seu português com sotaque, a sua avó que, não conseguindo estancar as grossas lágrimas, limpava-as com um largo sorriso escancarado no rosto…

Um casal de turistas procura atentamente o seu nome, escrito numa placa… Um porto seguro…

Ouve-se um grito de alegria, num nome pronunciado à distância… Acena-se. Estendem-se braços para os quais alguém corre prontamente…


O filho vem de férias, finalmente. Os seus melhores amigos fizeram questão de estar presentes e empunham uma mensagem: “Bem-vindo a casa, Francisco!”… Depois de largar as malas e de saborear longamente, com os pais, a saudosa refeição (já preparada), os jovens irão divertir-se juntos... Que saudades de Lisboa!...

Os escuteiros vinham fardados, animados. A meio da rampa, fizeram ouvir a sua voz em uníssono, fazendo-se anunciar num hino solidário que ecoou fortemente naquele enorme salão…

O velho casal chega de férias… E lá está a família, feliz, à sua espera. Os presentes vêm na mala!... A alegria do reencontro com os avós é genuína, desinteressada... Mas que a prendinha é esperada, quem duvida?...

Descem olhos ansiosos, em activa busca de alguém que ainda não avistaram: talvez ele se tenha atrasado… talvez só o conheça ainda virtualmente… O momento é de intensa expectativa...

Lá ao fundo, aquele jovem casal reencontra-se e funde-se num prolongado beijo apaixonado… O carro das bagagens gira abandonado, seguindo por instantes um movimento de inércia, em perfeita liberdade...

Há também aqueles que ninguém espera. Turistas, quase todos. Mesmo quando disfarçam a intenção de permanecer, para além do tempo permitido pelo seu visto e data de viagem de regresso, dispostos a lançar-se numa aventura clandestina.

Mas é também o caso daquele outro que viaja em serviço, por rotina. Traz a sua malinha com rodas, apanha um táxi e segue, confiante e livre…

Em contrapartida, há os turistas cujos amigos os esperam. Turistas recorrentes que voltam ao mesmo sítio a que muitos laços afectivos os ligam.

É o caso dos Ericsson, Nystrom e Jarl que, há mais de vinte anos, regressam a Portugal, anualmente, para quatro ou cinco intensos dias de sol, mar, sabores, repouso em contínuo movimento e vivência da amizade.

As emoções vibram a cada passageiro que chega, a cada minuto que passa… e corporizam-se num arrepio que percorre a espinha do espectador atento… Comovi-me, com frequência! Absorta a observar, sem o impulso de fotografar, apertando a máquina entre as mãos.

Sem emoção, não há vida.
E a vida é clara e emocionalmente vivida, nas “chegadas” de um aeroporto!







terça-feira, 11 de março de 2008

Antologia

Forma de Inocência

Hei-de morrer inocente
exactamente como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta: enregela
como um gume vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.

António Gedeão

terça-feira, 4 de março de 2008

Avaliar a avaliação: urgentemente!...

Assistimos a debates televisivos, ouvimos programas de rádio. A Educação está na ordem do dia. Por maus motivos.

A opinião pública, que em estudos recentemente revelados se mostrava generosa na avaliação do papel dos professores, parece agora vacilar. Abundam subentendidas acusações; sobejam assumidas críticas; ressaltam demasiadas desconfianças e dúvidas… Do mesmo modo que somamos apoios substanciais.
Radicalizam-se posições. Urgem soluções.

O Ministério não escuta fundadas inquietações desta classe profissional e, de igual modo, mantém-se surdo a decisões recentes dos tribunais.
Permito-me perguntar: uma tão grande mobilização de professores de norte a sul do país seria esperada se a preparação deste novo processo de avaliação tivesse sido atempada e devidamente conduzida?...
A lei, publicada em Janeiro, terá saído na melhor altura? Para ser preparada agora e implementada, experimentalmente, no próximo ano lectivo, talvez! Para ser posta em prática num ano lectivo que começou em Setembro, sendo este um modelo que não foi previamente testado e que tantas implicações negativas pode vir a ter na carreira destes profissionais - como é possível concebê-lo?!

Alguém considera que a escola tem condições para, a meio do ano, a meio de um segundo período curtíssimo, planear e executar todas as alterações a documentos orientadores, tais como o Projecto Educativo de Agrupamento, o Projecto Curricular de Agrupamento, o Plano Anual de Actividades de Agrupamento, as inúmeras grelhas de avaliação de toda a espécie para avaliar toda a gente e todos os sectores da escola… e implementar tudo, no decorrer deste mesmo ano lectivo, por mais alargado e flexível que este prazo seja?... Sabendo-se do acréscimo de horas para reuniões e para trabalho prévio que todo este processo implica?... É humanamente impossível, por mais boa vontade que exista!

Não será melhor que o Ministério conceba fazer uma pausa para entender as dúvidas e as dificuldades de quem está no terreno, em vez de partir do princípio que são todos “da oposição”? Que “quem quer trabalhar, trabalha”?... Ou, simplesmente, pretender acreditar que somos um bando de incompetentes, com medo da avaliação?...

Quem fez da escola a instituição reconhecida que hoje é, senão os próprios professores?
E é fácil entender que o fizeram sem esperar a recompensa de uma boa nota, de uma progressão na carreira ou de quaisquer honras pessoais, mas apenas guiados pelo sentido de responsabilidade e pelo prazer de levar a cabo os projectos em curso. Pelos alunos! Pela escola pública!

Merecemos confiança. Merecemos ser agora compreendidos e atendidos numa pretensão tão simples quanto esta: preparemos tudo, com tempo; repensemos e ajustemos critérios de avaliação; retiremos o que é subjectivo e que não depende da nossa acção directa; experimentemos tudo, numa primeira fase; implementemos, finalmente, um modelo de avaliação justo em 2009/2010.
É a minha opinião.

Uma coisa é certa: esta situação não serve a ninguém.
Há que encontrar saídas. Urgentemente.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Antologia


Quero que me oiças
sem me escutares,
quero que me oiças
sem me julgares.

Quero muitas vezes que me dês opinião
sem me aconselhares,
quero que olhes por mim
sem te projectares em mim,
que me abraces
sem me asfixiares,
que te apoies em mim
sem te encarregares de mim,
que te aproximes
sem me invadires,
que conheças as coisas que te desagradam em mim
e as aceites,
que cuides de mim
sem me anulares
e sejas capaz de estar ao pé de mim
sem te anulares.

Assim,
podes contar comigo
sem condições.

Jorge Bucay
.......................

Jorge Bucay é argentino; médico ("psi") e escritor de grande renome.
Podes saber mais, aqui:



Amores perfeitos

Existirão amores perfeitos?

Sonhadores sequiosos de felicidade, temos essa aspiração enraizada dentro de nós.
A multifacetada realidade nem o confirma nem o desmente...

Os vizinhos de cima divorciaram-se. Quem diria? Tão novos! E pareciam tão felizes!...


Os vizinhos do lado, casados de longa data, certamente nunca pensaram separar-se. Vivem numa partilhada rezinguice crónica que lhes preenche o quotidiano, fazendo-os sentir-se vivos e acompanhados. Pior seria a solidão, acreditam.

O vizinho do 1º, suspeito eu, não pensou assim. O casal mudou-se para cá há pouco. Nada sabemos do seu passado, excepto o que é observável à primeira vista: os cabelos grisalhos dele contrastam com a juventude dela...

O adolescente do 3º, há meses a fio, é visto com a mesma amiga. Descontraídos, andam de mãos dadas, conversam sobre tudo ou nada, olham-se nos olhos, trocam carícias...; ingenuamente, confiam que o seu amor durará para sempre... Ilusão? Ou não?...

O viúvo continua só. Circunstância?... Opção?... Terá conhecido alguém-algures...?... Real? Virtual...?... Quererá, algum dia, que esse alguém invada o espaço privado da sua vida?... Aceitará prescindir da independência e da liberdade que hoje tanto preza?...

Naqueles dias em que seguramente estará só - nos dias de festa, aos domingos, nas férias de Verão... -, a vizinha solitária do prédio em frente planifica e gere o seu tempo em liberdade. Vai ao cinema, visita a família, sai com amigos.

Nos outros dias, espera... Será ele quem agendará o desejado encontro - quando puder, quando quiser. Ela espera sem remorso: ele contou-lhe que não é feliz! E acalenta uma esperança: um dia, terão mais tempo para si...

No bairro, ela ignora alguns masculinos olhares cobiçosos e outros tantos vigilantes olhares femininos...

Aquele correspondente holandês que exibia orgulhosamente a sua aliança, revelando simultaneamente que era casado com um português - o vizinho do rés-do-chão, imigrante no seu país - deixou de escrever. Trabalho em excesso?... Ou terá perdido a motivação para saber mais português e praticar a língua escrita?... Continuarão unidos, felizes?... Um dia o saberemos...

Haverá amores perfeitos!?
De certeza! Acreditamos que sim!
Pelo menos enquanto durarem... e forem sentidos como perfeitos.

E afinal todos sabemos que há mesmo amores-perfeitos.
Ou tinham-se esquecido?...




Dedico este par de amores-perfeitos a todos aqueles que acreditam... E também aos outros!



quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Antologia

Janeiro: aniversário de Eugénio de Andrade.

Pretexto para uma homenagem a este poeta de grande prestígio nacional e internacional, muito traduzido, e que recebeu inúmeros prémios e distinções.


«Nas palavras do próprio Eugénio de Andrade (Rosto Precário), a sua poesia afirma-se como o "lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos".
Eugénio de Andrade surge como o poeta da "correlação do corpo com a palavra" , da sexualidade trabalhada verbalmente até atingir uma "zona gramatical cega", onde o referido sexual não tem género gramatical referente porque o discurso em que vive pertence já a uma dimensão cuja musicalidade representa a recuperação de uma voz materna intemporal. »



A palavra ao poeta!

.....................................


A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.

..............................................................................

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)

..............................................................................



Poema à mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido no fundo dos teus olhos.

Porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa:
esqueceste que as minhas pernas cresceram
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me - às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.

Eu saí da moldura
dei às aves os meus olhos a beber.


Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim
e deixo-te as rosas.


Boa noite. Eu vou com as aves.

...............................................................................

domingo, 27 de janeiro de 2008

Três imperativos e uma frase interrogativa...

Ofereceram-me no Natal um “caderninho”.
Nada de extraordinário, dir-me-ão.
Discordo! Deixem-me justificar porquê. Ao darem-me o tal caderno, traçaram-me objectivos: “…para apontar ideias e escrever.”
Uma frase simples proferida com naturalidade. Um gesto simples, terno, aparentemente ingénuo. E muito encorajador - pela confiança que em mim depositaram no bom uso a dar àquela prenda...
Uma tarefa imensa e que, bem vistas as coisas, de simples nada tem!...

Uma coisa é certa: a partir daquele momento, eu já não tenho razão para ir apontando “lembretes” nas costas de folhas utilizadas, em talões Multibanco, pedaços de papel de embrulho ou recortes de toalhas de mesa de papel… nem será tão fácil perder o norte ao sítio onde os guardei… Passei a ter “um caderno”! Digno, organizado.
A encher-se de asteriscos, setas, entrelinhas, riscos e rabiscos.
Está bom de ver: foi nele que há pouco rascunhei este mesmo texto…

Quando o caderninho está aberto, fica escondida a mensagem que exibe na capa: “pense. crie. escreva.
Três imperativos. Imperiosos, provocadores. Nem o comic sans ms, aliás, o viner hand ITC, lhes retira o estilo desconcertante.
Reparem no mais curtinho deles todos: “crie”. Crêem que o verbo criar admite imperativo?!...
Ora o slogan da capa não se fica por aí; acrescenta, por baixo, como quem não quer a coisa: “com inspiração”. Pensar, criar, escrever… com inspiração! Quanta responsabilidade!... Que desafio!...

O entusiasmo de estrear o caderno, deixando-me guiar por esse estímulo, o desejo de não desmerecer a confiança manifestada em mim por quem mo ofereceu, o prazer de escrever, tudo isso vai produzindo resultados e fazendo de mim esta autora... que para aqui vêem.

A primeira consequência foi persistir na manutenção do blogue, quando a acção de formação que o fez nascer acabou em Dezembro… Permaneço aqui por conta própria, às vezes questionando-me porquê, para quê…

A verdade é que, entretanto, iniciei uma segunda fase. Pouco a pouco, vou dizendo timidamente a uns e a outros que criei este espaço, “…sem complexos nem peneiras…”. Pura verdade!...
A simpatia com que aludem aos "meus ambientes digitais... pessoais e intransmissíveis..." anima-me a prosseguir.

Uma colega foi absolutamente inexcedível e duplicou o apelo e estímulo iniciais…
Carinhosa na resposta, sensível na compreensão, calorosa na crítica que sublinhou com um sorriso aberto…
Uma leitora ideal!
Uma leitora encorajadora!
(Pensarei também nela sempre que puder escrever…)

E eis que surgiu há dias a frase interrogativa: “Então, nunca mais escreves nada?” – perguntou-me ela.
E rematou com o mesmo sorriso, a mesma voz terna plena de humor crítico: “Criar blogues é fácil! Agora alimentá-los…”
(Tens razão! Mas nem me justifico. És a primeira a entender bem a minha ausência…)

Mais esta agora: uma frase interrogativa com peso de imperativa… Imperiosa e provocadora como o “pense. crie. escreva.” daquele caderninho criteriosamente escolhido para mim…
Por estas e por outras, aqui estou de novo!...



domingo, 13 de janeiro de 2008

Elas...


Juntaram-se quatro mulheres. Primas e amigas. Sem grande familiaridade entre si.
O pretexto foi o aniversário de uma delas.
O contexto: um restaurante e um saboroso jantar, ao gosto de cada uma.

Os tópicos de conversa foram surgindo “como as cerejas”, entre garfadas de peixe ou carne grelhados, regados a água.

No rescaldo do Natal, este tema foi dos primeiros a vir à baila. A laboriosa compra de prendas, iniciada meses antes, de forma planeada, com metódicos registos em agenda e tudo... ou, pelo contrário, a recusa absoluta de embarcar nesse frenesim... (Não houve consenso...)

Inovadoras formas de vivenciar o Natal. As famílias de hoje ramificam-se e os Natais antecipam-se e prolongam-se em sucessivos dias de festa, a rigor, com ceia e distribuição de prendas, em datas que são objecto de marcação prévia, por consenso... 23, 24, 25, 26...
E explanou-se o curioso conceito de prenda
em circulação: a prenda que se não quer e que anda de mão em mão, até ser por alguém desejada...

Leituras e filmes. Os que vemos sós e os que partilhamos com netos. Pontos de vista, preferências assumidas...

A reforma a que algumas de nós já teriam direito e que foi ficando cada vez mais longínqua...
E os projectos que aguardam esse porvir.

A evidente constatação de vivermos sós. Sem sermos solitárias.

A espontânea forma da Paula entabular conversa com desconhecidas e criar novas amizades...

Homens? Alguém reproduziu a opinião de uma amiga ausente (que ficaria bem integrada naquele grupo): “As mulheres são, em regra, mais sensíveis, mais sinceras, mais ricas de conteúdo... mais interessantes...”
Uma opinião que mereceu apoios e silêncios, ou por concordância ou por abstenção...

Elas não falaram de homens. Contudo eu contaria que se cruzou um olhar discreto, mas assumido, com
ele... sentado só numa mesa, na outra ponta da sala.
Todas teriam as suas histórias de vida, as suas desilusões, os seus sonhos... que não desvendaram. Talvez porque a falta de intimidade não transmitisse à-vontade para vencer o tabu.
Calaram-no. Embora com fama de tagarelas, elas sabem ser reservadas.

Falaram de dietas alimentares, mas não de receitas.
De festas de família, mas não de filhos nem de netos.

Nem de casas nem de decoração.

O jantar e a conversa fluíram sem pressa.
A dona do cão foi a primeira a partir... talvez também porque, lá fora, poderia fumar...

Despediram-se com a promessa de um reencontro – para a próxima um almoço, pois que ao jantar preferem refeições frugais.


- Adeus, Paula... Parabéns!


Livres, independentes, elas hoje revelam novos interesses e preocupações.
Elas são realmente diferentes.


domingo, 6 de janeiro de 2008

A senhora que fazia oitenta anos

A senhora que ia fazer 80 anos, há muito o anunciava. Sem prazer.
Sempre associara o acumular de anos a velhice e degradação. O aproximar do fim de mais uma década recordava-lho de forma perturbadora.

Entretanto, mantinha as rotinas de sempre: preparava-se pela manhã e fazia a cama; estendia toalhas húmidas; limpava a casa (“a melhor fisioterapia”, segundo ela); tratava de roupas; preparava refeições.
Fazia, quando necessário, as suas saídas. Sempre com um objectivo definido e tempo programado. Por vezes, ia fazer pequenas compras - tão pequenas que as pudesse pagar com a sua magra reforma; tão leves que as pudesse transportar de uma vez, sem excessivo esforço. Saía também para ir ao correio – para enviar uma cartinha bem tradicional, com envelope e selo, ou para pagar alguma conta, cujo prazo não deixava nunca exceder. É que aquela senhora fazia questão de organizar cuidadosamente cada dossiê e tratar escrupulosamente de cada assunto (seu ou de outrem). Sentir-se capaz de o fazer dava-lhe a satisfação de poder contrariar a idade; dava-lhe a sensação de juventude, para se manter independente.

Mulher autónoma. Batalhadora. Esgotava cada dia no esforço de cumprir rigorosamente os objectivos para sobreviver a esse mesmo dia. (E adiantar mais alguns, sempre que possível…)
Com o permanente desafio de gerir o parco fundo económico disponível, tornara-se exímia na arte de poupar. E então vigiava cada luz inutilmente acesa; contrariava a elevada posição do termostato do aquecedor. Carregava bacias de água do tanque para o quarto de banho, em militante poupança – tão excessiva quanto necessária.

Mês a mês, pagava as despesas habituais do condomínio e ainda as outras, devidas a obras de manutenção inesperadas, com o orgulho de poder proclamar “Esta casa é minha!”. O mesmo orgulho com que quase sempre se recusava a aceitar qualquer ajuda suplementar. E com a alegria de, na primeira ocasião, dar generosamente algo a alguém, com mãos largas.

No seu dia-a-dia, incluía, com frequência, telefonemas, em horário gratuito. Falava aos netos, a amigos distantes, a todos os aniversariantes conhecidos – atenta ao calendário.
Ao fim do dia, finalmente sentada, folheava um jornal ou uma revista; via um telejornal ou um qualquer programa que a ajudasse a serenar as horas de cansaço.

O seu dia de anos aproximava-se e ela anunciou: “Não quero festa!”.
As irmãs perderam a coragem de percorrer os quilómetros que as afastavam, para a virem felicitar. A neta, da outra ponta do país, insistia e a avó repetia-lhe: “Não venhas!”
As filhas conspiraram e decidiram preparar um jantar, em segredo. Viesse quem viesse!

Naquele jogo do gato e do rato, quem primeiro chegou, ouviu: “A menina é teimosa! Eu não disse que não queria cá ninguém?”
Os telefonemas seguiam-se. A vontade de os atender, nula. A contrariedade transbordava, de forma assumida: “Eu não estou feliz por fazer anos!”
Um a um, amigos e netos felicitavam-na e iam-lhe influenciando o discurso: “Eu sei que é sinal de que estou viva e eu quero viver, mas não estou feliz por fazer 80 anos!”
Pouco depois, acrescentava: “O meu neto disse-me: Tu queres ver o Francisquinho crescer, ver a Íris formar-se… Tu queres viver ainda muitos anos, avó…”

A idosa senhora sentira-se, subitamente, mais animada.

Faltava ainda admitir uma mesa posta com vários lugares e notório ar de festa…
“-A Fátima vem? Eu disse-lhe que não viesse!” – vociferou, assim que alguém lhe lançou uma leve suspeita.

“-Ó mãe, se ela vier, é porque quis vir, embora lhe tivesses dito que não viesse! Nós não lhe dissemos nada!”…
Enfim, foram precisas muita habilidade… e paciência!
Primeiro chegou um, depois outro, e o rosto da avó foi-se iluminando…

Sempre houve jantar de anos. Não sobraram lugares vagos, à mesa!
No momento da sobremesa, as velas (até aí escondidas) não apareciam.

“Mas eu jurava que as tinha deixado aqui!”- lamentava-se uma das filhas.
“Deixa lá, dispensam-e as velas” – contrapunha a outra.
“Mas já que as compraram, é pena!”- rematou a aniversariante, igualmente empenhada em colaborar activamente na sua busca!...

Claro que nem as
velas faltaram! Como também não faltaram as fotografias. Mais: a senhora que fez 80 anos apagou as velas por duas vezes, para que o momento do passado dia três de Janeiro ficasse mesmo registado!...

Nem sempre, afinal, podemos fazer a vontade aos nossos “maiores”.
Foi bom ter contrariado esta voluntariosa octogenária.
Com a família em volta, o convívio, a carinho… assim lhe refrescámos a alegria de viver.
(O que ela reconheceu por fim, a seu jeito, meio arrependida…)

Esta senhora foi sempre o meu exemplo. Um exemplo de energia, coragem, tenacidade, generosidade, abnegação, competência…
E ela continuará a servir-me de exemplo, mesmo neste caso, por oposição: eu não quero repetir as fitas da minha mãe quando eu fizer 60, 70, 80 anos ou mais… se tiver a felicidade de lá chegar, tão bem quanto ela!...




Antologia...

A minha "mensagem de Ano Novo" devo-a a Fernando Pessoa - e a quem, em boa hora, me transcreveu o poema...



«Posso ter muitos defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes.
Mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E posso evitar que ela vá à falência.



Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.



É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.



Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo.»

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Dezembro... Natal...


Há doze anos atrás, escrevi uns versos alusivos à quadra que agora revivemos.
Reli-o há dias...



Confesso que, desde então, me rebelei de vez contra a azáfama consumista do Natal e (quase) deixei de me preocupar com prendas...
Passei a vivê-lo mais serenamente, sobretudo atenta ao momento de convívio familiar que estes dias nos proporcionam...
Não resisto a transcrever os meus versos, escritos por altura do 3º Natal da minha neta.


Afinal, eles explicam o meu ponto de viragem...


Para sossegar alguns espíritos, esclareço que estou a passar um Natal africano... E não deixei de trazer uns presentinhos... ou não tivesse eu vindo passar o Natal com o meu neto de 16 meses!...
......................................................................................................




Dezembro... Natal...

É Dezembro
de novo.
E o Natal vai chegar!
Onde o vamos passar?


Quisera reviver
meu Natal de memória,
o Natal de outrora...
Onde o vamos passar?


Este Natal
por sua vez será
Natal de memória
um Natal de outrora...


É a nossa vez
agora
de recriá-lo
enfim!...


É Dezembro de novo
o Natal a chegar.
Família dispersa
amigos ausentes
postais por enviar
prendas por comprar
E a este... e àquele... o que vamos dar?


Dezembro de novo
o Natal a chegar.
Tanto por fazer
tempo a escassear.
O Menino a nascer
um milagre por acontecer...


É Dezembro de novo.
Mais um Natal
por fim, aconteceu.
Mais um Dezembro
se reviveu.



21/12/1995

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

2ª Croniqueta...

Na vida, como amadora


Vamos nesta caminhada. Chamada vida.
Crescemos, espontaneamente. Convivemos.
Estudamos. Trabalhamos. Progredimos na carreira.

Criamos laços sociais. Vínculos. Mais ou menos fortes, mais ou menos duradouros.

Afinal, vida é mudança. Permanente.

Pretendemos o oposto!
Teimamos em solidificar, cristalizar… laços e situações…
Às vezes mesmo quando um projecto de vida está à beira de ruir… ou ruiu…
Acomodamo-nos. Buscamos segurança.

E afinal não será mais revigorante a incerteza do desconhecido?
A oportunidade de enfrentar um novo desafio?
O entusiasmo que qualquer aventura transporta?
Descobrir novos caminhos?
Sentir o prazer da descoberta?
Abraçar a aventura?
Aceitar viver numa estável instabilidade…, sem sobressalto?...

Não fomos ensinados a admiti-lo… menos ainda a aceitá-lo…
É tempo de crescer…
De aprender a conviver com esta vulgar realidade.

“Partimos. Vamos. Somos.” – afirmou o poeta.

Vamos, sim!
Aceito viver a vida na qualidade de… amadora!
Crescer, experimentar, descobrir… sem profissionalismo nem certezas…

Amadora na vida…. Amadora da vida…

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Antologia...


A vida é feita de nadas

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais

De poeira;
Da sombra de uma figueira
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Kindle, a novidade da Amazon




A Amazon, uma empresa americana de comércio electrónico, lançou o Kindle, um e-livro do tamanho de um vulgar livro em papel, onde se podem ler romances, jornais e blogues.



Este aparelho dispõe de ecrã a preto e branco, legível mesmo à luz directa do sol, e de teclado. Pesa à volta de 300 g e pode armazenar cerca de 200 títulos. Em menos de um minuto, podem-se descarregar conteúdos da Internet, sem necessidade de computador.


A má notícia é que o Kindle custa $400,00 US e cada título importa em $10,00 US.


Por enquanto, esta novidade só existe nos Estados Unidos.




Quanto à autonomia, é de cerca de 48h, quando a ligação sem fios está activa. A recarga é feita em 2 horas.


A livraria digital Amazon tem mais de 90.000 títulos e espera assim fazer avançar o negócio da leitura de livros em ecrã, depois de outras empresas, como a Sony, o terem tentado sem sucesso. Será desta?


Se quiser saber mais, consulte: http://www.engadget.com/2006/09/11/amazon-kindle-meet-amazons-e-book-reader/

domingo, 4 de novembro de 2007

Citação

«Aprender é descobrir aquilo que já sabemos.

Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto como nós.»



Richard Bach





São assim, os poetas.
Concisos, criativos...
Surpreendem, confundem... despertam-nos dúvidas, ideias, certezas...

Prosaicamente, diria eu... :

Aprender é apreender o desconhecido, fazer uma descoberta...

Ensinar é partilhar o que aprendemos, desvendar e descobrir em conjunto...

Ou não será?...

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Croniqueta...

Aprender e ensinar...

Li algures um provérbio (árabe, salvo erro) mais ou menos assim: "Quem não quer aprender, deve deixar de ensinar".
De acordo...

"Aprender até morrer"... dizemos nós.
Encontro-me em formação. Três acções, simultaneamente.
É como se eu tivesse 3 disciplinas. Nada comparado com as 9 ou 10, à vontade, que os nossos estudantes têm!
E tenho mais vantagens: não vou lá só porque é obrigatório... ou porque alguém vai receber um subsídio pelo facto de eu lá andar...
Não tenho "falta de bases"... nem necessidades educativas especiais de qualquer género...
E até tive quem me encorajasse! (Bem-haja!)

Apraz-me sentir entusiasmo ao realizar tarefas que me despertam a curiosidade e aguçam a criatividade. Que me exigem esforço, possibilitando-me "ser capaz", isto é, ter sucesso.
Revivo o prazer de aprender.

Vivencio a situação de ser discente.
Avalio, comparo.
Dia a dia, aula a aula, abordam-se temáticas diversas, acumula-se bibliografia.
Há momentos em que a simples organização da papelada na secção certa do dossiê nos confunde!...

Por vezes, o ritmo das aulas parece-nos acelerado, outras vezes, lento...
As matérias são-nos mais ou menos gratas...
Temos os professores que nos despertam mais ou menos empatia... talvez inexplicavelmente...
Os colegas que passam despercebidos e os que se salientam; os que toleramos ou aqueles com quem simpatizamos...

Voa a semana e às vezes não se completou a leitura em casa... ou ficou esquecido um trabalho que já devia estar pronto... Ai os TPCs!...
Paira a inquietação da avaliação, dos trabalhos individuais que se aproximam...

Aquelas turmas são um espelho (ainda assim desfocado) do que vivem os nossos estudantes.
E concluo que ser aluno não é fácil!

Nós, professores, temos que ver o prisma pela outra face, entender atitudes e reacções; inovar soluções.
Isto também é aprender!

E "quem não quer aprender..."