domingo, 17 de agosto de 2008

Evasão e alma nova

Na caixa do correio do 6º andar, como em tantas outras do mesmo prédio e da cidade, para além de uma ou outra carta com as habituais facturas mensais, o carteiro depositou, naquele dia de Julho, um largo envelope do Banco, contendo um mapa de Portugal. Uma oferta.
Uma vez desdobrado, aquele mapa exibia o país recortado por estradas multicores, de norte a sul, de leste a oeste, recordando percursos já visitados ou sugerindo outros há muito por acontecer. Um autêntico convite. Um desafio.
“-E se...?” - a ideia surgiu-lhe.
Não fizera planos de férias. Usar o cartão de crédito para fazer uma viagem, após alguns recentes gastos inesperados, estava completamente fora de questão. Decidira que passaria umas férias pacatas e económicas. Era ponto assente.
“Uma voltinha, aventurando-me sem programa nem destino certo...” - e a sua ideia foi tomando forma.
Os preparativos não tomaram muito tempo. Meteu no porta-bagagens a tendinha de dois lugares (fácil de montar e desmontar por uma pessoa só), o saco-cama, uma almofada, uma corda que fixaria entre duas árvores, para poder estender a toalha molhada pela manhã... E a casa estava pronta! Seguiu-se a arrumação dos artigos de higiene; depois, uns chinelos e umas roupas leves que pouco espaço ocupavam no saco, onde ainda couberam umas calças de ganga, uma camisola e uns ténis, para as noites frescas de Verão. Um biquini e o protector solar... O seu caderninho e uns livros, o transístor, uma lanterna e a máquina fotográfica... Tudo resumido ao mínimo. Tanto bastaria!...
À mão, umas maçãs e água... De resto, cafetarias e restaurantes garantiriam a sobrevivência, ao longo da viagem…
E ala, para sul!

As linhas abstractas do mapa, etapa a etapa, ganhavam vida. Via rápida, estrada nacional, caminhos plantados de árvores, com as copas de mãos dadas, oferecendo sombra; adiante, uma cidade... um ferry atravessando o estuário do rio até à península do outro lado... Aqui a vastidão do campo, ali, uma pequena aldeia piscatória; cegonhas à janela dos seus ninhos, nos telhados e chaminés; além, uma serra, acolá, um pinhal, anunciando a vastidão do mar, precedido da alta falésia e das dunas; praias semi-desertas, a perder de vista; gaivotas em voo como uma esquadrilha...
A viagem seria curta. No céu límpido, de vez em quando com um ou outro fiapo de algodão, brilhava um sol intenso... O dia convidava a desentorpecer as pernas, montar tenda, dar ainda um mergulho...

O guia campista apontou o parque mais próximo, no alto da falésia, onde pretendia encontrar um lugar sossegado para morar, bem em frente ao mar... Parou, instalou-se. E subitamente, a vida regressou à pureza do sonho, à simplicidade da satisfação das necessidades básicas essenciais, fundindo-se com a natureza...
Pouco a pouco, o céu foi ganhando os cambiantes do crepúsculo; por sobre a tenda, os pássaros, de ramo em ramo, chilreavam uma melodia, anunciando o final do dia…
Sentou-se então a contemplar o sol mergulhando, lentame
nte, no horizonte. Entretanto, as estrelas acordavam e cintilavam, a coberto da escuridão da lua, em quarto minguante, num espectáculo pleno de magia.
O rugido do mar embalou-lhe o sono.
Quando despertou, correu o fecho éclair e observou o mesmo tom alaranjado vivo no céu, enquanto ouvia a alegria dos pássaros, saudando o novo dia...
Deitava-se e acordava cedo. Dias longos e sem pressa, ao ritmo do sol de Verão e de um calendário sem compromissos.
Mal se despachava, um passeio pela praia meio deserta, um abraço ao Atlântico…

Prazenteiramente sentada numa esplanada, nas horas de maior calor, empreendia uma fantástica viagem, através das páginas do seu livro... Quando calhava, seguindo por uma das estradinhas mais desbotadas do mapa, acontecia uma visita a um farol, um castelo, um museu. Refeições saudáveis e frugais abriam-se à inovação de um sabor regional…
Atenta, observava, de passagem, uma manada de vacas ruminando pacientemente ou um rebanho de ovelhas abrigando-se a uma sombra; um abutre, cruzando velozmente os céus...
Só, na praia, na esplanada, à mesa do restaurante, não passava despercebida e sentia discretos e surpreendidos olhares. Mas ela sabia bem não ser só. E a momentânea solidão, em lugar de lhe pesar, oferecia-lhe a liberdade de dispor de si e decidir o que fazer, a cada momento, aceitando o imprevisto e o prazer da aventura.
Durante aquela meia dúzia de dias, refreou o ritmo violento e estonteante dos últimos meses, pacificou desejos e sonhos, reconciliou-se com o relógio e foi somando descobertas e emoções que as fotografias fariam recordar...
Ao regressar a casa, trazia de volta o generoso mapa que a impulsionara a partir. Este adquirira um ar usado e, nas pontas, ameaçava abrir brechas, mas tornara-se concreto e cheio de vida.
Por sua vez, ela voltara de corpo bronzeado e alma renovada, transbordando de ânimo para uma nova etapa, uma vez acabadas as férias...

15 de Agosto de 2008

4 comentários:

Marcolino disse...

Simplesmente delicioso!

Antonio disse...

Lindo !
Qeu vontade de seguir o exemplo do protagonista (cronista?).
Deu (ao menos) para partilhar um pouco dessa viagem sem plano nem destino e de alguma forma repetetir a sensação de desfrutar de mais uns momentos de férias...virtuais, que as outras já lá vão !!!

Elsa Neves disse...

A natureza e o silêncio. A aventura e a paz. Para recarregar as baterias do corpo e da alma férias melhores não há.

Bom ano lectivo, Manuela! Que a tranquilidade que transborda deste mágico texto se prolongue durante esta nova etapa.

Muitos beijinhos.

Judite disse...

Ah! Agora compreendo a tua decisão! Se foi esta alma nova que te fez evadir e te "embalou" para voos mais altos, sonhando com mundos menos stressantes,como posso,então, continuar a admirar-me? Para a próxima, leva-me contigo