quarta-feira, 7 de maio de 2008

Solidão & Companhia

O mundo em que vivemos, como que obedecendo ao “crescei e multiplicai-vos” (embora por vias sem expressão nos índices de natalidade…) não pára de se desenvolver, com reflexos vivos no nosso quotidiano…

Sendo, como sempre, seres eminentemente sociais, temos a família, os amigos, os colegas de trabalho...; os vizinhos do bairro…, os conhecidos…; aqueles que nos atendem no café, na loja, no banco, na repartição…; os que conhecemos numa formação… numa viagem… num encontro de pesca desportiva ou de fotógrafos… Um mundo de relações: barreira erguida contra a solidão.

Há muito que a necessidade de proximidade física - para que a amizade se faça sentir – deixou de ser um imperativo…

Já os nossos avós corriam para atender um telefonema e escutar uma familiar voz sem corpo… E, através da rádio, podiam sentir-se próximos de um locutor auditivamente presente e fisicamente distante que, ontem como hoje, os acompanhava, pronto para os distrair ou informar…

O cinema e a televisão acrescentaram-lhe a imagem, povoando cada vida de vivas companhias virtuais.

Passo a passo... tique-taque, tique-taque... chegámos à era digital. Esta em que os dedos constroem pontes que nos unem... clique-clique, clique-clique..., a partir de teclados de computadores…

Selos… são agora certamente mais raros e caros, na colecção de qualquer dedicado filatelista. É ver os marcos de correio, um após outro, a serem selados e retirados de locais onde se encontravam implantados há décadas…

Viva o e-mail!

Hoje, rapidamente efectuamos uma operação matemática, sem precisar de recorrer à máquina de calcular… fazemos uma pesquisa, sem a loooooonga e penosa consulta de índices de livros apinhados em estantes… Lemos jornais digitais, obras digitalizadas… Visitamos museus e países… Escolhemos e pagamos viagens… Encomendamos vulgares produtos de mercearia... Evitamos a fila e a burocracia das Finanças, para sabermos informações ou pagar impostos… Obtemos certidões: assim a impressora o permita!... Entregamos requerimentos no “Divórcio na hora”… ou peças processuais para tribunais, no Citius. Tudo em nome de nos facilitar a vida e apressar o seu ritmo…
Viva o Google!
De olhos presos num ecrã, alcançamos todos os sítios, sem sair do lugar…
Confinamo-nos, durante horas, a uma sala, quantas vezes isolados e sem nos sentirmos sós…
Porque a WEB, hoje, possibilita-nos criar redes sociais e interagir… O mundo de cada um pode tornar-se infinitamente mais vasto…
Proliferam blogues… sítios como o Flickr… a rádio social last.fm… o hi-5… inúmeros portais para diversos públicos-alvo; simples questão de interesses e escolha…

Vivemos na era do voyeurismo invertido, dizem. Somos nós que nos damos a ver: com fotografia ou avatar, nome verdadeiro ou pseudónimo (mais ou menos criativo), construímos uma identidade, com a qual fazemos amigos. Anonimato e familiaridade.

Dizem também que comentar e ser comentado provoca stress, causa dependência.
Não necessariamente, digo eu. Usar as tecnologias que, por sorte, estão agora à nossa disposição (e que não cessarão de evoluir) só pode trazer efeitos positivos: assim as usemos com sageza. Circular num ambiente digital, onde acabamos por integrar um grupo social, tão restrito quanto alargado, tão próximo quanto distante, não exige passar a ter um dia-a-dia virtual. Do mesmo modo que beber um café ou um copo de vinho não nos torna dependentes… e usar um cartão de crédito nos não endivida…


Fruir da nossa liberdade implica fazer opções. Reflectir, decidir. Saber viver cada experiência com conta, peso e medida...

Um equilíbrio que desejo manter, ao esperar pelo comentário da Teresa, da Elsa, da Ana, da Fernanda, da Judite, do José ou do António..., no meu blogue…; do Antonimus, do Marco Osório, da Luísa, da Margarida, da Lara ou da Aquaviva… ou do Aurelio, da Boram e da Kitty… (amigos da Grande Lisboa, do Porto e de vários continentes…) - no Flickr… Amigos estes (mais aqueles que não citei) desconhecidos-conhecidos que - tão imprescindíveis como os amigos de carne, osso.. e coração... - fazem parte de mim e me acompanham, ensinam, estimulam, fazem crescer… sentir realizada, feliz!...

Companhia. Sem solidão.

8 comentários:

Ditaur disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Antonio disse...

Finalmente... a crónica anunciada.

Esperava algo de diferente, mas fizeste bem em falar dum tema que não pode ser mais actual.
Na verdade é um elogio, mmoderado mas afirmativo, da modernidade e dos tempos que vivemos, que são os nossos.
Convém todavia, estarmos atentos e viver também os amigos e a vida na sua forma mais "tradicional", e não só nesta solidão "acompanhada".


PS. Vê se juntas os teus amigos "desconhecidos" (os de Almada pelo menos) para se comprove que são de carne e osso também...
qualquer pretexto será bem vindo.

Judite disse...

Gostei de ler.È sempre co prazer que leio os teus escritos.Estás lá tu...Eu é que ainda não consegui "entranhar" esse mundo virtual que tanto te fascina.E, quanto a mim, nada iguala ou substitui a presença física dos amigos.Tê-los ali... mesmo ao pé...até podem estar calados!Mas sentimos-lhe o "pulsar" da sua real presença.Haverá alguma coisa que se compare?No lo creo! Beijos

ManuelaCaeiro disse...

Alto lá!... Alguém duvida que eu prefira o contacto físico...? Os olhos nos olhos, a gargalhada, a conversa serena, a caminhada, o cafezinho, o pôr-do-sol...? Mas a verdade é que sinto grande estima por estes bons amigos que conheci assim... E proclamei-o!...
Talvez eu possa encorajar alguém que, neste momento, se sinta só, tendo meios para usufruir desta Web...
Comigo, não se preocupem! Não escrevi com amargura; pelo contrário. E eu não sou solitária!

Judite disse...

Solitária??! TU?! Só alguém que te conheça muito mal poderá pensar que és uma solitária, no sentido literal do termo.Ao teu lado,os amigos nascem,crescem, florescem, reproduzem-se.Só não morrem, são eternos.E porque tu os cultivas tão bem,, é impossível estares, alguma vez, sozinha.

Elsa Neves disse...

Salvé, Manuela!

Que crónica tão bem construída e, sobretudo, inspirada!

Os meus amigos encontram-se em diversos pontos do país. Distantes, mas sempre presentes, no coração, e ligados pelas redes infinitas dos e-mails, dos blogues, dos telemóveis. Viva a tecnologia! Mas só quando ela se encontra ao serviço da humanidade. E não vice-versa!

Hoje nasceu a filha da minha melhor amiga. Soube da novidade via telemóvel... e publiquei no meu blogue um texto dedicado a este acontecimento especial. Um dia que fica registado na minha memória e no espaço virtual.

Que mundo fantástico este dos blogues. Fascina-me!

Mas, claro, nada como viver a vida "lá fora"... sentir um abraço, ouvir uma gargalhada, olhar nos olhos do nosso interlocutor...

Beijinhos virtuais, mas de uma pessoa real :)

Judite disse...

Reli o que escreveste sobre uma senhora de oitenta anos. A minha mãe tem noventa e dois e hoje fui vê-la mais uma vez.Ajudei a minha irmã a lavar-lhe a cabeça, a por-lhe creme no corpo, a cortar-lhe as unhas... As feridas do corpo estão a cicatrizar.Não me reconheceu, mas a minha irmã conseguiu pô-la a cantar o hino da sua aldeia bem-amada. E, para mim, ouvi-la,foi sentir um pouco do paraíso na terra. Quis partilhar esta sensação contigo.Por seres minha Amiga.

Marcolino disse...

Confesso-lhe que adorei este seu texto. Nele me revi. Nele não encontrei aquela solidão dos que a sentem mesmo no meio das multidões.

Escrevi, em tempos, uma série de textos com estórias ficcionadas, dos nossos dia-a-dia, para publicar em livro. Depois da obra comple e registada, andei de porta em porta, em várias editoras, para que me ajudassem a publica-lo.

Era um sonho meu, quiçá uma realização pessoal que desejava ver materializado. Invariavelmente como resposta obtinha rotundos nãos ou mesmo, sorrisinhos mal disfarçada gozação...

Um dia lembrei-me de me meter a caminho pela internete e aí procurar uma forma de me dar a conhecer, isto é, de publicar diáriamente as minhas estórias captadas no meu dia-a-dia.

Recorrendo a velhos conhecimentos de programação informática resolvi, pura e simplesmente, fazer um local de internete com um nome chamativo onde, diáriamente publicava aquilo que ía escrevendo, pagando para me expor, para ser lido, gozado e insultado por e-mail. Puro masoquismo...?...!

Mas como o espaço até era caro demais, para as minhas posses, resolvi anulá-lo e fazer de mim um blogueiro sem medinhos de continuar a receber, diáriamente, insultos e outros mimos humanoides.

Dei-lhe um titulo chamativo para o url: Desabafando...

Coloquei-lhe um contador de visitantes em simultâneo e um contador geral de visitas.

De ego cheio ía olhando a lástima da evolução dos contadores, sempre na esperança de poder carregar os números, levá-los a uma editora, para lhes mostrar que afinal até era lido e relido.

Mas nada disso aconteceu. Até à data apenas 19 mil e picos visitantes, em cerca de três anitos, a maioria das vezes, quase sempre os mesmos, com necessidade de adormecer, à borla, lá tomam aquela pesada droga, bem mais forte que Xanax, deduzo eu, quando na realidade um minimo de 20.000 exemplares deveria ser posto à venda e não só...

Ego um tanto alquebrado, lá se reergue com vigor quando, como visitante, entro também, e vejo que além de mim está mais um ou mesmo dois.

Sensação de viver, sinto eu...!!!

Mas dá-me a travadinha quando recebo certos comentários em prosa vernácula. Aí, a gostosa sensação de viver, transforma-se em "enterrado vivo" e a sangue frio.

Nesta minha saleta ponho-me a espernear, acompanhando este meu menear de corpo e alma, com palavras nada abonatórias para um Peregrino que deseja ser lido com alguma pompa e circunstância.

Mas o certo, certinho, é que os contadores trabalham, mas trabalham de igual forma como a frieza dos gélidos números estatísticos de exemplares vendidos, em que nunca saberei quem me leu, já que compradores, como a vida está, há que lhes dar uma boleia, como os bons samaritanos o fazem diáriamente.

Foi isto que me trouxe até à Internete. Nunca por nunca a solidão, mas sim esta verdade de me ver de EGO em pleno.

Marco