sábado, 5 de dezembro de 2009

«Rumo à Ciência», no Jardim de Infância


Há meses atrás, contactaram-me. O telefonema vinha do nordeste transmontano, onde um projecto de motivação para a Ciência, destinado aos mais pequenitos,  ganhara forma. Confiavam em mim para escutar, opinar, sugerir... E assim sucedeu. 
As histórias, claro, não podiam deixar de ser adicionadas ao projecto.


Não me esqueci da sugestão feita. E, entretanto, fui procurando obras, em prosa ou em verso, em torno da natureza ou sobre engenhocas e inventos que, enfim, me parecessem adaptáveis à faixa etária dos 4-5 anos e dos temas científicos que se poderiam abordar num projecto com este cariz (sabendo eu bem que não sou perita nem nas Ciências nem no trabalho com esse público-alvo). 


Reuni, no entanto, uns tantos livros que me pareceu poderem ser úteis, de algum modo.


Numa recente e curta viagem lá acima, a bagagem ia reforçada com o resultado dessa despretensiosa e empenhada busca que, por sinal, logo começou a servir. 




Tudo se conjugou para que, no dia 30 de Novembro, eu fosse prestar uma colaboração à professora do Ensino Superior, Cristina Pinto, no «Rumo à Ciência»,  e que, em paralelo com a temática das estações do ano, com o Outono e as suas tonalidades quentes a darem espaço à criatividade, eu fizesse a minha estreia em promoção da leitura, na "Pré-Primária"...





Doze meninas e meninos que se mostraram muito participativos e sempre atentos a uma história da autora Manuela Alves, da Editorial Caminho, Salpico - alcunha de uma criança que cresceu com os avós, numa quinta onde vivia tranquilo e livre, e que um dia foi viver junto dos pais e irmãos, numa cidade barulhenta e apressada... sujeito a uma adaptação difícil, mas conseguida (como é próprio de uma qualquer história... e da vida!)...


Os pequenitos demonstraram e afirmaram gostar... e eu também.

domingo, 22 de novembro de 2009

Livraria para a infância, ilustração para fazer sonhar



Dirigi-me ao espaço onde ia decorrer a formação, nos Casais Brancos, em Óbidos: uma antiga escola primária que, em vez de estar ao abandono ou encarregada de funções em nada compatíveis com a sua missão inicial, é hoje uma bem apetrechada e lindíssima livraria. Melhor: uma livraria dedicada em exclusivo à literatura infantil ou com ela relacionada. Seria concebível um melhor destino?!
E com isto tudo ainda não disse que se trata de uma livraria onde, entre os 10 Direitos do Livreiro, se contam “Conhecer os seus Livros de cor”, “Informar”, “Formar”… e que se auto-denomina “uma casa ao serviço da mediação da leitura, onde moram livreiros mordidos por um bicho de conto”. Quem conhece Mafalda Milhões acredita que terá sido, sem dúvida! Esta dá vida ao projecto da livraria Histórias com Bicho.


A temática da acção de formação girava em torno dos livros, do ler, do contar, da ilustração com  “as cores do A B C”… Uma acção com carácter eminentemente prático, após uma curta abordagem teórica: como a ilustração evoluiu desde o tempo da pequenina gravura a preto e branco, perdida entre letras…; mostra de magníficas ilustrações de alguns ilustradores de renome, da actualidade…; o que a cor sugere, os sentimentos que desperta…; a forma como se combinam as cores para criar determinados ambientes e acordar emoções…
Na realidade, um outro código que é imprescindível aprender a ler, ensinar a ler…


“Habituei-me a retirar do texto toda a informação, esquecendo-me até de olhar para a ilustração…” – confessei com arrependimento, eu que ali fui de livre vontade, decidida a penitenciar-me e a querer saber mais.


“A mim acontece-me ler um livro e esquecer-me de olhar para as palavras”… - sossegou-me a formadora, Danuta Wojciechowska.


E assim me pus a reflectir na equivalente importância de ambos os códigos. Na injustiça de não se considerar o ilustrador como um co-autor. Na insuficiente preparação que tive neste domínio. E quantos professores ainda hoje a terão, lamentavelmente?!


Só sei que nada sei… Mas sinto orgulho nas modestas obras-primas que criei na componente prática da acção: uma composição cromática, a aguarela, e uma ilustração, realizada a partir de pintura a guache e découpage, que assinalam a intensa experiência vivida naquela velha escola, tornando inesquecível a minha passagem por ali. 


Um local a visitar, tanto pela livraria e pelo edifício em si como também pela paisagem, com quilómetros de horizonte, incluindo uma ampla vista sobre a vila de Óbidos…


http://www.obichinhodeconto.pt/  (uma página em remodelação, aqui à mão)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Promoção da leitura: um novo projecto de vida…

Hoje, vou fugir da rotina das crónicas e notícias, histórias e poesias, leituras e citações, melodias, filmes e fotografias…  e vou falar de sonhos bem reais! 


Referir-me a um projecto que idealizei, verbalizei, a que dei forma gráfica, que submeti à aprovação de um Conselho de Docentes e que finalmente iniciei. Ontem, dia 17 de Novembro.


Ler e contar histórias, animar e mediar a leitura, promover leitura autónoma - eis os meus objectivos. 


Este 1º projecto é o “Ler a meias…” 
O público, crianças do 1º Ciclo. O local, uma biblioteca escolar… O lucro, a felicidade de o poder realizar. Esperando que a semente dê fruto...



Natal foi o tema de abertura. Luisa Ducla Soares e o seu “Natal no Hipermercado”, deram o mote para uma breve leitura de catálogos do «Toys ´R Us», observação de postais ilustrados, chegados pelo correio, daqui e dacolá, cartões de Natal, cartas ao Pai Natal… 


Entretanto a história foi-se desenrolando, sem perder o ritmo, suscitando o entusiasmo de todos e de cada um… Bastava ver os olhos das crianças atentas, ouvir os seus risos, as suas exclamações... (Idêntica reacção numa e noutra turma de 3º ano.)




Uma 1ª sessão que contrariou as dúvidas de alguns professores, receosos da perda de tempo que tal actividade poderia constituir para o cumprimento do programa!… Mas que vingou, graças ao entusiasmo e confiança de outros.



Uma sessão que me anima a prosseguir. (Nunca duvidei!)


Um momento mágico que me faz sentir feliz pela opção deste novo projecto de vida…




domingo, 1 de novembro de 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Astérix e Obélix fazem 50 anos


(Uderzo, 81 anos, desenhador, com as suas personagens: Astérix e Obélix)

O 50º aniversário de Astérix e Obélix, será no dia 29 de Outubro, mas a festa começou antes.
No dia 22, em 18 línguas e em muitos países, foi posto à venda O aniversário de Astérix e Obélix - O livro de ouro.


56 páginas de histórias curtas, narradas em pranchas inéditas, para satisfação dos milhões de fãs de todas as idades, espalhados pelo mundo inteiro, atentos à interminável luta dos gauleses contra os romanos, resistindo à invasão...


Uma prenda especial.  (Ver aqui .)
E há mais... "Le blog des irréductibles": http://blog.asterix.com/

Prémio Literário Cidade de Almada



Domingos Lobo, com o seu "Para guardar o fogo - Epitáfios", foi o vencedor da 20ª edição do prestigiado prémio literário Cidade de Almada, modalidade de poesia.
A cerimónia decorreu na noite de 22 de Outubro, no Fórum Romeu Correia.
O escritor premiado, já outras vezes galardoado, está a redigir o seu 4º romance e tem-se igualmente dedicado à poesia, "preguiçosamente", segundo fez crer.
Por tudo o que foi referido, pela análise feita da obra, pelos poemas que tivemos o privilégio de escutar, aguardamos a sua publicação.
Assim que a obra se transforme em objecto-livro, estará disponível nas nossas bibliotecas municipais e escolares.
Almada, Cidade Educadora, empenha-se no apoio à criação e à respectiva difusão, para que "cada vez mais pessoas possam fruir da cultura" - como salientou o Vereador desse pelouro, o Engº António Matos, que realçou o nº crescente de bibliotecas, de leitores registados e de livros requisitados, na autarquia. Um objectivo nobre e bem sucedido; uma obra a prosseguir, com determinação.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antologia Poética


Canção de uma sombra





Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha
janela onde me vou
Debruçar, para ouvir a
voz das coisas,
Eu não era o que sou.



Se não fosse esta
fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou…
E este
sol, que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.


Ah, se não fosse este
luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.


E se a
estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o
vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.


Ah, se não fosse a
noite misteriosa
Que meus olhos de sombra povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.


Sem esta
terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos
montes e arvoredos,
Eu não era o que sou.




Teixeira de Pascoaes



In Andresen, Sophia de Mello Breyner, Primeiro Livro de Poesia, Caminho, 1996, 4ª edição, pp. 118-119





......................




Uma história de vida


(à maneira de... Teixeira de Pascoaes)





Sou a síntese da herança genética que transporto,
do que vi, ouvi, li, aprendi, vivi…
do que recordo e do que esqueci.
Sou o fruto da influência da família, dos professores,
dos meus amigos.


Se?…
Se eu não fosse habitada por tantas histórias e gentes
Eu não era o que sou.


Se eu não tivesse África como raiz da vida
Se não tivesse uma tetravó negra
avós e pai metropolitanos, emigrantes…
Se não tivesse pele branca e olhos azuis
Se não tivesse tido sempre o mar como horizonte do olhar…


Se eu não tivesse sido imbuída de uma cultura cristã
Se não tivesse tido mãe atenta e uma pequenina irmã
Se não tivesse tido um quintal, trepado às árvores,
descosido e rasgado vestidos na subida,
Arriscando um castigo, pois usar calças era proibido…


Se não tivesse aprendido a viver sem luxos
gerindo e gerando recursos
Se não tivesse mudado de continente, de país, de cidade… 
em viagem impregnada de mar, baloiçada num vapor,  dias a fio
Se não me tornasse imigrante…


Se não tivesse estudado o que estudei
Não tivesse partido solitária e autónoma
para uma cidade universitária,
lá longe, algures, algum tempo…
Se não tivesse sido professora durante décadas,
Bibliotecária, alguns anos,
Leitora,
Amadora amante de teatro, cinema, de arte, enfim


Se não gostasse de crianças
Se não conservasse em mim a criança que fui
Se não fosse desatenta e curiosa
Desajeitada e plena de energia
Insegura, querendo ser segura
Determinada a aprender


Se não tivesse sido Mãe repetidamente, uma vez… outra vez…
Se não tivesse sido Avó… uma, mais uma, mais outra vez…
e ainda outra vez virá…


Se não tivesse vez o casamento
o divórcio…
Se não permanecesse aberta à lição da vida
Ao desejo de a deixar fluir… e dela fruir, em plenitude…
Se não tivesse vencido cada dificuldade
como quem enfrenta um desafio
Se não tivesse quem me amparasse no voo…


Se não conservasse a saúde
Se perdesse a alegria
a espontaneidade
a inocência do olhar
a capacidade de sonhar


Se não fizesse projectos que dão sentido à vida
E não mantivesse a sede de evoluir e construir


Se deixasse de fruir da bonança
e de resistir à tempestade
Se deixasse de escrever
conviver
ver
fotografar
querer saber
querer viver
rir…


Se assim fosse
Eu não seria eu!


Eu não era o que sou.


Manuela Caeiro




quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Prémio Nobel da Literatura 2009

A Academia sueca já decidiu o vencedor do ano. Aliás, a vencedora: Herta Muller, escritora alemã de origem romena. A notícia aqui está, à distância de um clique:

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poesia em animação...


José Saramago escreveu, em 2001, o seu único conto infantil...
...que, cinco anos mais tarde, foi transformado numa premiada curta metragem de animação, por Juan Pablo Etcheverry.
Palavras e imagens fundidas numa estética profundamente poética...
A não perder:

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Parabéns, Mafalda!


«Mafalda, a personagem de BD que o argentino Quino idealizou para um anúncio a electrodomésticos, celebra hoje 45 anos no papel de uma das mais improváveis e divertidas comentadoras políticas da actualidade.
De traços simples, cabelo negro farto e muito opinativa, Mafalda surgiu pela primeira vez a 29 de Setembro de 1964 nas páginas do semanário argentino "Primera Plana". Quino, então com 32 anos, nunca adivinharia o sucesso daquelas tiras humorísticas, que se prolongaram por nove anos. (...) À primeira vista, Mafalda podia ser uma menina de seis anos, reguila, desafiadora e descarada, mas depressa se percebeu que da sua boca, dos balões que Quino preenchia, saíam comentários mordazes e pertinentes sobre a ordem do mundo, a luta de classes, o capitalismo e o comunismo, mas também, de forma mais subtil, sobre a situação política e social argentina. (...) A par da atitude de adulto mas com o desarmante discurso de uma criança, Mafalda tinha essa mesma condição de menina, que detestava sopa, adorava os Beatles, não compreendia a guerra no Vietname e tinha monólogos preocupados em frente a um globo terrestre. » In: http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/538454
«No passado dia 30 de Agosto, um discreto senhor de 77 anos sentou-se num banco da Rua do Chile, 73, em Buenos Aires, ao lado da estátua de uma menina em tamanho natural (...)
O senhor de idade era o desenhador Quino, e a menina da estátua, Mafalda, a sua grande criação, que hoje faz 45 anos. E, no edifício junto ao qual a estátua foi inaugurada, viveu Quino (aliás, Joaquín Salvador Lavado) durante a sua infância. (...) Em 1973, e em plena crista da onda de popularidade, Quino decidiu parar de desenhar Mafalda, para evitar cair na repetição e na rotina, e para se dedicar ao desenho de humor e à caricatura. (...) Mafalda continua viva como nunca, e os seus álbuns a esgotar edições. E agora, aos 45 anos, até já tem uma estátua ao pé do prédio onde viveu o "pai" Quino quando era miúdo como ela.» http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1375374

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um novo ano...







O Outono vem chegando de mansinho.
Empalidece o sol, soltam-se as folhas douradas embaladas pelo vento..., as folhas dos livros e cadernos novos sussurram pedidos de atenção...
É um novo ano lectivo que começa.

Tempo de aprender.
Numa escola para todos, sem olhar a sexo, origem social, país natal...
Universal e obrigatória.
Uma conquista do nosso tempo.
Uma aposta vital.



Quase esquecemos que nem sempre assim foi!

A velhinha escola António José Gomes, da Cova da Piedade,

de 1911, hoje transformada em museu, destinava-se exclusivamente ao sexo masculino. Haveria outra para o sexo feminino, pensarão. É verdade, mas não com esta dignidade, acanhada no 1º andar de um prédio... e destinada apenas àquelas cujos pais consideravam que valia a pena "pôr a estudar". 
Ainda assim, aí estudavam muitas meninas, da 1ª à 4ª "classes", entregues à atenção constante de uma única professora, Conceição Sameiro Antunes, sem dúvida uma das precursoras heróicas da aplicação do método de ensino diferenciado...
Ter estudado abriu-lhes as portas do futuro. Reconhecemo-lo hoje, com naturalidade. Assim se foram esbatendo as diferenças de género; assim se tem construído a igualdade.


Hoje em dia, acreditamos que cada professor lecciona um único ano de escolaridade... Ilusão! Cada turma tem alunos mais e menos adiantados, mais e menos motivados, alunos estrangeiros, alguns com necessidades educativas especiais... Subgrupos muito diversos, condições adversas. Exigindo uma resposta construída de dedicação, criatividade, empenhamento... Muito esforço. Nem sempre valorizado. Nem sempre bem sucedido.

Às famílias compete um papel diferente, igualmente exigente: conciliar o seu horário profissional (mais o tempo de deslocação) com os toques de campainha das crianças, com a necessária disponibilidade para cuidar delas e as apoiar... Tarefa hercúlea. Que vale o esforço!

Afinal, é na criança que reside a chave do sucesso de aprender.
Não basta ensinar!...
O estudante precisa de reconhecer a importância do saber, dar valor ao trabalho, sentir confiança e auto-estima. Por fim, tudo será (mais) fácil...

O insucesso terá um único culpado?
A resposta chega em tom de humor (surripiado ao blogue "A malta do Montijo" http://amaltadomontijo.blogspot.com/ ):



Recorrendo à gíria escolar, é tempo de desejar - aos jovens, seus pais, professores e demais trabalhadores das escolas - um bem sucedido e FELIZ ANO NOVO!... 

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Verdade e mentira da fotografia... (Citação)


«(...) Dizem que as fotografias não mentem, mas essa é a maior mentira que já ouvi.
E foi assim, abrindo a gaveta à procura de qualquer coisa, que, sem aviso, me escorregou para as mãos uma fotografia tua tirada durante aqueles quatro dias. Fiquei a olhar-te longamente, longa, longa, longamente. Longamente me fui dando conta de que tudo aquilo acontecera mesmo: eu não o sonhara, durante vinte anos.
Nisso, quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá, as fotografias não mentem - esse instante existiu mesmo. Porém, a mentira consiste em pensar que esse instante é eterno, que dois amantes felizes e abraçados numa fotografia ficaram para sempre felizes e abraçados.
É por isso que não gosto de olhar para fotografias antigas: se alguma coisa elas reflectem, não é a felicidade, mas sim a traição - quando mais não seja a traição do tempo, a traição daquele mesmo instante em que ali ficámos aprisionados no tempo. Suspensos e felizes, como se a felicidade se pudesse suspender carregando no botão "pause" no filme da vida. (...)»

Miguel Sousa Tavares, No teu deserto, Oficina do Livro, 2009

domingo, 13 de setembro de 2009

Leituras de Verão...


Impõe-se um comentário aos livros lidos. E não basta dizer "Gostei" ou, menos ainda, "É bonito" ou coisa do género. Já no Liceu, há muitos, muitos anos, aprendi que não, isso nunca!...
Acontece que não estou a fazer nenhum trabalho escolar e muito menos uma crítica para um qualquer meio de comunicação social... Não se trata de trabalho! Sorte a minha!...

O que irei referir em torno do tema que livremente escolhi é decisão pessoal. Despretensiosa, como sempre. Simples apontamentos.

Questiono-me sobre a intenção com que falo das minhas leituras de Verão: quatro livros que saltaram um tanto ao acaso de entre pesadas pilhas em fila de espera, vendo consumado o paciente e mudo desejo de que chegasse a sua vez. Casualmente, escolhi dois autores portugueses, dois estrangeiros, todos contemporâneos, vivos.

Antes do mais, este meu acto de escrita constitui um momento de síntese sobre as cerca de mil páginas lidas. Não nego igualmente a intenção de, eventualmente, por este meio, colaborar na respectiva divulgação...
Não será essa, afinal, a vocação de um blogue?




A gaiola de ouro, de Shirin Ebadi, explica-nos a História recente do Irão. As Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa, fala-nos da História recente do Peru.
Se dantes talvez adormecêssemos ao ler os manuais de História, agora temos a oportunidade de saber mais, sem esforço e com prazer...

Ambos os romances tecem uma história que nos prende a atenção e nos ajuda a compreender a política do mundo em que vivemos, enquanto as personagens destes dois romances se movem por entre a ficção, bem assentes na realidade da nossa época, na sua terra.

Mario Vargas Llosa apimenta a narrativa em torno das relações de uma "menina má" e de um "menino bom", deixando o leitor sempre em suspenso, tentando descortinar o surpreendente desfecho daquela inexplicável história de amor... tão particular quanto qualquer outra.

Shirin Ebadi, advogada e activista dos direitos humanos, Nobel da Paz em 2003, adopta uma atitude de denúncia: centra a sua história numa família, cada um dos irmãos seguindo um ideal de vida e um percurso diferente, cada qual preso em seu beco sem saída... como o seu país natal.

Nos romances nacionais, a História não é tema de eleição. Naturalmente.

Manuel Córrego (pseudónimo literário de Manuel Pereira da Costa) é advogado ligado às Letras, por diversas vezes galardoado. O seu livro Vento de Pedra foi distinguido com o prémio literário Ordem de Advogados, 2008.
A ênfase deste seu romance é dada à condição humana, com destaque para a condição feminina, em gerações sucessivas de um passado recente, no norte do país. Muitas histórias se entrelaçam no seu fio condutor. As peripécias sucedem-se e os valores questionados não nos deixam sentir indiferentes. Uma narrativa densa e bem escrita conduzida por narradores que alternam sem aviso, o que nos espicaça a atenção e a curiosidade, até ao inevitável final.

Em No teu deserto, Miguel Sousa Tavares evoca memórias, mais ou menos romanceadas. Relata uma viagem pelo deserto, em que "ele" segue com duas máquinas fotográficas e outra de filmar, em riste, decidido a respeitar o compromisso de fazer reportagens para periódicos e televisão, tendo por companhia, meio acidental, uma jovem com quem con-viveu intensamente um «quase romance».
Surpreendentemente, o desenlace é desvendado logo de início, mas a expectativa não decresce pois as circunstâncias e motivos conservam o seu segredo e a curiosidade acelera, pelo contrário, o ritmo de leitura, na esperança de descobrirmos rapidamente o que falta saber (tanto mais que o livro é curto... e se lê bem...)

Quatro livros, quatro convites à leitura:
  • Córrego, Manuel, Vento de Pedra, Sopa de Letras, 2008
  • Ebadi, Shirin, A gaiola de ouro, A Esfera dos Livros, 2009
  • Llosa, Mario Vargas, Travessuras da menina má, Dom Quixote, 2006
  • Tavares, Miguel Sousa, No teu deserto, Oficina do Livro, 2009
Pessoalmente, não saberei aconselhar qual deles não perder... nem por qual começar...
A cada um, a sua livre opção. Fruto do acaso ou da vontade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

«Quem inventou o mês de Agosto?!...»


Ferragudo. Agosto. Tarde de sol tórrido. Raros se atrevem a mergulhar no rio Arade. Maré cheia, águas relativamente límpidas, mas as sujas margens desaconselham o banho apetecido. Que calor!

Um beco sem saída desemboca num pontão junto à foz do rio. Em frente, o mar. Na outra margem, Portimão.
A placa é clara: trânsito proíbido, excepto a residentes. Escassos veículos ousam a transgressão. Apenas peões se permitem aí sentir a brisa do Oceano, talvez pescar... ou simplesmente sentarem-se numa das esplanadas, beber uma água fresca ou tomar uma refeição, ainda que a desoras... De facto, as convidativas mesas estão sempre postas. Em enormes grelhadores, as brasas ardem em permanência, prontas para saborosos petiscos. Quanto calor!

Nesta latitude, Agosto é sinónimo de Verão. Agosto é praia. Mar, sal e sol. Costa de braços abertos para todo um país em férias. Para os nossos emigrantes que voltam, ano a ano. E não só: também para um bom punhado de espanhóis, ingleses e demais turistas "multinacionais"...

Quem inventou Agosto povoou cada pequena baía, fazendo crescer infinitamente uma antiga aldeia de pescadores... Encheu as arribas de casas que em Agosto abrem janelas e estendem toalhas salgadas ao sol...

Quem inventou Agosto engarrafou com filas de carros cada caminho que desemboca numa praia, para alegria de quem tem de trabalhar na grande cidade, mais a norte... Não a sul.
Gente, gente, gente... Calor!...

Quem inventou Agosto treinou a paciência de quem conduz e procura estacionar um automóvel... ou a de quem aguarda pacientemente ser atendido numa qualquer fila, em pastelaria, restaurante, minimercado, farmácia ou correio... suportando o calor. A custo.
Tudo sem importância quando finalmente se estende a toalha no areal e se mergulha na praia. Frescura!...

Agosto inventado, tem vencimento extra. Saldos. Passeios. Convívio. Tempo livre. Repouso. Preguiça subsidiada. Que o calor amplia.

«Quem inventou o mês de Agosto?!» foi uma pergunta que não espelhava alegria. Pelo contrário, soava a interjeição de grande desânimo. Quem assim falava era a empregada de mesa de um daqueles restaurantes, enquanto repunha uma mesa pela enésima, digo, pela milionésima vez, naquele tórrido dia de Agosto, sentindo o cansaço de um dia, aliás, de todo um mês que nunca mais chegava ao fim.
Com a fadiga de quem trabalha para proporcionar férias a quem as pode gozar.

Talvez ela suspire hoje de alívio, agora que as auto-estradas já registaram a avalanche do regresso a casa.

Talvez a Economia tenha sido relançada, assim esperamos! Mas provavelmente tal não trará grande reflexo para as suas magras finanças...

Para a «história» ficarão o sabor a mar, as recordações e as fotografias dos veraneantes. O calendário aguardando o próximo Estio. O desejo de regressar.


domingo, 19 de julho de 2009

Fantasias da Lua...

Faz hoje 40 anos que Neil Armstrong desceu da Apolo 11, pisando a Lua pela primeira vez, aí dando então "um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a Humanidade". De facto.

Assistimos pela televisão, a preto e branco...
Quem não tinha televisor, acorreu a casa de um generoso vizinho mais abonado, com posses para pagar o aparelho e a taxa mensal, ou então ao café mais próximo... ou talvez se tenha mesmo limitado a ver, incapaz de ouvir, de olhos postos numa montra de electrodomésticos com uma ou outra TV ligada, como técnica de vendas...

Um feito que fazia crescer o entusiasmo.

Grassava alguma incredulidade: «Será que foram dar a outro lado e julgam que estão na Lua?...» Dúvidas de gente de boa-fé.

Com a desconfiança própria dos homens informados que não encontram respostas para as suspeitas que teimam em desvendar, há quem ainda hoje reúna provas para defender a tese de fraude e conspiração, em que estariam envolvidos Richard Nixon, a NASA e Stanley Kubrick...
O Homem não teria chegado à Lua em 20 de Julho de 1969?!

Não creio.

Há aqueles que não escondem outro tipo de preocupações: «Os Verões já não são iguais, faz frio em vez de calor ou o inverso, chove demais ou de menos?... Desde que os homens se meteram a caminho da Lua...»
Mexeram com as nuvens e, obviamente, influenciaram a Meteorologia?!...

Também não creio.


Porém, tenho crenças.

A Lua é um satélite fiel e influente na nossa vida.
Poderá continuar a receber visitantes, exibir bandeiras, aceitar sondas e câmaras... dispensar pedaços de si que permitirão o avanço da Astronomia e da Ciência, em geral... tornar-se-á cada vez menos misteriosa para o Homem.

Contudo, conservará os seus mistérios...
Assim permanecendo cheia de encanto e magia.
A um ritmo certo, crescerá e minguará... será pródiga de luar e voltará a ocultar-se...
Sucederá ao Sol.
Manter-se-á ligada à noite, ao sonho, à inspiração.
Farta em fantasia.
Como nos habituou.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Um livro de peso...


Tem 4032 páginas, uma lombada de 32,2 cm e pesa mais de 8 Kg este livro com todas as obras de Agatha Christie cuja personagem é Miss Marple: 12 romances e 20 contos.
É um record mundial, protagonizado recentemente pela HarperCollins, da Grã-Bretanha.
A primeira (e talvez única) edição foi de 500 exemplares, sendo o custo de cada livro de £ 1000,00 (mil libras), isto é, aproximadamente € 1200,00 (mil e duzentos euros).
É certamente uma leitura indicada para gente endinheirada, forte e musculada, com vontade férrea de ler...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Para uma antologia poética

O homem, bicho da Terra tão pequeno chateia-se na Terra lugar de muita miséria e pouca diversão, faz um foguete, uma cápsula, um módulo toca para a Lua desce cauteloso na Lua pisa na Lua planta bandeirola na Lua experimenta a Lua coloniza a Lua civiliza a Lua humaniza a Lua. Lua humanizada: tão igual à Terra. O homem chateia-se na Lua. Vamos para Marte — ordena a suas máquinas. Elas obedecem, o homem desce em Marte pisa em Marte experimenta coloniza civiliza humaniza Marte com engenho e arte. Marte humanizado, que lugar quadrado. Vamos a outra parte? Claro — diz o engenho sofisticado e dócil. Vamos a Vênus. O homem põe o pé em Vênus, vê o visto — é isto? idem idem idem. O homem funde a cuca se não for a Júpiter proclamar justiça junto com injustiça repetir a fossa repetir o inquieto repetitório. Outros planetas restam para outras colônias. O espaço todo vira Terra-a-terra. O homem chega ao Sol ou dá uma volta só para tever? Não-vê que ele inventa roupa insiderável de viver no Sol. Põe o pé e: mas que chato é o Sol, falso touro espanhol domado. Restam outros sistemas fora do solar a col- onizar. Ao acabarem todos só resta ao homem (estará equipado?) a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar civilizar humanizar o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de con-viver. Carlos Drummond de Andrade, In As Impurezas do Branco, José Olympio, Graña Drummond, 1973

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Estes pobres...

Acontece todos os dias. Fazem fila. Movem-se norteados pelo objectivo da sobrevivência. Querem passar despercebidos. Aguardam. Resignam-se a aceitar apoio, uma cama, uma refeição gratuita. São os novos pobres. Têm habilitações literárias, muitas vezes de nível superior. Um currículo experientado. Trabalharam anos a fio. Viram as suas empresas falir, os seus postos de trabalho extinguir-se, fugir o seu ganha-pão. Subitamente. Viviam condignamente, desafogadamente. Hoje, numa idade que soma anos, sentem-se capazes de tudo, incapazes para tudo. Agora, sobra tempo para deitar contas à vida. Todo o futuro é para reequacionar. Talvez a sós. Que a família não suspeite da má sorte. Com sorte, restam-lhes um magro subsídio de desemprego, poupanças a rarear... Uma baixa médica, uma esperança de reforma antecipada. Vender algo que não compraram barato, mesmo ao desbarato. É preciso viver a curto prazo. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa. A depressão ronda. É preciso resistir. Sem sucumbir. A causa é citada a cada passo: Crise. É a Crise. Sim, a crise da Economia. Uma crise que tudo justifica, sem justificação. Uma crise a nível global, mas não geral. Basta ver as gritantes desigualdades sociais: os que têm e os que não têm direito a subsídio de desemprego; as pensões irrisórias e as outras, chorudas; os salários mínimos e aqueles outros, milionários... A mais paupérrima miséria de quem ignora o que fazer para pedir socorro, a par da frenética ganância de quem tudo tem e quer cada vez mais. Não olhando a meios para atingir fins. Sem sobressaltos de consciência pela necessidade de justiça social. Indiferente a solidariedade social. São muitos os braços inertes que tanto ainda poderiam construir! Demasiada a inteligência desaproveitada! Excessiva, a energia desperdiçada! Esmagadora, esta selvática Economia. “Sempre assim foi, sempre assim será.”- dirão muitos. “Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar” – cantava uma respeitável voz resistente. Certo é que não é possível aceitarmos este caos como algo pacífico e sem remédio. Faltam oportunidades para quem ainda muito pode contribuir com as suas competências e apetências para um mundo melhor. Inventemos saídas para a Crise. Aposte-se na Educação. Na Saúde (“...um bem-estar social e mental...”, segundo a Organização Mundial de Saúde. Como estar mais de acordo?) Aposte-se na Justiça. Recrie-se esta sociedade injusta que prescinde de alguém humana e socialmente útil, como de uma peça enferrujada e sem préstimo... colocada à margem, apenas, vá lá (o que não chega para nos tranquilizar!) com direito à sopa dos pobres...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Escutando Glenn Miller...



Glenn Miller nasceu nos Estados Unidos, há 105 anos (1/3/1904). Tocava trombone, na era do swing, e dirigiu famosas "big band", entre 1939 e 1942.
Ingressou no exército americano durante a II Guerra Mundial e dirigiu a Orquestra da Força Aérea.
Morreu jovem, em 1944, num dramático acidente aéreo.
Há quem afirme que ele foi o paradigma da música popular do seu tempo.

Esta postagem pretende ser uma homenagem...

sábado, 2 de maio de 2009

Foi baptizado, o Tomás...

Logo para começar, tropeço no título. Baptizado ou batizado? Com "pê" ou sem ele?... Opto pela convenção anterior ao novo acordo ortográfico, com consoante muda, mas muito viva e cheia de História. Vendo bem, o acordo não entrou ainda em vigor. Infelizmente, não irá resolver a uniformidade da língua portuguesa no mundo, o que seria a sua mais-valia. Adiante.


Salto prontamente para a personagem principal: o mais novo membro da família, o Tomás. Com apenas quatro meses, reuniu em torno de si, numa bonita igrejinha de Setúbal, meia dúzia de crianças e três dezenas de familiares e amigos, todos animados para assistir ao seu baptizado.

Que ganhou ele com o seu baptismo? «Ficou livre do "pecado original", passou a ser membro da comunidade cristã e tornou-se filho de Deus, a quem, doravante, pode chamar Pai.» - esclareceu o jovem padre.

Este, realmente jovem, seguiu criteriosamente, um a um, os rituais da cerimónia do baptismo e preparou cuidadosamente o seu sermão. Foi explicando, com rigor, a razão de ser de todo o habitual cerimonial. Apimentou o discurso ao falar sobre a facilidade de se ter um filho, com afirmações ligeiras de quem carece de experiência de vida. Compreensível, lamentavelmente.

Como lhe competia, o senhor padre fez questão de tudo orientar bem como de vigiar o cumprimento de regras, na sua casa de Deus. Intransigentemente. Pregou, literalmente, vários "sermões", com a autoridade de um "magister dixit". Faltou-lhe a bonomia de quem desculpa um atraso, de quem compreende a alegria simples de um encontro há muito esperado, de quem entende o precipitado entusiasmo daquele que se instala num lugar menos próprio para captar o melhor ângulo para uma fotografia, num momento especial...

Esperar-se-ia que ele, na sua igreja, pudesse ser como um pai tolerante e compreensivo ou como um anfitrião que acolhesse simpaticamente as suas visitas. Desejar-se-ia que ele fizesse sentir ali bem todos e cada um; que fizesse crescer em alguns daqueles que raramente o visitam o desejo de lá voltar; que talvez assim aumentasse o "rebanho" cada vez mais disperso por novas igrejas, hoje sediadas em caves, garagens, antigas lojas, velhos cinemas, em espaços mais ou menos nobres, espalhados por este e por aquele mundo fora...

Porquê toda esta debandada, quando tanta gente é explorada por corruptos autodenominados "ministros de Deus"? Talvez por uma fé pouco racional, por uma esperança... Por falsas promessas, talvez... Certamente porque a sua nova igreja os acolhe, os escuta, os faz participar e sentir-se parte de uma comunidade.

Esta velha igreja (em que fui baptizada e educada), por muito que custe admitir, tem de reformular objectivos, repensar estratégias, renovar métodos; formar padres com competências sociais e humanas para novos tempos. Se quiser cativar e acolher.

O Tomás, por enquanto, mantém-se imperturbável perante a aparente carência de bondade divina de um representante de Deus na Terra.

Pachorrento e sorridente, ele aceitou cada ritual do seu baptismo com a boa disposição de um bebé saudável, alimentado e bem cuidado, criado com amor no seio de uma família feliz.

Coerente, o Tomás manteve-se sereno ao longo do agradável dia de festa que a todos proporcionou.
Quando um dia mais tarde vir as suas fotografias, só esta alegria irá ressaltar.
O resto é espuma. Não importa.

Momento de poesia: «Poema à mãe»

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.


Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.


Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.


Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.


Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.


Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.


Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,

E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!


Olha - queres ouvir-me?
-Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;


Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;


Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...


Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.


Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.


Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade



Podemos ouvir este poema, lido por Nuno Miguel Henriques: