sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

De Nordeste a "Oriente", porque é Natal...


A camioneta de carreira avançava, tão apressada quanto podia. Partira com significativo atraso. O limpa-neves demorara longo tempo a tornar as vias transitáveis… Só então saíra finalmente da estação o primeiro carro e entretanto todo o serviço se acumulara. Para mais, sendo época de muitos passageiros ou não fosse antevéspera de Natal.
A estrada nada fazia temer, mas o gelo que ainda se amontoava nas bermas aconselhava prudência ao motorista.
Os passageiros do Norte ignoravam, indiferentes, a paisagem. Tão pouco se deixavam surpreender pelo entusiasmo dos do Sul que, clic, clic…, não resistiam a mais uma fotografia que logo seria partilhada por telemóvel… E em breve legendavam-na, de viva voz: “Caiu tanta neve! Está tudo branco! Tão bonito!...” Tão maravilhados se sentiam que se esqueciam do desejo de chegar ao destino.
Os outros não. Na sua grande maioria, eram idosos, muito idosos. Seguiam viagem com vontade de permanecer em suas casas, junto da braseira, tranquilamente. Vinham de uma aldeia perdida na serra, já cansados de transbordos e longas esperas nas paragens, carregando sacos e saquinhos de mão, mais o saquito de viagem, uma caixa de papelão e outro saco de rede com couves da horta para a Consoada… Não fosse a insistência dos filhos bem como o desejo de estar junto deles no Natal e, seguramente, não estariam ali. Cheios de vontade e pressa de alcançar o destino, iam-se lamentando da viagem: «Eles, sim, eles é que deviam vir cá acima, como é costume…  Mas não quiseram vir, as estradas estão perigosas, as crianças… Eu é que já não tenho idade para isto!...»
Neste ponto, estavam todos de acordo.


O Sol mal conseguira romper as densas nuvens, durante aquele curto dia de Inverno. Agora despedia-se. Intensificavam-se o cansaço e a impaciência, à medida que anoitecia. Disso eram prova as constantes espreitadelas para o relógio e o contínuo cálculo do atraso previsto que, apesar da chuva e das  obrigatórias e necessárias paragens, por sorte se ia tornando cada vez mais reduzido.
Por fim, a estação Oriente - o final da viagem. Carros parados com luzes de perigo, braços à espera de pais idosos e dos sacos e saquinhos, caixas de papelão e sacos de rede com couves da terra para a Consoada - que subitamente se espalharam no cais, mal estacionou o autocarro e foi aberta a bagageira, a abarrotar…
Passos apressados. Vozes alegres. Dúvidas desfeitas. Lágrimas felizes. Abraços. Rodas chiando. Sacos arrastados com esforço. Ensaios para tudo caber nos porta-bagagens. Trás! Objectivo atingido, num abrir e fechar de olhos.
Despindo singelos casacos negros de malha, um a um iam entrando nos carros dos familiares que os haviam esperado e que rapidamente iam partindo. 
«Chegámos!» - pensavam, felizes, quase esquecidos do cansaço.
O cais regressava por fim à calma fria. Outros passageiros chegariam mais tarde. Tudo por um convívio familiar, em mais um Natal...

3 comentários:

altina disse...

Manuela,é comovente ler o teu texto, é pura imagem, as palavras dizem, ilustram e fazem viver a cena.
És muito criativa, sabe bem ler o que escreves, sabe bem ler o teu pensamento, é bom ter-te a meu lado.
Altina

Joaquim Chaves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joaquim Chaves disse...

COUVES DA TERRA PARA A CONSOADA
Esta não é própriamente uma “crónica da terra ardente”.
Antes uma crónica da terra gelada, fria.
Das casas quentes. Das famílias unidas pelo natal.
Muitos pensam para si, o último natal
Para outros é o primeiro das prendas!
Para todos é mais um natal, o reencontro.
Linda crónica, muita observação, excelente prosa.
Lindas fotos do frio, da velocidade, do gelo.
FESTAS FELIZES