terça-feira, 30 de junho de 2009

Um livro de peso...


Tem 4032 páginas, uma lombada de 32,2 cm e pesa mais de 8 Kg este livro com todas as obras de Agatha Christie cuja personagem é Miss Marple: 12 romances e 20 contos.
É um record mundial, protagonizado recentemente pela HarperCollins, da Grã-Bretanha.
A primeira (e talvez única) edição foi de 500 exemplares, sendo o custo de cada livro de £ 1000,00 (mil libras), isto é, aproximadamente € 1200,00 (mil e duzentos euros).
É certamente uma leitura indicada para gente endinheirada, forte e musculada, com vontade férrea de ler...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Para uma antologia poética

O homem, bicho da Terra tão pequeno chateia-se na Terra lugar de muita miséria e pouca diversão, faz um foguete, uma cápsula, um módulo toca para a Lua desce cauteloso na Lua pisa na Lua planta bandeirola na Lua experimenta a Lua coloniza a Lua civiliza a Lua humaniza a Lua. Lua humanizada: tão igual à Terra. O homem chateia-se na Lua. Vamos para Marte — ordena a suas máquinas. Elas obedecem, o homem desce em Marte pisa em Marte experimenta coloniza civiliza humaniza Marte com engenho e arte. Marte humanizado, que lugar quadrado. Vamos a outra parte? Claro — diz o engenho sofisticado e dócil. Vamos a Vênus. O homem põe o pé em Vênus, vê o visto — é isto? idem idem idem. O homem funde a cuca se não for a Júpiter proclamar justiça junto com injustiça repetir a fossa repetir o inquieto repetitório. Outros planetas restam para outras colônias. O espaço todo vira Terra-a-terra. O homem chega ao Sol ou dá uma volta só para tever? Não-vê que ele inventa roupa insiderável de viver no Sol. Põe o pé e: mas que chato é o Sol, falso touro espanhol domado. Restam outros sistemas fora do solar a col- onizar. Ao acabarem todos só resta ao homem (estará equipado?) a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar civilizar humanizar o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de con-viver. Carlos Drummond de Andrade, In As Impurezas do Branco, José Olympio, Graña Drummond, 1973

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Estes pobres...

Acontece todos os dias. Fazem fila. Movem-se norteados pelo objectivo da sobrevivência. Querem passar despercebidos. Aguardam. Resignam-se a aceitar apoio, uma cama, uma refeição gratuita. São os novos pobres. Têm habilitações literárias, muitas vezes de nível superior. Um currículo experientado. Trabalharam anos a fio. Viram as suas empresas falir, os seus postos de trabalho extinguir-se, fugir o seu ganha-pão. Subitamente. Viviam condignamente, desafogadamente. Hoje, numa idade que soma anos, sentem-se capazes de tudo, incapazes para tudo. Agora, sobra tempo para deitar contas à vida. Todo o futuro é para reequacionar. Talvez a sós. Que a família não suspeite da má sorte. Com sorte, restam-lhes um magro subsídio de desemprego, poupanças a rarear... Uma baixa médica, uma esperança de reforma antecipada. Vender algo que não compraram barato, mesmo ao desbarato. É preciso viver a curto prazo. Qualquer coisa serve. Qualquer coisa. A depressão ronda. É preciso resistir. Sem sucumbir. A causa é citada a cada passo: Crise. É a Crise. Sim, a crise da Economia. Uma crise que tudo justifica, sem justificação. Uma crise a nível global, mas não geral. Basta ver as gritantes desigualdades sociais: os que têm e os que não têm direito a subsídio de desemprego; as pensões irrisórias e as outras, chorudas; os salários mínimos e aqueles outros, milionários... A mais paupérrima miséria de quem ignora o que fazer para pedir socorro, a par da frenética ganância de quem tudo tem e quer cada vez mais. Não olhando a meios para atingir fins. Sem sobressaltos de consciência pela necessidade de justiça social. Indiferente a solidariedade social. São muitos os braços inertes que tanto ainda poderiam construir! Demasiada a inteligência desaproveitada! Excessiva, a energia desperdiçada! Esmagadora, esta selvática Economia. “Sempre assim foi, sempre assim será.”- dirão muitos. “Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar” – cantava uma respeitável voz resistente. Certo é que não é possível aceitarmos este caos como algo pacífico e sem remédio. Faltam oportunidades para quem ainda muito pode contribuir com as suas competências e apetências para um mundo melhor. Inventemos saídas para a Crise. Aposte-se na Educação. Na Saúde (“...um bem-estar social e mental...”, segundo a Organização Mundial de Saúde. Como estar mais de acordo?) Aposte-se na Justiça. Recrie-se esta sociedade injusta que prescinde de alguém humana e socialmente útil, como de uma peça enferrujada e sem préstimo... colocada à margem, apenas, vá lá (o que não chega para nos tranquilizar!) com direito à sopa dos pobres...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Escutando Glenn Miller...



Glenn Miller nasceu nos Estados Unidos, há 105 anos (1/3/1904). Tocava trombone, na era do swing, e dirigiu famosas "big band", entre 1939 e 1942.
Ingressou no exército americano durante a II Guerra Mundial e dirigiu a Orquestra da Força Aérea.
Morreu jovem, em 1944, num dramático acidente aéreo.
Há quem afirme que ele foi o paradigma da música popular do seu tempo.

Esta postagem pretende ser uma homenagem...

sábado, 2 de maio de 2009

Foi baptizado, o Tomás...

Logo para começar, tropeço no título. Baptizado ou batizado? Com "pê" ou sem ele?... Opto pela convenção anterior ao novo acordo ortográfico, com consoante muda, mas muito viva e cheia de História. Vendo bem, o acordo não entrou ainda em vigor. Infelizmente, não irá resolver a uniformidade da língua portuguesa no mundo, o que seria a sua mais-valia. Adiante.


Salto prontamente para a personagem principal: o mais novo membro da família, o Tomás. Com apenas quatro meses, reuniu em torno de si, numa bonita igrejinha de Setúbal, meia dúzia de crianças e três dezenas de familiares e amigos, todos animados para assistir ao seu baptizado.

Que ganhou ele com o seu baptismo? «Ficou livre do "pecado original", passou a ser membro da comunidade cristã e tornou-se filho de Deus, a quem, doravante, pode chamar Pai.» - esclareceu o jovem padre.

Este, realmente jovem, seguiu criteriosamente, um a um, os rituais da cerimónia do baptismo e preparou cuidadosamente o seu sermão. Foi explicando, com rigor, a razão de ser de todo o habitual cerimonial. Apimentou o discurso ao falar sobre a facilidade de se ter um filho, com afirmações ligeiras de quem carece de experiência de vida. Compreensível, lamentavelmente.

Como lhe competia, o senhor padre fez questão de tudo orientar bem como de vigiar o cumprimento de regras, na sua casa de Deus. Intransigentemente. Pregou, literalmente, vários "sermões", com a autoridade de um "magister dixit". Faltou-lhe a bonomia de quem desculpa um atraso, de quem compreende a alegria simples de um encontro há muito esperado, de quem entende o precipitado entusiasmo daquele que se instala num lugar menos próprio para captar o melhor ângulo para uma fotografia, num momento especial...

Esperar-se-ia que ele, na sua igreja, pudesse ser como um pai tolerante e compreensivo ou como um anfitrião que acolhesse simpaticamente as suas visitas. Desejar-se-ia que ele fizesse sentir ali bem todos e cada um; que fizesse crescer em alguns daqueles que raramente o visitam o desejo de lá voltar; que talvez assim aumentasse o "rebanho" cada vez mais disperso por novas igrejas, hoje sediadas em caves, garagens, antigas lojas, velhos cinemas, em espaços mais ou menos nobres, espalhados por este e por aquele mundo fora...

Porquê toda esta debandada, quando tanta gente é explorada por corruptos autodenominados "ministros de Deus"? Talvez por uma fé pouco racional, por uma esperança... Por falsas promessas, talvez... Certamente porque a sua nova igreja os acolhe, os escuta, os faz participar e sentir-se parte de uma comunidade.

Esta velha igreja (em que fui baptizada e educada), por muito que custe admitir, tem de reformular objectivos, repensar estratégias, renovar métodos; formar padres com competências sociais e humanas para novos tempos. Se quiser cativar e acolher.

O Tomás, por enquanto, mantém-se imperturbável perante a aparente carência de bondade divina de um representante de Deus na Terra.

Pachorrento e sorridente, ele aceitou cada ritual do seu baptismo com a boa disposição de um bebé saudável, alimentado e bem cuidado, criado com amor no seio de uma família feliz.

Coerente, o Tomás manteve-se sereno ao longo do agradável dia de festa que a todos proporcionou.
Quando um dia mais tarde vir as suas fotografias, só esta alegria irá ressaltar.
O resto é espuma. Não importa.

Momento de poesia: «Poema à mãe»

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.


Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.


Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.


Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.


Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.


Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.


Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,

E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!


Olha - queres ouvir-me?
-Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;


Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;


Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...


Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.


Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.


Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade



Podemos ouvir este poema, lido por Nuno Miguel Henriques:

terça-feira, 21 de abril de 2009

Os livros...

«Livros são os mais silenciosos e constantes amigos, os mais acessíveis e sábios conselheiros e os mais pacientes professores» - afirmou Charles W Elliot. O João, 6 meses de idade, não diz, mas pratica com convicção: «Os livros são para devorar!"... :-)

O meu tio

Um título destes, no singular, confundirá qualquer membro da minha família: são tantos tios (e principalmente, tias), «de quem irá ela falar?»... Ainda no século XX, eram muito numerosas as famílias … A “demografia” não constava do léxico e certamente não estava na ordem do dia. O meu pai tinha cinco irmãos; a minha mãe, onze! Nada de dúvidas: refiro-me ao meu mais novo tio paterno. Moreno, conserva a pele tisnada do sol das muitas caminhadas diárias… Vertical, pugna intransigentemente pelos seus princípios… e é um prazer calcorrear a marginal a seu lado e ouvi-lo falar tempo sem fim, tomando posição sobre assuntos que vêm à baila ou evocando memórias. Algumas das quais em que sou protagonista, na juventude. Com setenta e oito anos completos, desfia longas histórias de toda uma vida de estudo e trabalho, composta de tudo o que preenche qualquer vida intensamente vivida: muitas escolhas e lutas; êxitos e insucessos; “nódoas negras” e alegrias; motivos de satisfação e orgulho... Para qualquer criança (ou mesmo pai) dos nossos dias, seria inimaginável viver tudo aquilo por que passou. Ele e várias outras crianças que moravam em lugarejos e cujos pais tiveram brio e posses para os “pôr a estudar”; que foram forçados a vencer duras provas. «O que não nos mata faz-nos crescer» - dizem. Assim aconteceu. Aos treze anos, o meu tio saiu da sua aldeia, da casa de família, e foi estudar para o Porto. Sozinho. Ano após ano, cada vez mais crescido e responsável, tratava do seu alojamento, das matrículas, da gestão da parca mesada, da organização do seu estudo… Uma autonomia e independência conquistada a pulso, de terra em terra. Do Porto para Lisboa. Mais tarde para Luanda. De novo, Lisboa... Satisfeito, olha para trás, tenta um balanço e divide os seus anos em três fases: 1) “A vida activa”, onde aglutina quer a idade adulta quer a sua infância, precocemente amadurecida…; 2) “A reforma”, o período de liberdade para trabalhar no que deseja, com direito ao descanso de que necessita – um direito justo para todos, em qualquer idade, como ele afirma judiciosamente, contrariando, sorridente, o que sabe pela sua experiência e, sobretudo, pela sua formação em Economia...; 3) “A doença”… O coração cansou-se. A doença coronária que recentemente se manifestou, acrescentou-lhe sentido à vida. Afinal, tem fim! Há que vivê-la. Bem. “Um dia de cada vez”. Como? Sabemos. Vigiando a alimentação, mantendo hábitos saudáveis, praticando exercício físico com moderação… Mas há mais. Contando com a família. Cultivando amizades. Dando vida aos anos. Envelhecemos quando desistimos de fazer coisas novas. Isso, não! Somos velhos quando deixamos de sonhar. Para o meu tio, “sonhos” são objectivos que nos levam a realizar projectos… Não importa a sua grandeza. (Vem-me à ideia Fernando Pessoa: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.») "Fundamental, para nos sentirmos felizes, é aprender, planear, concretizar" - conclui. Concordo. A felicidade está bem ao nosso alcance!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Momento de poesia

E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio o não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma canção, pela paz...




Músicos de rua cantaram, em diferentes locais do mundo, uma mesma canção: "Stand by me". Pela paz.

Alguém concebeu a iniciativa... conjugou vontades... e muitos se envolveram na sua concretização.
O YouTube exibe o vídeo: é um facto que se mobilizaram e conseguiram!

A ideia parece criativa... menos fácil é acreditar que esteja apta a alcançar tão ambicioso objectivo...

A Paz parece inatingível quando não têm fim lutas entre povos vizinhos..., são violadas tréguas estabelecidas..., a indústria da guerra floresce...; pululam ódios raciais e étnicos...; a exploração do homem pelo homem assume os mais variados cambiantes...; acentuam-se desigualdades sociais...; a violência vive instalada na intimidade do seio familiar, onde a relação de afecto seria a única com verdadeira razão de existir...

Uma canção pouca diferença fará. Apesar da universalidade da linguagem musical.
Mas é certo que qualquer acto causa reacção... e pode gerar diferença.
Sem dúvida, grandes realizações começaram por uma simples ideia.
"Não há caminho... O caminho faz-se caminhando."

Paz?
Eu quero acreditar que ela possa espalhar-se como um manto... que cada um de nós ajudará a estender...
...«Paz... aos homens de boa vontade...»


O 1º de Janeiro aproxima-se; é o Dia da Paz.
Vem mesmo a propósito:
Feliz Ano Novo!...

Já agora, aqui fica o link para quem queira aceder ao vídeo e ouvir a canção:
http://www.flixxy.com/peace-through-music.htm



(Ou então, cantada por Ben King, com direito a tradução: http://www.youtube.com/watch?v=QxRyPKYlIsc )


Outro link ainda, para quem queira saber mais sobre este evento pela paz: autores, participantes... http://www.mahalo.com/Stand_By_Me_Video


quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

"As galinhas da Vovó"...


É este o meu presépio. O indispensável símbolo desta época natalícia, data em que, mais ou menos conscientemente, o mundo celebra um nascimento.

O meu presépio não é branco nem negro: é cor de terra, castanho. Cor do material simples de que é feito: o barro. Saído de mãos hábeis de um artesão que o moldou com formas estilizadas. Simples e sóbrio, como eu gosto.

Simbólico e discreto, o meu presépio não escapou aos olhos atentos do Francisco. Dois anos e meio ladinos e curiosos, parou em frente dele, no meio das suas correrias alegres pela casa fora.
Olhou, reviu num ápice os seus conhecimentos do mundo, relacionou-os e inferiu, convicto: "(...são)...as galinhas da vovó...".
Confundira as ovelhinhas... apesar destas não serem exactamente como as galinhas que vira há tempos, algures num quintal...


Perplexos, os adultos riram... e apressaram-se a aproveitar aquele momento para uma lição precisa e breve, como convinha: "não é uma capoeira: é um estábulo"... e mais isto e mais aquilo... blá-blá-blá...:

"Nasceu Jesus, muito pobrezinho, mas tinha Mãe e Pai... e animais amigos"...

São assim os olhos das crianças...


...Feliz Natal!...


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Citação...

"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

domingo, 14 de dezembro de 2008

Contar histórias é fundamental...


Do património oral fazem parte todas aquelas histórias ancestrais que passaram de pais para filhos, de boca em boca, mesmo antes de haver escrita ou quando esta era apenas privilégio de alguns...

Foi assim, passando de geração em geração, que chegaram até nós lendas, contos tradicionais, quadras populares, provérbios, adivinhas, lengalengas e trava-línguas... que continuam a deliciar quem os escuta... e muito divertem jovens e menos jovens...

Desde o século XIX, quase tudo passou a ser escrito. E ainda bem: o mais certo seria que muito deste legado se perdesse...

O hábito de contar histórias foi sendo substituído pela atenção à TV e outras diversões. Mas não há nada como uma criança escutar uma história... e assim desenvolver a sua capacidade de concentração e memória, estimular a imaginação, fazer perguntas, enriquecer a linguagem, resolver problemas...

Pode acontecer até que essas histórias preencham o seu imaginário e ganhem, um dia, uma nova vida...

A jovem Joana Pires escutou muitas vezes o seu pai... Este, natural de Angola, atravessou tempos de guerra, no seu país, e guardou na memória duras histórias que repetidamente contava à filha, na sua infância...

A Joana vive na Austrália, onde está a finalizar um Curso de Arte, de Direcção de Actores...
Ontem, ela levou à cena "A Rosa de Angola", que teve uma estreia coroada de êxito.
As histórias que guardou na memória constituem um importante património oral que este pai legou a sua filha... que, por sua vez, o soube recriar e escrever...

Bem-hajam. Parabéns!

Uma flor para a Austrália..., onde as histórias da História de Angola são agora recontadas!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Tempo de poesia...

«na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.»

José Luis Peixoto, A criança em ruínas, Quasi, 5ª ed, 2003
(p. 13, poema integral)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Uma rosa - para Estocolmo

Porque as flores são silenciosamente fluentes, quando as palavras nos morrem na garganta...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pelos Direitos Humanos!

Há 60 anos, no dia 10 de Dezembro de 1948, foi adoptada e proclamada, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

10 de Dezembro. Dia de comemoração, dia dos Direitos Humanos.

Por isso, tal como o fazemos nas datas dos nossos aniversários ou no fim/ início de um novo ano ou ciclo, é também tempo de reflexão, tempo de nos orgulharmos pelo que já conseguimos, mas também, e sobretudo, tempo de olharmos para o que ainda temos para fazer.

Sessenta anos! Muito tempo, muita luta, muita batalha vencida.

Mas...

«Não há mas./Todos temos culpa. E a nossa culpa é mortal.»

(António Gedeão)

In: http://direitos-humanos-esm.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Natal, e não Dezembro

A cidade revela bem que é Dezembro...
Saibamos preparar-nos para acolher o Natal...


Natal, e não Dezembro (1962)


Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.


Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.



David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal, Editorial Verbo, 2ª edição


Voltei à escola...

Setembro trouxe, como sempre, infalivelmente, um novo ano lectivo...
Entre dias amenos, dando lugar à esperança de belos dias ao ar livre, ainda por acontecer, foi tempo de preparativos para receber novas e velhas turmas, alunos novos ou desconhecidos; jovens curiosos ou desmotivados, tímidos ou atrevidos, francos ou dissimulados, preguiçosos e empenhados, maus e bons alunos…, cada um carregando as suas expectativas e limitações, receios e sonhos, por vezes bem distantes do que deles se espera, na escola… Para mais neste ano em que metas de sucesso, de tudo e mais alguma coisa, passaram a ser mensuráveis em grelhas e mais grelhas, de forma diversa em cada recanto do país…

Setembro trouxe-me à memória os meus tempos de menina, os meus primeiros passos na escola…
Nos idos anos 50, eu fui das que fizeram uma passagem pela Pré-Primária!… “Lembro-me” disso, talvez apenas devido às repetidas narrativas da minha mãe, confirmadas por uma fotografia de uma daquelas festas de fim de ano lectivo para pais, na qual estou, bem pequenina, muito senhora do meu papel de anão,
seguindo a bela Branca de Neve (certamente, a Educadora)…

Tinha sete anos já bem contados quando entrei para a “1ª classe”. Assim ditou a exigência da idade, à data da matrícula.
Levava, certamente, o cabelo preso por um largo laço branco e um vestido cintado, preso nas costas por outro grande laço, acentuando a saia franzida e rodada… uma imagem que se repete nas escassas fotografias que conservo…

Não sei quantas seríamos naquela sala branca com quadro negro de ardósia, com carteiras muito alinhadinhas, de sólida madeira, com uma concavidade para colocar frágeis lápis de ardósia… (Ai, eles que não caíssem!…) e também canetas de aparo que introduzíamos, repetidamente, num branco tinteiro de cerâmica, implantado ao meio, a fim de recolhermos a imprescindível tinta permanente… causadora de dramáticos borrões!…

Recordo as infindáveis filas de carteiras, ocupadas por muitas meninas negras, mulatas e brancas (todas nós portuguesas, a maioria nascida em Angola) e conservo a vaga imagem da minha professora exigente e intransigente, que a todas tudo ensinava, mantendo uma disciplina garantida pelo infalível método das reguadas…

Quem tivesse capacidade de memória e raciocínio, método de estudo e um comportamento dócil (natural na época… e para mais nas meninas…), facilmente passaria incólume a castigos corporais e obteria sucesso escolar.
Ano após ano, fui assim avançando na minha escolaridade…

Nos anos 70, voltei à escola.
Desta vez, do outro lado das fileiras: como professora.
Empunhava um horário de 28h lectivas, que me atribuía sete turmas, de 40 a 45 alunas cada, perto de trezentas meninas, negras, mulatas e brancas (nascidas na Guiné; todas portuguesas, ainda que falando crioulo, entre si) a quem eu deveria ensinar Francês e que eu deveria avaliar…

Dera explicações, enquanto estudante; trabalhara voluntariamente numa sala de estudo, num bairro da lata, em Lisboa…
O meu curso, como era habitual, não tivera estágio integrado…
O curso de Ciências Pedagógicas era tão teórico quanto toda a formação académica feita, até então…
Em suma, aprendera a ser professora, observando aulas na minha condição de aluna. E pouco mais.

Reuniões de grupo... e colegas disponíveis para ajudar; paixão de ensinar, vontade de aprender e vencer desafios… amadorismo… Sempre aprendiz, fui somando experiência.

Sinto-me feliz por ter trabalhado nestes anos que passaram: devotada à profissão e aos alunos, em dedicação exclusiva e voluntária, tudo fazendo com prazer, por paixão…
Cargos exercidos rotativamente, tornando todos corresponsáveis pelo bom desempenho dessa missão...
Reuniões de efectivo trabalho... e não apenas para desbravar chorrilhos de novas legislações...
Participação periódica num Conselho Pedagógico, em que eram discutidos, democraticamente, problemas concretos e onde se procuravam soluções, nos limites do nosso poder de decidir e agir, após a auscultação de todos.
Muitas condições de trabalho foram, deste modo, melhorando... muitas questões pedagógicas, resolvidas.

Noites curtas para tanto que fazer!
A pasta carregada, sempre atrás…
Acompanhamento de estágios.
Formação aos sábados… por opção!
Congressos pagos, em período de férias…
Experimentação de novas metodologias.
Recurso a todas as estratégias... e aos meios tecnológicos à nossa disposição...

Cada novidade e dificuldade sendo encarada como uma nova oportunidade.

Muito trabalho! Sem fugir a desafios nem a responsabilidades.
Sem ter em mira qualquer recompensa, a não ser ensinar melhor.
Pelos alunos.


Profissão e não carreira.
Sujeita a uma avaliação periódica.

Fazendo formação, regular e obrigatoriamente.

Voltei à escola, este ano.
Num período de descontentamento e luta.
Em que reina a desconfiança no nosso trabalho e a incerteza de uma avaliação justa.
Em que nos sobrecarregam o horário, sem nos darem condições para trabalhar, no local onde somos obrigados a permanecer.

Num novo tempo em que escasseia o respeito granjeado e merecido.

Num momento em que os meninos de várias cores falam várias línguas, as turmas aumentam sem cessar, as problemáticas multiplicam-se... o que não se resolve sem tempo e serenidade para corresponder aos desafios desta nova realidade...

Voltei à escola.
No momento oportuno para lhe dizer adeus.

Um exemplo e conselho


Baloiço
Mise en ligne par ManuelaCaeiro



Dedicatória:

À Ana Santos, minha jovem leitora

E a todos os jovens e menos jovens leitores que me visitam.

.........

A ave baloiçava feliz

num ramo de coqueiro sacudido pelo vento...

Não se sentia em perigo

e achava divertido tanto balanço e movimento...

- Nada é seguro na vida, nem sequer para os humanos,

e é preciso, portanto, dar-lhes exemplo e conselho:

«Saibamos saborear cada momento!»

sábado, 8 de novembro de 2008

A manifestação de 8 de Novembro...





(Em cima: "Ministra da Decepção".)
(Em baixo: "Papelada + papelada = Educação degradada"...)





(... e: "Vamos acabar com este drama.")




"Uma imagem vale mais do que mil palavras" - provérbio chinês.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Não desistas!...

Escuta... sente... vê... Luta pelo que pretendes; não desistas!...

«Não é por as coisas serem difíceis que não as devemos ousar..., é por não as ousarmos que as coisas se tornam difíceis.»



quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Um filme: a escola em debate!

Tive curiosidade em ir ver o filme Entre les murs (A Turma), assim que estreou em Portugal.
O filme francês "A Turma" foi premiado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2008 e retrata o quotidiano de uma turma multiétnica de um liceu francês da periferia de Paris.
O argumento baseia-se num livro de François Bégaudeau, que interpreta o seu próprio papel, uma vez que é o autor do livro que deu origem ao filme, no qual relata a sua experiência como professor. Os restantes actores não são profissionais: são alunos de liceus parisienses.

Laurent Cantet, o realizador, nega que se trate de um documentário, visto que não dá uma visão geral sobre a escola: é um filme centrado nas dificuldades de um professor perante alunos de um liceu, num bairro problemático; foram escolhidos momentos de tensão e de diálogo; a acção concentra-se naqueles 25 alunos e naquele professor, durante esse ano lectivo.


Sei que o filme tem gerado controvérsia: professores franceses, pais e sociedade, em geral, fazem leituras várias, fazendo ressaltar os seus pontos de vista sobre a Educação e a escola pública.

Alheia à polémica, eu vi o filme com comoção e sem estranheza.
Aquela turma não difere de muitas das nossas turmas (que são cada vez maiores).

Em 37 anos de ensino, em Almada, vivi em sala de aula situações diversas e idênticas, ora melhores ora piores do que as do filme... Quer tratando-se de imigrantes ou não!

O filme mostra-nos os professores a chegarem àquela escola, em Setembro, esperançados e meio assustados; a certa altura do ano, um deles teve um momento em que ficou absolutamente fora de si; vemos reuniões em que se cumprem imprescindíveis e meras formalidades, sobretudo preenchendo papéis... lá como cá..., sobretudo cá, onde os papéis abundam e se multiplicam.
No dia-a-dia, cada professor a sós com a(s) sua(s) turma(s)...

Assistimos a muitos minutos de aulas.
O professor é atento, activo, humano... tenta cumprir o currículo daquele ano de escolaridade de maneira flexível, adaptando-se aos alunos que tem diante de si – o que me parece correcto. Sendo professor de Língua (de Francês - simultaneamente como língua materna e não materna), ele treina afincadamente a expressão oral, a escrita, a leitura; insiste no vocabulário, na construção frásica, nos verbos..., revelando dominar bem a matéria que ensina, aceitando todas as opiniões e respondendo assertivamente.

Quanto ao seu método... na minha opinião, poderia ter usado outros recursos materiais e novas tecnologias; recorrer a trabalho em equipa; conduzir a aula em maior cooperação... Mas há muito aprendi que cada professor tem o seu estilo próprio... que não há um método perfeito: o melhor método é o que funciona, não sendo nenhum deles isento de insucessos...

Indisciplina? Problemas naquela aula? Houve muitos, indesejáveis, inaceitáveis!...
Ignorando deliberadamente alguns aspectos, digo apenas que as palavras de alguns alunos eram duras, agressivas, inoportunas...

E, no entanto, não aprovando esse tom, considero positivo que o diálogo tivesse lugar. Uma aula de língua é o momento privilegiado para ser um espaço de comunicação.
Por outro lado, vi trabalho! Admirei a forma como muitos iam realizando, disciplinadamente, uma a uma, as tarefas que o professor lhes propunha, de chofre, para cumprir na aula e em casa...
Alguns não o faziam: ali como aqui, agora como outrora...

Admirei e saliento a capacidade de aqueles jovens falarem de si mesmos desassombradamente, de serem capazes de se escutar em silêncio, sabendo respeitar-se, apesar de tudo...
Dificilmente o vejo acontecer entre os nossos adolescentes...: nem uns se querem expor nem os outros os escutam sem interromper e troçar... criando um ciclo vicioso difícil de combater.

O professor está geralmente só - tem de decidir em fracções de segundo, perante uma turma unida, nos momentos cruciais; não raramente é incompreendido não apenas pelos seus alunos, mas também pelos seus pares e pelos pais, quando surgem dificuldades e estes o olham com desconfiança, sem entender a escola... para além de que tem ainda de lidar com a sua própria frustração...

Não consegui ver o filme como uma observadora exterior... Senti que podia ser eu... Recordei situações guardadas à chave... e, felizmente, também sucessos acumulados!...

A nossa realidade não é mais fácil, desenganem-se!


Anexo: vídeo em francês (Conferência de Imprensa com realizador e professor).


Entre les murs - Conf de presse
Enviado por CANNES_LEXPRESS_STUDIOMAG

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Antologia poética


Dedicatória:
À Íris, ao Francisco e ao João (os meus três netos,
nascidos a 22/2/93; 7/8/2006; 29/9/2008)
À Ana, à Mónica e à Carla (as mães)
Ao Miguel e ao Francisco (os pais)



Pequeno Poema


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
Não enlouqueceu ninguém…

P´ra que o dia fosse enorme, bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…


Sebastião da Gama, Serra-Mãe

sábado, 6 de setembro de 2008

Os azares de uns...

-Isto do negócio dos reboques, tem estado um bocadinho mau… - dizia o motorista, enquanto guiava o seu camião, rebocando um carro avariado. -Hoje, desde as quatro e meia que o trânsito tem sido assim… - E apontava a estrada cheia de luzes: médios, faróis de nevoeiro e de travão, tudo aceso… Centenas de carros, num e noutro sentido…
Continuou:
- Hoje até havia mais trabalho, mas nós nem podemos fazer mais; não conseguimos lá chegar… Demora-se muito tempo para fazer 2 Km, não podemos acudir a todos… Foi o 1º dia de chuva, está a ver?...

O dono do automóvel, à boleia do camião, estava a ver, sim. Suspirava de alívio. Deixara de estar parado exactamente a meio da faixa de rodagem, repartida em três vias, com motor ligado, para poder conservar todas as luzes acesas e mais algumas, com destaque para as de perigo, claro, mas ainda assim nada confiante de que não corresse mesmo perigo, no meio da intensidade de tráfego dos milhares de carros impacientes que por ele haviam passado, a toda a velocidade, já noite cerrada, chuva intensa, durante aquelas duas horas de espera pelo reboque…
De vez em quando soava uma buzinadela: talvez uma reprimenda, por se ter metido à estrada com um carro velho que “morreu na contramão, atrapalhando o tráfego”…, como na canção…
(Ainda por cima!...)

- Eu já devia estar em casa há duas horas e meia, mas nem sei se sigo já para lá… Moro daquele lado, sabe?... Hoje há trabalho, o patrão pede… Depois recompensa-nos… - e seguia decidido e animado, indiferente à fila de trânsito, desatento à contrariedade do socorrido.

O dono do automóvel também. Já estaria em casa há mais de duas horas, se não fosse aquele contratempo.
Carro velho, mas estimado. Todas as revisões em ordem. Inspecções sem mácula. Nada faria prever, ao lançar-se à estrada, que iria parar mais adiante, ao meter uma prudente 3ª que lhe deixou a alavanca de mudanças a bailar na mão…
De noite. Numa 6ª-feira! Muitos de regresso a casa, na margem sul, outros de partida, prontos para o fim-de-semana…
Em plena auto-estrada, a caminho da ponte!...

De boca aberta, fazendo uma rápida avaliação da caricata situação a ser vivida, com surpreendentes reflexos rápidos, ligara de imediato as luzes de perigo, evitando o pior… Em segundos, estabelecera contacto com a assistência em viagem… e, pacientemente, só lhe restara esperar. Sem desesperar…
A ver os carros aproximarem-se e desviarem-se, pelo espelho retroprojector…
Com grande alívio por nada mais lhe acontecer, nesse dia de estreia do colete de segurança…
Sem se arrepender, afinal de contas, do passeio que dera, por uma decisão impulsiva e imprevista, embora a chuva, com que não contara, lhe retirasse fulgor. Aparentemente muito jovem, o motorista conduzia aquele pesado camião de forma segura, com a ligeireza com que se manobra um pequeno automóvel. Eficiente, profissional, vestia a camisola da empresa. Seguramente um empregado a conservar, a estimar. Mesmo neste nosso mundo, em que nem sempre o valor de cada um é recompensado.
Completou a tarefa, deixando o carro inerte estacionado à porta da garagem onde iria ser reparado. Um estreito beco sem saída que o não perturbou. Sem hesitação, improvisou uma forma eficaz de o deixar estacionado à primeira. E rapidamente descolou para mais um serviço, agendado através do telemóvel, sempre a tocar, após uma despedida tão simpática quanto breve.

Um dia de chuva que revitalizou o negócio.
O automobilista-peão fazia contas de cabeça, enquanto recolhia, finalmente, a casa.
Os azares de uns… são a sorte de outros.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Nuvens no horizonte... da saúde!

São mulheres. De todas as idades. De aparência mais ou menos cuidada; mais ou menos atraentes e elegantes.
Não conversam. Estão ali, ocasionalmente, por uma mesma razão. Preparam-se para fazer exames médicos delicados, precisamente ao que as distingue na sua condição de mulher: os seios, o útero.
Após a chamada, numa segunda sala de espera - confortável, de paredes claras e sobriamente decorada - trazem já vestida uma bata sobre o peito nu.
Mantêm uma postura serena; contudo, não conseguem disfarçar uma pontinha de ansiedade, quer ali se encontrem por uma questão de rotina ou para um exame prescrito na sequência de sintomas observados… Sobretudo estas.
Reina o silêncio. Têm ar distraído ou pensativo. Rostos sérios ou crispados. Um pé abana como conta-minutos: tic-tac, tic-tac… Uns olhos vermelhos são diques reprimindo lágrimas, prontas a despenhar-se…
As revistas mais ou menos cor-de-rosa, ao alcance da mão, dificilmente lhes captam o desejo de ler, tanto mais que vão bebendo regularmente água, adicionando mau-estar ao que já sentem…
Em breve (“Deus queira que não”), poderão confirmar diagnósticos e suspeitas. Saber o que prefeririam ignorar.
Amadureceram aprendendo a lutar pela sua emancipação; pela igualdade. São donas de casa eficientes, esposas, mães atentas, exímias malabaristas na gestão de orçamentos familiares, profissionais competentes. Com falhas previsíveis em quem pratica o “tudo-em-um”. Lutadoras. Vencedoras.
Frágeis.
Receiam, neste momento, ser vencidas por uma doença que se instalou silenciosamente, cresceu traiçoeiramente… Poderá soar o toque a reunir forças, para tentar vencer um combate desigual. Afinal esse exame momentâneo, prestes a ser feito, condicionar-lhes-á o futuro…
Haja o que houver, cabe-lhes a habitual responsabilidade de não beliscar o bem-estar e a alegria daqueles que as rodeiam: um propósito que as força à coragem.
Elas já viram rostos em capas de revista, leram reportagens; sabem que há histórias de sucesso. Para mais, ainda há esperança: pode nem ser nada!
Apenas desejam ser saudáveis. Viver. Apenas.
Como as felizardas que, em breve, ouvirão o veredicto do médico que as observar: “Está tudo bem!”.
Como eu, felizmente.

domingo, 17 de agosto de 2008

Evasão e alma nova

Na caixa do correio do 6º andar, como em tantas outras do mesmo prédio e da cidade, para além de uma ou outra carta com as habituais facturas mensais, o carteiro depositou, naquele dia de Julho, um largo envelope do Banco, contendo um mapa de Portugal. Uma oferta.
Uma vez desdobrado, aquele mapa exibia o país recortado por estradas multicores, de norte a sul, de leste a oeste, recordando percursos já visitados ou sugerindo outros há muito por acontecer. Um autêntico convite. Um desafio.
“-E se...?” - a ideia surgiu-lhe.
Não fizera planos de férias. Usar o cartão de crédito para fazer uma viagem, após alguns recentes gastos inesperados, estava completamente fora de questão. Decidira que passaria umas férias pacatas e económicas. Era ponto assente.
“Uma voltinha, aventurando-me sem programa nem destino certo...” - e a sua ideia foi tomando forma.
Os preparativos não tomaram muito tempo. Meteu no porta-bagagens a tendinha de dois lugares (fácil de montar e desmontar por uma pessoa só), o saco-cama, uma almofada, uma corda que fixaria entre duas árvores, para poder estender a toalha molhada pela manhã... E a casa estava pronta! Seguiu-se a arrumação dos artigos de higiene; depois, uns chinelos e umas roupas leves que pouco espaço ocupavam no saco, onde ainda couberam umas calças de ganga, uma camisola e uns ténis, para as noites frescas de Verão. Um biquini e o protector solar... O seu caderninho e uns livros, o transístor, uma lanterna e a máquina fotográfica... Tudo resumido ao mínimo. Tanto bastaria!...
À mão, umas maçãs e água... De resto, cafetarias e restaurantes garantiriam a sobrevivência, ao longo da viagem…
E ala, para sul!

As linhas abstractas do mapa, etapa a etapa, ganhavam vida. Via rápida, estrada nacional, caminhos plantados de árvores, com as copas de mãos dadas, oferecendo sombra; adiante, uma cidade... um ferry atravessando o estuário do rio até à península do outro lado... Aqui a vastidão do campo, ali, uma pequena aldeia piscatória; cegonhas à janela dos seus ninhos, nos telhados e chaminés; além, uma serra, acolá, um pinhal, anunciando a vastidão do mar, precedido da alta falésia e das dunas; praias semi-desertas, a perder de vista; gaivotas em voo como uma esquadrilha...
A viagem seria curta. No céu límpido, de vez em quando com um ou outro fiapo de algodão, brilhava um sol intenso... O dia convidava a desentorpecer as pernas, montar tenda, dar ainda um mergulho...

O guia campista apontou o parque mais próximo, no alto da falésia, onde pretendia encontrar um lugar sossegado para morar, bem em frente ao mar... Parou, instalou-se. E subitamente, a vida regressou à pureza do sonho, à simplicidade da satisfação das necessidades básicas essenciais, fundindo-se com a natureza...
Pouco a pouco, o céu foi ganhando os cambiantes do crepúsculo; por sobre a tenda, os pássaros, de ramo em ramo, chilreavam uma melodia, anunciando o final do dia…
Sentou-se então a contemplar o sol mergulhando, lentame
nte, no horizonte. Entretanto, as estrelas acordavam e cintilavam, a coberto da escuridão da lua, em quarto minguante, num espectáculo pleno de magia.
O rugido do mar embalou-lhe o sono.
Quando despertou, correu o fecho éclair e observou o mesmo tom alaranjado vivo no céu, enquanto ouvia a alegria dos pássaros, saudando o novo dia...
Deitava-se e acordava cedo. Dias longos e sem pressa, ao ritmo do sol de Verão e de um calendário sem compromissos.
Mal se despachava, um passeio pela praia meio deserta, um abraço ao Atlântico…

Prazenteiramente sentada numa esplanada, nas horas de maior calor, empreendia uma fantástica viagem, através das páginas do seu livro... Quando calhava, seguindo por uma das estradinhas mais desbotadas do mapa, acontecia uma visita a um farol, um castelo, um museu. Refeições saudáveis e frugais abriam-se à inovação de um sabor regional…
Atenta, observava, de passagem, uma manada de vacas ruminando pacientemente ou um rebanho de ovelhas abrigando-se a uma sombra; um abutre, cruzando velozmente os céus...
Só, na praia, na esplanada, à mesa do restaurante, não passava despercebida e sentia discretos e surpreendidos olhares. Mas ela sabia bem não ser só. E a momentânea solidão, em lugar de lhe pesar, oferecia-lhe a liberdade de dispor de si e decidir o que fazer, a cada momento, aceitando o imprevisto e o prazer da aventura.
Durante aquela meia dúzia de dias, refreou o ritmo violento e estonteante dos últimos meses, pacificou desejos e sonhos, reconciliou-se com o relógio e foi somando descobertas e emoções que as fotografias fariam recordar...
Ao regressar a casa, trazia de volta o generoso mapa que a impulsionara a partir. Este adquirira um ar usado e, nas pontas, ameaçava abrir brechas, mas tornara-se concreto e cheio de vida.
Por sua vez, ela voltara de corpo bronzeado e alma renovada, transbordando de ânimo para uma nova etapa, uma vez acabadas as férias...

15 de Agosto de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Leituras de férias...


FICHA DE LEITURA


Autor: Castanheira, Alexandre
Título: Outrar-se ou a longa invenção de mim
Editora: Campo das Letras
Colecção: Campo da Memória - 11
1ª edição, Porto, Outubro de 2003

Esta obra é um romance autobiográfico, em jeito de memória-balanço de uma vida de setenta anos, relatado na 3ª pessoa. O que não surpreende o leitor, pois, sendo una, a personagem desdobra-se em dois nomes principais e muitos pseudónimos, como se de outros se tratasse, em determinados períodos da vida, em virtude de circunstâncias várias, de lutas que empreendeu, da clandestinidade em que viveu durante quinze anos, do exílio...

Outrar-se é um neologismo que significa, efectivamente, tornar-se outrem.

Mais do que memórias de uma vida, neste relato, com tanto de histórico como de poético, é evocado um tempo da nossa História recente, narrado do ponto de vista de um resistente, politicamente activo contra a Ditadura. Tantos anos volvidos, esta obra ajuda a compreender a organização do PCP, na clandestinidade; ajuda a recordar e valorizar a acção solidária de muitos homens que, como Alexandre, se sacrificaram em nome de ideais e da construção da nossa Democracia.

Ajuda, sobretudo, a entender este Homem, figura de relevo de Almada - afável, prestável, simples, culto…; autarca, poeta, pedagogo…; sempre com um sorriso calmo e acolhedor, que tão bem comunica com os jovens, levando-os a buscar a poesia que transportam dentro de si e, a partir dela, produzir belos textos…

Foi num desses bem sucedidos ateliês de escrita - que realizou na minha escola - que o ouvi falar deste seu livro que me apressei a comprar, assim que surgiu a oportunidade.
Finalmente, pude lê-lo!

Férias: tempo de lazer..., tempo para ler...

sábado, 26 de julho de 2008

Faltam cinco minutos...


Atravesso o jardim… e reparo no chão atapetado de folhas amarelecidas!...

Tanto tempo à espera das férias, dos dias longos sem pressa, dos passeios à beira-mar, ao sol e ao luar, do repouso sem horário, do tempo de acarinhar desejos adiados – o livro que se não leu, a viagem que se não fez, o encontro por acontecer… – e subitamente, antes que seja iniciado o exercício do direito ao Verão, já o Outono se anuncia…

Injusto para quem teve um ano tão longo e atribulado… tão preenchido de trabalhos e responsabilidades, de correrias entre intransigentes toques de campainha, de escassez de tempo para realizar tarefas imprescindíveis, às quais a infindável lista de prioridades ditava, sucessivamente, ordem secundária… com o relógio impondo limites ao excesso de trabalho…

Agora, férias!...
Urge contrariar o Outono que se anuncia, gozando o calor que permanece, a liberdade dos corpos seminus, envoltos em vestes vaporosas que filtram os beijos do sol, o fascínio perpétuo de cada nascer e adormecer do astro que ilumina os dias, ignorando, por imposição pessoal, tudo o que ficou por rever ou fazer… abraçando, com ternura, o imprevisto do porvir, o sabor da aventura do quotidiano… com alma e coração...

Inexoravelmente, faltam poucas semanas para o retorno ao serviço, para o recomeço de um novo ano, a acontecer num Outono que já lançou o seu pré-aviso… tal como avisamos uma criança, que se diverte no parque infantil: “Vá, aproveita! Daqui a cinco minutos, vamos embora!”…
E então o menino lança-se prolongadamente na sua última volta no baloiço e no escorrega… do mesmo modo que eu corro a aproveitar os meus “cinco minutos”…
Até já!...
Boas férias!...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

As palavras dos outros


«Desiderata

Vai serenamente por entre a agitação e a pressa e lembra-te da paz que pode haver no silêncio.
Sem seres subserviente, mantém-te tanto quanto possível em boas relações com todos. Diz a tua verdade calma e claramente, e escuta com atenção os outros; mesmo que menos dotados e ignorantes, também eles têm a sua história. Evita as pessoas barulhentas e agressivas: são mortificações para o espírito. Se te comparas com os outros, podes tornar-te presunçoso e melancólico porque haverá sempre pessoas superiores e inferiores a ti. Apraz-te com as tuas realizações tanto como com os teus planos.
Põe todo o interesse na tua carreira, ainda que ela seja humilde: é um bem real nos destinos mutáveis do tempo. Usa de prudência nos teus negócios porque o mundo está cheio de astúcia, mas que isto não te cegue ao ponto de não veres virtude onde ela existe; muitas pessoas lutam por altos ideais e, em todo o lado, a vida está cheia de heroísmo.
Sê fiel a ti mesmo. Sobretudo não simules afeição nem sejas cínico em relação ao amor, porque em face da aridez e do desencanto ele é perene como a relva.
Toma amavelmente o conselho dos mais idosos, renunciando com graciosidade às ideias da juventude. Educa a fortaleza de espírito, para que ela te salvaguarde numa inesperada desdita. Mas não te atormentes com fantasias. Muitos receios surgem da fadiga e da solidão.
Para além de uma disciplina salutar, sê gentil contigo mesmo. Tu és um filho do Universo e, tal como as árvores e as estrelas tens o direito de o habitar. E quer isto seja ou não claro para ti, sem dúvida que o Universo é-te disto revelador. Portanto, vive em paz com Deus, seja qual for a ideia que Dele tiveres. E, quaisquer que sejam as tuas lutas e aspirações, na ruidosa confusão da vida, conserva-te em paz com a tua alma.
Com toda a sua falsidade, escravidão e sonhos desfeitos, o mundo é ainda maravilhoso. Sê cauteloso. Luta para seres feliz!

M. C.»

Estas iniciais nada têm a ver com Manuela Caeiro. A sério! Nada sei dizer sobre o seu autor.
...Polémico? Talvez! Mas muito sábio, também!... Um bom lema de vida para cada um de nós!
É preciso viver... sabendo contornar as esquinas da vida...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Festa pelo S. João...








«Bela cidade de Almada
de S. João é devota,
o Tejo vai aos folguedos
nas asas de uma gaivota.»




Foi esta a quadra que escolhemos - eu e a Fernanda Ataíde.
Fomos juntas à festa... depois de um cansativo dia de trabalho.
Prontas para nos divertirmos: e "meu dito, meu feito"!






Gastronomia da época: sardinha assada, salada mista... e sangria.
Música ao vivo...: das marchas, às "melodias de sempre"... e ao "pimba", pois claro!, tudo se ouviu, a partir daquele palco que anunciava, em letras grandes: "Festas Populares de Cacilhas".
Foi festa rija, na verdade...; bem popular, realmente...; em Cacilhas, sem dúvida!





No bailarico, dançavam casais, velhos e novos; mulheres com mulheres... e brincavam crianças...; não faltavam cães, certamente em busca da companhia dos donos...





Associámo-nos à festa!
Apitou o comboio..., marchámos..., fizemos rodas, de mãos dadas com as crianças...





Boa ginástica! Convívio. Satisfação.
Marcando o final da noite, fogo de artifício...





Desta festa, conservo o manjerico. Fotografias. Memórias.
Vivam os santos populares!...

Em especial... o S. João!

terça-feira, 10 de junho de 2008

Provérbio

"Uma imagem vale mais do que mil palavras."

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Antologia poética



Felicidade


A felicidade sentava-se todos os dias
no peitoril da janela.



Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém;
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo
pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério
no seu próprio nome.

Sena, Jorge de, Perseguição, Líricas Portuguesas, Portugália Editora, p.245