sábado, 10 de novembro de 2012

Mais poemas nos bolsos... para Ler a Meias...

Voltei ontem à Feliciano Oleiro, para falar de poesia com as turmas de 4º ano dessa escola. E hoje foi a vez dos meninos do 4º B da Conde de Ferreira. Três sessões idênticas à do 4º A desta escola (no dia anterior), mas não inteiramente... 
Já se sabe que, de turma para turma, a interação com os meninos é diversa, a gestão do tempo altera-se, a Mediadora acrescenta uma coisa aqui e tira outra acolá... Mas houve ainda mais novidades
Na 5ª feira, não havia máquina fotográfica! Oh!!!???...
Na 6ª feira, chovia tanto que "a biblioteca" foi ter com os meninos à sua sala de aulaIsto trouxe novas possibilidades: eles tinham lá os seus cadernos e cada um leu uma poesia da sua autoria. Que bonitas!
De resto, nada de grandes alterações. Lemos muitos poemas que saltaram ora dos livros ora dos bolsos: brincadeiras com letras, palavras, sinais de pontuação, números, formas, sons, ritmos, humor... e muitos sentimentos pelo meio! 
Poesia popular e muitos poetas portugueses: Alexandre O'Neill, José Fanha, José Vaz, Luísa Ducla Soares, Matilde Rosa Araújo, Teresa Guedes, Saúl Dias... e ainda, na última turma, Maria Rosa Colaço.
Encerrámos a sessão com o poema Todos os dias, de Saúl Dias, pela voz de José Fanha, e terminámos prolongando coletivamente esse mesmo poema. 
TODOS OS DIAS..., o que acontece?













Realmente, cada um de nós é mais feliz com a poesia de cada dia! 
Não achas?


Antologias utilizadas:
  • Alice Vieira, Eu bem vi nascer o sol, Círculo de leitores, 1994
  • José Fanha, Poemas para um dia feliz, Gailivro, 2007
  • Sophia de Mello Breyner Andresen, Primeiro livro de poesia, Caminho, 1991
  • Susana Ralha, A casa do silêncioBando dos Gambozinos, 25 anos, «Tantas maneiras de ver e viver», Edições Afrontamento, 2000
Livros de autor:
  • José Fanha, Cantigas e cantigos, Terramar, 2004
  • Luísa Ducla Soares, A gata Tareca e outros poemas levados da breca, Teorema, 1990
  • Luísa Ducla Soares, Poemas da mentira e da verdade, Livros Horizonte, 5ª ed., 2010
  • Matilde Rosa Araújo, Segredos e brinquedos, Caminho, 1999
  • Teresa Guedes, Real... mente, Caminho, 2005

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Com poemas nos bolsos, para Ler a Meias...

O dia estava chuvoso. A seguir, iria decorrer outra atividade que mobilizaria toda a escola. A Mediadora quase tivera de faltar, para acudir à netinha adoentada, entretanto melhorzita... Tudo verdade! Mas verdade, verdadinha, foi que a professora Isabel chegou à biblioteca escolar com os seus meninos de 4º ano, todos muito contentes. (Só a professora Inês é que teve de adiar...) E a POESIA aconteceu!... 
Ia em muitos livros, em CDs... e até nos bolsos!...
Primeiro ouvimos uma canção, de A Casa do Silêncio, do Bando dos Gambozinos. Em ritmo de jazz, a faixa 6 contava a odisseia de um simples botão, vejam lá! Imaginam que ali se podem expressar sentimentos? Ui, tantos!!!
Versos, estrofes, quadras, onomatopeias, etc, etc... - nada é já segredo para esta turma de 4º ano. Contudo, escutaram, fascinados, os poemas lidos: jogos com letras, palavras, sinais de pontuação, números, sons e ritmos, formas... e sempre em busca de sentimentos.
Os poemas daqueles livros saltavam dos bolsos para o quadro, que foi ficando cheiinho de poesia...
Para terminar, a voz de José Fanha, num dos seus Poemas para um dia feliz: Todos os dias, de Saúl Dias. (A faixa 23.)
E para terminar, imaginámos o prolongamento do poema.
Que bonita mensagem, estes meninos nos deixaram!

Todos os dias nasce um novo dia para a felicidade.
Todos os dias acordamos com alegria.
Todos os dias nasce um sol brilhante.
Todos os dias, há um arco-íris colorido no céu.
Todos os dias, há um dia bonito para viver.

- Alguém duvida?...
- Quem acredita, vai tê-lo, sim!


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Histórias bem humoradas...

Há gelo no alto das montanhas. 
Sabes porquê?
Vou citar o que li... como prometi aos meninos do 6º ano da EB 2.3 Conceição e Silva.
(Uma prenda, esta aparente lenda... sorridente...)



A montanha


A primeira montanha que houve no mundo era uma montanha muito ambiciosa. A primeira montanha que houve no mundo queria ser ainda mais alta do que já era. Começou a crescer, a crescer, a crescer, e cresceu tanto que deu com a cabeça na Lua. A montanha ficou com um galo enorme, e pôs gelo para aliviar.
É por isso que hoje as montanhas mais altas têm gelo no cume.



Pinto & Chinto, Contos para meninos que adormecem logo a seguir, Kalandraka



David Pintor (Pinto) escreveu
Carlos López (Chinto) ilustrou

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ler a meias... através do tempo...

Hoje, na E B 2.3 Conceição e Silva, o desafio era mediar leitura em duas turmas de 6º ano, pegando no lema do Mês das Bibliotecas Escolares 2012: «Biblioteca, uma chave para o passado, presente e futuro.»
Para mim, era ponto assente percorrer as três eras:
  • Passado: livros manuscritos, com iluminuras; livros impressos e encadernados a couro; contos tradicionais, provérbios e lendas...; clássicos, nomeadamente de um passado recente... Património oral e papel. Alguns objetos em desuso, tais como a cassete ou a velhinha disquete (que já ninguém reconheceu)!
  • Presente: variedade de autores, mais ou menos jovens, e múltiplos suportes: livros, e-readers, computadores... CDs, DVDs, pen...
  • Futuro: uma incógnita. Os autores deixam-nos a sua obra, mas quais deles continuarão a ser publicados e lidos? Uma coisa se sabe: os contos tradicionais permanecerão. Em livro ou e-book"O futuro a Deus pertence", diz o Povo. Neste caso, depende ainda dos homens e das tecnologias...
Criar uma caixa-mistério, com uma gaveta para cada época, foi uma solução prática e engenhosa que suscitou o interesse geral.
O apelo à imaginação foi feito com a ajuda de Manuel António Pina: 

Basta imaginar, 
um pássaro para o aprisionar,
e depois imaginar o ar para o libertar
e imaginar asas para ele voar
e imaginar uma canção para ele cantar.


A imaginação dos jovens ganhou asas ao tentarem adivinhar o que era aquilo que ali estava tapado... O mistério foi-se desvendando à medida que cada gaveta foi aberta... 
E ao mesmo tempo desfiaram-se leituras, histórias sobre os autores e sua época e muitas conversas... Mais não porque eram só 90 minutos!   
Os jovens presentes tinham fama de agitados. A verdade é que se deixaram seduzir... Renderam-se à  curiosidade... Desfrutaram do prazer de ver, ouvir contar, escutar excertos, antecipar finais...
Quais as obras? 
Esclareço que fiz sugestões muito diversas: para leitores e não leitores, para quem gosta de humor ou de temas mais sérios... Ei-los (poucas diferenças houve, de turma para turma): 
  • Afonso Cruz, Os livros que devoraram o meu pai, Caminho
  • Álvaro Magalhães, O livro que se lê de olhos fechados, ASA
  • António Torrado, A nau Catrineta, Civilização
  • Ilse Losa, A minha melhor história, Editora Nova Crítica (ou O mundo em que vivi, Afrontamento)
  • José Fanha, A namorada japonesa do meu avô, Gailivro
  • Manuel António Pina, O pássaro da cabeça, A regra do jogo
  • Miguel Sousa Tavares, O planeta branco, Oficina do livro
  • Pinto & Chinto, Contos para meninos que adormecem logo a seguir, Kalandraka
  • Sophia de Mello Breyner Andresen e Pedro Sousa Tavares, Os ciganos, Porto Editora
Sophia encantou a plateia, com o seu conto recentemente publicado. Sem termos lido o final escrito pelo seu neto Pedro Sousa Tavares, Os Ciganos deixaram sementes de escrita.
Foi muito gratificante esta manhã, passada na minha escola e na minha biblioteca!
(Notícia aqui.)

Nota final: Acabei ontem de fazer, na Biblioteca Municipal de Palmela, uma formação de cerca de 6 horas, Maletas itinerantes  - valor educativo-pedagógico, a qual me ajudou na preparação desta sessão. Sem dúvida que a solução das gavetas me resolveu o problema logístico do entrecruzar de várias eras... 
Agradeço aos seus organizadores: RBE, SABE de Palmela, Serviço Educativo do Museu Municipal de Palmela e ENA. E, em particular, à "Xana das Gavetas".
(Fui pesquisar informação sobre a Xana. Aqui está!)


sábado, 13 de outubro de 2012

Vamos escrever a meias? Se eu fosse um livro...

(imagem da NET)

No Ler a meias...os alunos foram convidados a observar ilustrações de André Letria, do álbum Se eu fosse um livro, sem conhecerem o respetivo texto, de José Jorge Letria.
Soltaram a imaginação e queriam dizer muitas, muitas frases... E assim escrevemos a meias. Verdade seja dita: eles disseram e a professora Mafalda Rodrigues registou. 
Agora é a vez da Mediadora deixar aqui gravada a nova obra!
Convidamos todos a lê-la, incluindo os autores (pai e filho), a quem damos os parabéns pela sua obra original, pedimos autorização para a usar e agradecemos...

                              4ºA da EB1Conde de Ferreira, da profª Isabel
                              4º B da EB1Conde de Ferreira, da profª Inês
                              4ºA da EB1 Feliciano Oleiro, da profª Mercedes
                              4º B da EB1 Feliciano Oleiro, da profª Conceição 


Se eu fosse um livro...

1 Se eu fosse um livro... 
...gostava de ser misterioso.
…de ter um milhão de informações dentro de mim.
…gostava que o leitor entrasse dentro de mim…
…que encontrasse uma passagem secreta
…e que me lesse todo.
…gostava de ser lido muitas vezes.
…queria ser o rei dos livros!

2 …gostava que nenhum cão me estragasse.
…queria contar histórias da natureza.
…e saber muitas coisas sobre animais.

3 …Queria que me levassem à rua e me tratassem como um animal de estimação.
 …não queria ser arrastado pelo chão.

4 …gostava de andar com o leitor para todo o lado.
…de lhe fazer companhia em todas as viagens.
...não queria ser atirado para um canto, de qualquer maneira.

5 …queria ser levado para onde as pessoas gostassem de ir.
…não queria ficar à chuva e ao vento como uma tenda.
…gostava que me lessem toda a noite, à luz do luar e das estrelas.
…gostava que dormissem comigo.

6 …gostava de ser uma escada com muita informação.
…gostava que subissem as minhas escadas que são os meus capítulos.
…gostava que me subissem para me lerem todo.
 
7 …gostava que me agarrassem para me ler, sempre que pudessem.
…gostava que caminhassem entre as minhas palavras.
...gostava que me fizessem cócegas.
…gostava de conhecer bem o mar e ir lá buscar letras para contar histórias bonitas.
…gostava de contar histórias de terror.

8 …gostava de ser um diário bem fechado.
…e bem guardado num estojo.
…mas queria ser aberto.
…queria que me lessem em silêncio.

9 …gostava de me proteger com uma capa como faz o caracol.
…gostava de ser lido devagar…
…gostava de ser lido em casa, calmamente.

10 …gostava que me abrissem e me deixassem falar
…não gostava de contar histórias que metessem medo.

11…gostava de ser um labirinto de palavras que toda a gente lesse.
…queria que me tivessem em todas as casas.
…não gostava que todos fossem iguais a mim!
…queria ser popular!
…gostava de viver na cidade dos livros, que é a biblioteca.
...queria ser um Centro Cultural.

12 …queria que navegassem em cima de mim para aprender mais.
...queria que mergulhassem muito fundo para ler as minhas palavras.
…gostava de ser como uma piscina cheia de histórias.
…não queria cair à água.

13 …gostava que brincassem comigo.
…gostava de voar.
…e ser lido no ar...
…gostava que os pássaros também me lessem.

14 …gostava de estar num jardim de livros.
…gostava de crescer muito!
 …gostava de ser lido pelas flores.
…gostava que me tratassem como a uma flor.
…gostava de multiplicar as rosas do jardim.
…gostava de ter em mim histórias lindas como rosas.

15 …gostava de ser o mar.
…navegado pelos marinheiros.
…que navegassem nas minhas páginas.
…e descobrissem coisas novas.

16 …gostava que quem me lesse iluminasse as minhas páginas.
…e gostava de iluminar as pessoas que me lessem.

17…gostava de voar, voar e ver o mundo.
…gostava de escrever sobre o ar.
 …gostava que os aviadores me levassem para me lerem nas suas viagens.
…gostava que voassem nas minhas letras.
…gostava de passar por entre as nuvens para as gotas me lerem.
…e gostava de ser lido pelo vento.

18 …gostava que cuidassem de mim.
…queria ser um livro com muita informação para varrer as respostas erradas.

19 …gostava de ser grande.
…que fossem curiosos para me lerem.
…que as pessoas me lessem com atenção.
…gostava que o leitor ficasse preso a mim.
 
20 …gostava de estar preso para não me perder.
…não queria ser roubado.
…não queria ficar amarrado.
…gostava de ser lido sempre no mesmo lugar.
…gostava de ter o leitor colado a mim.
…queria que me recordassem.

21 …gostava de contar histórias de cavaleiros.
…gostava de ser um cavalo para me montarem e me conhecerem melhor.
…gostava que me cavalgassem para me lerem.
…queria cavalgar ao vento.
…gostava que se divertissem com as minhas histórias.

22 …queria ser um comboio de histórias.
…gostava de transportar todas as pessoas.
…gostava que me lessem na estação e durante a viagem.
…gostava que viajassem nas minhas palavras.

23 …gostava de ser um castelo e sentir-me protegido.
…gostava que muita gente vivesse em mim.
…gostava de me defender de quem me quisesse fazer mal.
…gostava que lutassem por mim, para ficarem comigo.

24 
"Se eu fosse um livro...
...não me importava de ir para uma ilha deserta com um leitor apaixonado."

 25 …gostava que me ligassem a um computador e que me lessem.
…ou então a outro ecrã qualquer: iPad, telemóvel...

26 …gostava de ter montanhas de informação.
…e que os leitores subissem até ao topo.

27
 "...gostava de ouvir alguém dizer: Este livro mudou a minha vida."


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Recomeçámos a Ler a meias...

Outubro. Regressei à mediação de leitura.
Aconteceu ontem e hoje na biblioteca escolar da escola Feliciano Oleiro. Quatro turmas de 4º ano: duas desta escola e outras duas da escola Conde de Ferreira, que fica situada mesmo em frente (uma escola com 146 anos)! 
Tratando-se da 1ª sessão, foi dia de apresentações; o momento para falar dos nossos futuros encontros mensais e dos temas que poderemos abordar, se não surgirem novas propostas...
O que é um VoluntárioO que é um Mediador de leitura?... Para quê, Ler a meias...?
A propósito de livros: capa, contracapa, lombada, ficha técnica?...; autor, ilustrador, editor?...  (Os meninos sabiam muita coisa.)
Tínhamos ali à mão livros de vários géneros. Histórias tradicionais portuguesas, poesia e informação...
Em todas as turmas, foi mais ou menos assim:
- Recontei A nau Catrineta..., como uma contadora de histórias... (mas servindo-me das ilustrações de Maria João Lopes).
- Li o poema Antigamente.
- Recordámos por que razão foi feriado no passado 5 de outubro...
- Por fim, todos observaram as ilustrações de André Letria, do seu premiado álbum Se eu fosse um livro. E os meninos criaram oralmente legendas para cada ilustração... (A professora Mafalda Rodrigues registou-as todas!)
José Jorge Letria irá certamente apreciar!
-Gostaram? Querem que eu volte? - perguntei, à despedida.
A resposta foi invariavelmente a mesma:
-SIIIIIIM!...
Voltarei. Até à próxima!



 Livros utilizados:

  • António Torrado, Histórias tradicionais portuguesas contadas de novo, Civilização, 2002
  • José Jorge Letria e André Letria, Se eu fosse um livro, Pato Lógico, 2011
  • Luísa Ducla Soares, A cavalo no tempoCivilização, 2003
  • Luísa Ducla Soares, O livro das datasCivilização, 2009

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Uma escola (quase) centenária...

O edifício está lá, no Centro Histórico, restaurado, como novo.
Na fachada, lê-se: Biblioteca Municipal de Palmela. Distraidamente, podemos não observar a traça. E não reconhecer esta antiga escola, do tempo da República, que hoje em dia alberga a biblioteca, bem ativa, por sinal. Uma placa impede que este facto passe despercebido. Contém informação tão completa que inclui mesmo um antigo retrato, a preto e branco. Rostos de meninas que tiveram o privilégio do direito à educação, graças aos ideais e valores culturais republicanos. Investimento arrojado na época, sem dúvida. Com visão de futuro. Com utilidade no passado, presente, futuro...
(Tal como alguém afirmou, quem acha que a educação sai cara, compare com o custo da ignorância...)
E, já agora, recuso-me a admitir a abolição deste feriado!

Foto: Biblioteca Municipal de Palmela, 5 de outubro de 2012
Um agradecimento ao fotógrafo: Joaquim Chaves 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Em demanda do mirandês…



Andei recentemente por Miranda do Douro. Como qualquer turista, com a planta da cidade na mão, caminhei ao longo da muralha pré-românica, visitei o castelo, percorri ruas e largos, observei monumentos e edifícios, entrei aqui e acolá, desci ao cais, fui admirar Miranda da outra margem do Douro… e subitamente entrara em Espanha! Deliciei-me com uma posta mirandesa. Comprei amêndoas e figos secos. Ouvi bombos e gaitas-de-foles, em música bem alegre e ruidosa… Faltou cruzar-me com pauliteiros, o que a curta visita não proporcionou.
Levava a curiosidade de perceber até que ponto a língua local ganhara relevo no quotidiano da cidade, volvidos quase 14 anos desde que recebeu o estatuto de 2ª língua oficial portuguesa. De ouvido à escuta, raras foram as conversas que escutei em mirandês. Nomes de restaurantes e lojas, exibem-se em português. Nomes das ruas e placas turísticas informativas, no Centro Histórico – estes sim, bilingues.
Queria saber mais. Comecei por falar com a Inês, aluna do 5º ano, de sorriso largo e olhar amistoso. Contou-me que aprende mirandês desde que entrou no Jardim de Infância. Agora que frequenta o 2º ciclo, tem todas as disciplinas que têm os meninos do seu país e, como opção, também Mirandês. Toda a turma escolheu mais esta disciplina; só dois colegas não.
- E em que momentos falas tu o mirandês, Inês?
- Falo com os meus avós, nas aulas e, às vezes, no pátio, quando brinco com os meus colegas.
Pedi à Inês que me dissesse algo nessa 2ª língua, o que ela fez, alegremente. Compreendi. Língua românica como o português..., denunciadora da proximidade de Espanha, sem dúvida.
A funcionária do Turismo, percebendo o meu interesse, encorajou-me a percorrer as aldeias da região, onde o mirandês é comummente ouvido, ao contrário do que sucede na cidade.
Na Biblioteca, nova opinião… Que sim, mas que as aldeias se desertificaram. Que há novos moradores vindos de todo o lado e o mirandês não é tão ouvido como dantes. «Era uma língua de cariz popular, usada em família e na comunidade, para falar das alfaias agrícolas, dos animais, enfim, da vida… Transformou-se. Era oral e hoje é escrita. Era uma língua do Povo; hoje é uma língua de eruditos que a estudam e registam (e que nem sempre concordam entre si). Enriquecem-na com novos termos para novas realidades dos novos tempos. E já não parece a mesma!… Há um programa de rádio em mirandês, mas como soa diferente da língua dos nossos avós!»
Três testemunhos. Três pontos de vista com que a repórter às três pancadas satisfez a sua curiosidade.
Pareceu-me prometedor o futuro da 2ª língua portuguesa, ao conversar com a Inês: se já as novas gerações a aprendem e usam, para comunicar entre si!… Quanto aos avós, continuarão a falar com netos e vizinhos, a seu jeito, perpetuando a sua língua despretensiosamente, como sempre - assim dure a vida!… Os eruditos tudo farão para a dicionarizar, inscrever numa gramática, preservar. Afinal, todas as línguas vivas mudam consoante tempos, influências e vontades…
A língua mirandesa resistiu a ditadura e repressão. Não sobreviverá mais facilmente agora?!…
Se dúvidas persistem, o tempo as resolverá...


domingo, 30 de setembro de 2012

Música e tradição: Pastor da Transumância

Videoclipe de uma música cuja letra alude à transumância na Serra da Gardunha. 
A imagem, com o seu reconhecido poder, facilita o entendimento desta tradição ancestral. 
A apresentação deste teledisco fez parte do programa da Festa dos Chocalhos 2012, em Alpedrinha, à qual me referi no artigo anterior deste blogue.




quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Peregrinando entre pastores...


O concelho do Fundão reviveu, recentemente, uma velha tradição: a "Festa dos Chocalhos", em Alpedrinha. 
Trata-se de uma vila situada na encosta da Serra da Gardunha. Em meio rural, terra de pastorícia, anualmente dali se viam rebanhos subir a serra, no verão, em busca de alimento, e fazer o caminho inverso até à planície, no inverno, quando o frio apertava e as pastagens escasseavam. O som do chocalho servia para ajudar a localizar alguma ovelha tresmalhada, apesar da vigilância atenta do pastor e do seu cão... 
Hoje, entre o Fundão e Alpedrinha (distantes de cerca de 10-12 Km), palmilhando estrada alcatroada, caminhos pedestres e antigas vias romanas,  recria-se a transumância, pretendendo manter viva esta memória das práticas pastorícias, assim se preservando o património cultural da região.
De muito mais é feita esta festa popular: a multidão aflui àquelas ruas empedradas e estreitas, onde abundam artesanato e comes-e-bebes, com a permanente animação da música ruidosa e alegre de bombos e gaitas-de-foles... Não faltam Zés-Pereiras, concertos, workshops... 
Este ano, construiram-se instrumentos musicais pastoris, fabricou-se queijo, experimentaram-se teares... Desfilaram cães de proteção de rebanhos. Jerónimo Augusto lançou o seu livro O cão da Serra da Estrela. Projetou-se um documentário de Tiago Pereira sobre a transumância, ao mesmo tempo que Ti-Mário, protagonista do filme e pastor da aldeia do Telhado, tocava ao vivo, em palco. Maria Altina Martins expôs tapeçaria, no Palácio do Picadeiro. O pastor é uma das suas obras que integra a exposição Por canadas de Foz Côa, patente até 14 de outubro próximo.
Pela 1ª vez, fui. Deambulei pela vila, vi, ouvi, assisti, provei... caminhei!
Nada me impressionou tanto como aquela peregrinação atrás de pastores, carneiros, ovelhas e cães da serra da Estrela, através de ancestrais caminhos de transumância... Escuto ainda os chocalhos tilintando em coro uma ritmada melodia que convidava ao silêncio, compassava os passos, suavizava o esforço, permitindo que a atenção se centrasse na paisagem, na flora, na cor e no perfume dos campos... 
Andarilha-peregrina, grata à Natureza.

(Este vídeo demonstra a minha descrição. Se bem o visionarem, lá me poderão descobrir, bem de relance, mostrando o meu bordão improvisado...)



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Setembro, férias...

Voltou setembro, o mês das doces tonalidades, das amenas temperaturas, tempo de vindimar férias e voltar à escola... 
Setembro é o meu mês, aquele em que adiciono um ano aos anos já vividos... Então saboreio os últimos dias quentes de verão com serenidade. E destino o mês inteirinho a negar a pressa de planear um novo ano de trabalho... 
Setembro é quando verdadeiramente admito que estou aposentada. Gaivota voando livre...
Estou decidida a continuar a exercer voluntariado de mediação de leitura, em bibliotecas escolares... Mal pareceria abandonar esta atividade que me é tão grata justamente em 2012, no ano dedicado ao Envelhecimento Ativo...
Tenho já duas reuniões agendadas, em dois dos Agrupamentos de Almada.
Outubro é o mês das bibliotecas escolares. Oportunidade para recomeçar a Ler a meias...
Não tarda, terei novidades.
Até breve!


terça-feira, 11 de setembro de 2012

São palavras...

Com uma palavra te chamo.
Entre palavras, cresce a amizade.
Com elas se acorda a imaginação, constrói-se conhecimento.
As palavras são música e poesia. 
Produzem encanto, desencanto. Como por magia.
Viajam pelo ar, de boca a orelha. 
Buscam um qualquer suporte que as retenha, que as leve para longe, looooonge...., infinitamente.
Cantam e contam. 
Adormecem, despertam. Ensinam. 
Entristecem, alegram. Consolam, encorajam. Aprovam ou desaprovam. Emocionam. Acarinham. 
Salvam!
Propõem partilhas. 
(Em Beja, são Andarilhas.)
E são tantas! E cada qual multiplicando suas formas e sentidos!
São tesouro. Pátria. Talvez Frátria, Mátria...
- Mãe! - chama a Maria, do alto do seu ano e picos..., pois já fala!
Não constitui novidade: qualquer filho repete este chamamento, vezes sem fim. Qualquer mãe sabe bem que é exatamente a ela que o seu filho recorre, em qualquer situação, ocasião e momento do dia... 
Para a Maria, porém, Mãe é palavra universal. Significa Já acordei!, Quero sair daqui!Chega-me isso!Dá-me!Ajuda-me!, Socorro!... Um pedido, seja ele qual for, ao deus-dará...
Sendo só uma, Mãe vale por todas as palavras...



terça-feira, 21 de agosto de 2012

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tempo de poesia: "moaxahas"...


Moaxaha para os dias escuros

Às vezes o dia nasce-me escuro
e sinto contristada que para mim não há futuro

Tento então abrir os olhos à criança que ainda sou
e dizer-lhe que os caminhos aonde vou
fui eu quem os abriu, os adubou, e os plantou
– que os alicerces da minha casa estão firmes, e seguros
e que há portas de ouro abertas nos seus muros

Portas e vidraças por onde triunfante o sol penetra
escrevendo e musicando os meus dias letra a letra
tornando-os imortais como os templos em Petra
– para quê tantos e tão tristes sentimentos inseguros
se plantei a minha casa em chão indómito e maduro?

Amor ei!

Myriam Jubilot de Carvalho
Foto: Manuela Caeiro

  • O que é uma moaxaha?
  • Como se constrói?

- Respostas no blogue da Autora:

  • Aceitas o desafio da CML de criar uma moaxaha dedicada à Lisboa dos nossos dias?
- Para conheceres a iniciativa, saberes prazos, etc, consulta:


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A casa de férias de "O Senhor Valéry"

«O senhor Valéry tinha uma casa sem volume onde passava férias. A porta e uma fachada eram as únicas coisas que existiam.
- Nos dois sentidos se pode entrar e sair - dizia o senhor Valéry, todo contente.

Ele gostava da sua casa de férias.
Melhor só mesmo uma casa com quatro portas, em quadrado, sem nenhuma parede.
O centro a restar como o único sítio onde se pode estar sentado.
O senhor Valéry fez um desenho.
Chamou-lhe: a casa das quatro portas juntas.
Entra-se por qualquer lado e é sempre igual. É esta a casa de férias que eu quero - dizia o senhor Valéry.
-Evitarei perder-me em compartimentos - dizia. Só existirão portas. É que só consigo repousar se não tiver que decidir nada, e para que isso aconteça é indispensável não existirem opções. Parece-me lógico.
-É um sonho que eu tenho, esta casa - murmurava o senhor Valéry. - Seriam as férias perfeitas.»
Tavares, Gonçalo M., O Senhor Valéry, Caminho, 2008, 4ª ed, pp. 27-28
Desenhos de Rachel Caiano

O senhor Valéry é um dos moradores do seu bairro... Solitário, reflexivo e cheio de ideias e atitudes lógicas... ou talvez ilógicas?!... É um filósofo!...
Os seus vizinhos são também curiosas personagens de outros tantos livros de Gonçalo M. Tavares. 
Imagina!