segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tempo de poesia: "moaxahas"...


Moaxaha para os dias escuros

Às vezes o dia nasce-me escuro
e sinto contristada que para mim não há futuro

Tento então abrir os olhos à criança que ainda sou
e dizer-lhe que os caminhos aonde vou
fui eu quem os abriu, os adubou, e os plantou
– que os alicerces da minha casa estão firmes, e seguros
e que há portas de ouro abertas nos seus muros

Portas e vidraças por onde triunfante o sol penetra
escrevendo e musicando os meus dias letra a letra
tornando-os imortais como os templos em Petra
– para quê tantos e tão tristes sentimentos inseguros
se plantei a minha casa em chão indómito e maduro?

Amor ei!

Myriam Jubilot de Carvalho
Foto: Manuela Caeiro

  • O que é uma moaxaha?
  • Como se constrói?

- Respostas no blogue da Autora:

  • Aceitas o desafio da CML de criar uma moaxaha dedicada à Lisboa dos nossos dias?
- Para conheceres a iniciativa, saberes prazos, etc, consulta:


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A casa de férias de "O Senhor Valéry"

«O senhor Valéry tinha uma casa sem volume onde passava férias. A porta e uma fachada eram as únicas coisas que existiam.
- Nos dois sentidos se pode entrar e sair - dizia o senhor Valéry, todo contente.

Ele gostava da sua casa de férias.
Melhor só mesmo uma casa com quatro portas, em quadrado, sem nenhuma parede.
O centro a restar como o único sítio onde se pode estar sentado.
O senhor Valéry fez um desenho.
Chamou-lhe: a casa das quatro portas juntas.
Entra-se por qualquer lado e é sempre igual. É esta a casa de férias que eu quero - dizia o senhor Valéry.
-Evitarei perder-me em compartimentos - dizia. Só existirão portas. É que só consigo repousar se não tiver que decidir nada, e para que isso aconteça é indispensável não existirem opções. Parece-me lógico.
-É um sonho que eu tenho, esta casa - murmurava o senhor Valéry. - Seriam as férias perfeitas.»
Tavares, Gonçalo M., O Senhor Valéry, Caminho, 2008, 4ª ed, pp. 27-28
Desenhos de Rachel Caiano

O senhor Valéry é um dos moradores do seu bairro... Solitário, reflexivo e cheio de ideias e atitudes lógicas... ou talvez ilógicas?!... É um filósofo!...
Os seus vizinhos são também curiosas personagens de outros tantos livros de Gonçalo M. Tavares. 
Imagina!