terça-feira, 21 de abril de 2009

Os livros...

«Livros são os mais silenciosos e constantes amigos, os mais acessíveis e sábios conselheiros e os mais pacientes professores» - afirmou Charles W Elliot. O João, 6 meses de idade, não diz, mas pratica com convicção: «Os livros são para devorar!"... :-)

O meu tio

Um título destes, no singular, confundirá qualquer membro da minha família: são tantos tios (e principalmente, tias), «de quem irá ela falar?»...

Ainda no século XX, eram muito numerosas as famílias … A “demografia” não constava do léxico e certamente não estava na ordem do dia. O meu pai tinha cinco irmãos; a minha mãe, onze!

Nada de dúvidas: refiro-me ao meu mais novo tio paterno.

Moreno, conserva a pele tisnada do sol das muitas caminhadas diárias… Vertical, pugna intransigentemente pelos seus princípios… e é um prazer calcorrear a marginal a seu lado e ouvi-lo falar tempo sem fim, tomando posição sobre assuntos que vêm à baila ou evocando memórias. Algumas das quais em que sou protagonista, na juventude.

Com setenta e oito anos completos, desfia longas histórias de toda uma vida de estudo e trabalho, composta de tudo o que preenche qualquer vida intensamente vivida: muitas escolhas e lutas; êxitos e insucessos; “nódoas negras” e alegrias; motivos de satisfação e orgulho...

Para qualquer criança (ou mesmo pai) dos nossos dias, seria inimaginável viver tudo aquilo por que passou. Ele e várias outras crianças que moravam em lugarejos e cujos pais tiveram brio e posses para os “pôr a estudar”; que foram forçados a vencer duras provas.

«O que não nos mata faz-nos crescer» - dizem. Assim aconteceu.

Aos dez anos, o meu tio saiu da sua aldeia, da casa de família, e foi estudar para o Porto. Sozinho. Ano após ano, cada vez mais crescido e responsável, tratava do seu alojamento, das matrículas, da gestão da parca mesada, da organização do seu estudo… Uma autonomia e independência conquistada a pulso, de terra em terra. Do Porto para Lisboa. Mais tarde para Luanda. De novo, Lisboa...

Satisfeito, olha para trás, tenta um balanço e divide os seus anos em três fases: 1) “A vida activa”, onde aglutina quer a idade adulta quer a sua infância, precocemente amadurecida…; 2) “A reforma”, o período de liberdade para trabalhar no que deseja, com direito ao descanso de que necessita – um direito justo para todos, em qualquer idade, como ele afirma judiciosamente, contrariando, sorridente, o que sabe pela sua experiência e, sobretudo, pela sua formação em Economia...; 3) “A doença”…

O coração cansou-se. A doença coronária que recentemente se manifestou, acrescentou-lhe sentido à vida. Afinal, tem fim! Há que vivê-la. Bem. “Um dia de cada vez”.

Como? Sabemos. Vigiando a alimentação, mantendo hábitos saudáveis, praticando exercício físico com moderação… Mas há mais. Contando com a família. Cultivando amizades. Dando vida aos anos.

Envelhecemos quando desistimos de fazer coisas novas. Isso, não!
Somos velhos quando deixamos de sonhar.
Para o meu tio, “sonhos” são objectivos que nos levam a realizar projectos… Não importa a sua grandeza.

(Vem-me à ideia Fernando Pessoa: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.»)

"Fundamental, para nos sentirmos felizes, é aprender, planear, concretizar" - conclui.
Concordo. A felicidade está bem ao nosso alcance!