segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma canção, pela paz...




Músicos de rua cantaram, em diferentes locais do mundo, uma mesma canção: "Stand by me". Pela paz.

Alguém concebeu a iniciativa... conjugou vontades... e muitos se envolveram na sua concretização.
O YouTube exibe o vídeo: é um facto que se mobilizaram e conseguiram!

A ideia parece criativa... menos fácil é acreditar que esteja apta a alcançar tão ambicioso objectivo...

A Paz parece inatingível quando não têm fim lutas entre povos vizinhos..., são violadas tréguas estabelecidas..., a indústria da guerra floresce...; pululam ódios raciais e étnicos...; a exploração do homem pelo homem assume os mais variados cambiantes...; acentuam-se desigualdades sociais...; a violência vive instalada na intimidade do seio familiar, onde a relação de afecto seria a única com verdadeira razão de existir...

Uma canção pouca diferença fará. Apesar da universalidade da linguagem musical.
Mas é certo que qualquer acto causa reacção... e pode gerar diferença.
Sem dúvida, grandes realizações começaram por uma simples ideia.
"Não há caminho... O caminho faz-se caminhando."

Paz?
Eu quero acreditar que ela possa espalhar-se como um manto... que cada um de nós ajudará a estender...
...«Paz... aos homens de boa vontade...»


O 1º de Janeiro aproxima-se; é o Dia da Paz.
Vem mesmo a propósito:
Feliz Ano Novo!...

Já agora, aqui fica o link para quem queira aceder ao vídeo e ouvir a canção:
http://www.flixxy.com/peace-through-music.htm



(Ou então, cantada por Ben King, com direito a tradução: http://www.youtube.com/watch?v=QxRyPKYlIsc )


Outro link ainda, para quem queira saber mais sobre este evento pela paz: autores, participantes... http://www.mahalo.com/Stand_By_Me_Video


quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

"As galinhas da Vovó"...


É este o meu presépio. O indispensável símbolo desta época natalícia, data em que, mais ou menos conscientemente, o mundo celebra um nascimento.

O meu presépio não é branco nem negro: é cor de terra, castanho. Cor do material simples de que é feito: o barro. Saído de mãos hábeis de um artesão que o moldou com formas estilizadas. Simples e sóbrio, como eu gosto.

Simbólico e discreto, o meu presépio não escapou aos olhos atentos do Francisco. Dois anos e meio ladinos e curiosos, parou em frente dele, no meio das suas correrias alegres pela casa fora.
Olhou, reviu num ápice os seus conhecimentos do mundo, relacionou-os e inferiu, convicto: "(...são)...as galinhas da vovó...".
Confundira as ovelhinhas... apesar destas não serem exactamente como as galinhas que vira há tempos, algures num quintal...


Perplexos, os adultos riram... e apressaram-se a aproveitar aquele momento para uma lição precisa e breve, como convinha: "não é uma capoeira: é um estábulo"... e mais isto e mais aquilo... blá-blá-blá...:

"Nasceu Jesus, muito pobrezinho, mas tinha Mãe e Pai... e animais amigos"...

São assim os olhos das crianças...


...Feliz Natal!...


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Citação...

"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

domingo, 14 de dezembro de 2008

Contar histórias é fundamental...


Do património oral fazem parte todas aquelas histórias ancestrais que passaram de pais para filhos, de boca em boca, mesmo antes de haver escrita ou quando esta era apenas privilégio de alguns...

Foi assim, passando de geração em geração, que chegaram até nós lendas, contos tradicionais, quadras populares, provérbios, adivinhas, lengalengas e trava-línguas... que continuam a deliciar quem os escuta... e muito divertem jovens e menos jovens...

Desde o século XIX, quase tudo passou a ser escrito. E ainda bem: o mais certo seria que muito deste legado se perdesse...

O hábito de contar histórias foi sendo substituído pela atenção à TV e outras diversões. Mas não há nada como uma criança escutar uma história... e assim desenvolver a sua capacidade de concentração e memória, estimular a imaginação, fazer perguntas, enriquecer a linguagem, resolver problemas...

Pode acontecer até que essas histórias preencham o seu imaginário e ganhem, um dia, uma nova vida...

A jovem Joana Pires escutou muitas vezes o seu pai... Este, natural de Angola, atravessou tempos de guerra, no seu país, e guardou na memória duras histórias que repetidamente contava à filha, na sua infância...

A Joana vive na Austrália, onde está a finalizar um Curso de Arte, de Direcção de Actores...
Ontem, ela levou à cena "A Rosa de Angola", que teve uma estreia coroada de êxito.
As histórias que guardou na memória constituem um importante património oral que este pai legou a sua filha... que, por sua vez, o soube recriar e escrever...

Bem-hajam. Parabéns!

Uma flor para a Austrália..., onde as histórias da História de Angola são agora recontadas!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Tempo de poesia...

«na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.»

José Luis Peixoto, A criança em ruínas, Quasi, 5ª ed, 2003
(p. 13, poema integral)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Uma rosa - para Estocolmo

Porque as flores são silenciosamente fluentes, quando as palavras nos morrem na garganta...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pelos Direitos Humanos!

video

Há 60 anos, no dia 10 de Dezembro de 1948, foi adoptada e proclamada, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

10 de Dezembro. Dia de comemoração, dia dos Direitos Humanos.

Por isso, tal como o fazemos nas datas dos nossos aniversários ou no fim/ início de um novo ano ou ciclo, é também tempo de reflexão, tempo de nos orgulharmos pelo que já conseguimos, mas também, e sobretudo, tempo de olharmos para o que ainda temos para fazer.

Sessenta anos! Muito tempo, muita luta, muita batalha vencida.

Mas...

«Não há mas./Todos temos culpa. E a nossa culpa é mortal.»

(António Gedeão)

In: http://direitos-humanos-esm.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Natal, e não Dezembro

A cidade revela bem que é Dezembro...
Saibamos preparar-nos para acolher o Natal...


Natal, e não Dezembro (1962)


Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.


Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.



David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal, Editorial Verbo, 2ª edição


Voltei à escola...

Setembro trouxe, como sempre, infalivelmente, um novo ano lectivo...
Entre dias amenos, dando lugar à esperança de belos dias ao ar livre, ainda por acontecer, foi tempo de preparativos para receber novas e velhas turmas, alunos novos ou desconhecidos; jovens curiosos ou desmotivados, tímidos ou atrevidos, francos ou dissimulados, preguiçosos e empenhados, maus e bons alunos…, cada um carregando as suas expectativas e limitações, receios e sonhos, por vezes bem distantes do que deles se espera, na escola… Para mais neste ano em que metas de sucesso, de tudo e mais alguma coisa, passaram a ser mensuráveis em grelhas e mais grelhas, de forma diversa em cada recanto do país…

Setembro trouxe-me à memória os meus tempos de menina, os meus primeiros passos na escola…
Nos idos anos 50, eu fui das que fizeram uma passagem pela Pré-Primária!… “Lembro-me” disso, talvez apenas devido às repetidas narrativas da minha mãe, confirmadas por uma fotografia de uma daquelas festas de fim de ano lectivo para pais, na qual estou, bem pequenina, muito senhora do meu papel de anão,
seguindo a bela Branca de Neve (certamente, a Educadora)…

Tinha sete anos já bem contados quando entrei para a “1ª classe”. Assim ditou a exigência da idade, à data da matrícula.
Levava, certamente, o cabelo preso por um largo laço branco e um vestido cintado, preso nas costas por outro grande laço, acentuando a saia franzida e rodada… uma imagem que se repete nas escassas fotografias que conservo…

Não sei quantas seríamos naquela sala branca com quadro negro de ardósia, com carteiras muito alinhadinhas, de sólida madeira, com uma concavidade para colocar frágeis lápis de ardósia… (Ai, eles que não caíssem!…) e também canetas de aparo que introduzíamos, repetidamente, num branco tinteiro de cerâmica, implantado ao meio, a fim de recolhermos a imprescindível tinta permanente… causadora de dramáticos borrões!…

Recordo as infindáveis filas de carteiras, ocupadas por muitas meninas negras, mulatas e brancas (todas nós portuguesas, a maioria nascida em Angola) e conservo a vaga imagem da minha professora exigente e intransigente, que a todas tudo ensinava, mantendo uma disciplina garantida pelo infalível método das reguadas…

Quem tivesse capacidade de memória e raciocínio, método de estudo e um comportamento dócil (natural na época… e para mais nas meninas…), facilmente passaria incólume a castigos corporais e obteria sucesso escolar.
Ano após ano, fui assim avançando na minha escolaridade…

Nos anos 70, voltei à escola.
Desta vez, do outro lado das fileiras: como professora.
Empunhava um horário de 28h lectivas, que me atribuía sete turmas, de 40 a 45 alunas cada, perto de trezentas meninas, negras, mulatas e brancas (nascidas na Guiné; todas portuguesas, ainda que falando crioulo, entre si) a quem eu deveria ensinar Francês e que eu deveria avaliar…

Dera explicações, enquanto estudante; trabalhara voluntariamente numa sala de estudo, num bairro da lata, em Lisboa…
O meu curso, como era habitual, não tivera estágio integrado…
O curso de Ciências Pedagógicas era tão teórico quanto toda a formação académica feita, até então…
Em suma, aprendera a ser professora, observando aulas na minha condição de aluna. E pouco mais.

Reuniões de grupo... e colegas disponíveis para ajudar; paixão de ensinar, vontade de aprender e vencer desafios… amadorismo… Sempre aprendiz, fui somando experiência.

Sinto-me feliz por ter trabalhado nestes anos que passaram: devotada à profissão e aos alunos, em dedicação exclusiva e voluntária, tudo fazendo com prazer, por paixão…
Cargos exercidos rotativamente, tornando todos corresponsáveis pelo bom desempenho dessa missão...
Reuniões de efectivo trabalho... e não apenas para desbravar chorrilhos de novas legislações...
Participação periódica num Conselho Pedagógico, em que eram discutidos, democraticamente, problemas concretos e onde se procuravam soluções, nos limites do nosso poder de decidir e agir, após a auscultação de todos.
Muitas condições de trabalho foram, deste modo, melhorando... muitas questões pedagógicas, resolvidas.

Noites curtas para tanto que fazer!
A pasta carregada, sempre atrás…
Acompanhamento de estágios.
Formação aos sábados… por opção!
Congressos pagos, em período de férias…
Experimentação de novas metodologias.
Recurso a todas as estratégias... e aos meios tecnológicos à nossa disposição...

Cada novidade e dificuldade sendo encarada como uma nova oportunidade.

Muito trabalho! Sem fugir a desafios nem a responsabilidades.
Sem ter em mira qualquer recompensa, a não ser ensinar melhor.
Pelos alunos.


Profissão e não carreira.
Sujeita a uma avaliação periódica.

Fazendo formação, regular e obrigatoriamente.

Voltei à escola, este ano.
Num período de descontentamento e luta.
Em que reina a desconfiança no nosso trabalho e a incerteza de uma avaliação justa.
Em que nos sobrecarregam o horário, sem nos darem condições para trabalhar, no local onde somos obrigados a permanecer.

Num novo tempo em que escasseia o respeito granjeado e merecido.

Num momento em que os meninos de várias cores falam várias línguas, as turmas aumentam sem cessar, as problemáticas multiplicam-se... o que não se resolve sem tempo e serenidade para corresponder aos desafios desta nova realidade...

Voltei à escola.
No momento oportuno para lhe dizer adeus.

Um exemplo e conselho


Baloiço
Mise en ligne par ManuelaCaeiro



Dedicatória:

À Ana Santos, minha jovem leitora

E a todos os jovens e menos jovens leitores que me visitam.

.........

A ave baloiçava feliz

num ramo de coqueiro sacudido pelo vento...

Não se sentia em perigo

e achava divertido tanto balanço e movimento...

- Nada é seguro na vida, nem sequer para os humanos,

e é preciso, portanto, dar-lhes exemplo e conselho:

«Saibamos saborear cada momento!»